PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Júlia Rocha


Dá para humanizar o SUS num mundo que vive de desumanizar?

Operação policial no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, em 2017 - José Lucena/Futura Press/Estadão Contéudo
Operação policial no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, em 2017 Imagem: José Lucena/Futura Press/Estadão Contéudo
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

31/05/2020 11h30

Dá trabalho promover saúde, sabia? Ainda mais em condições tão adversas. Sem saneamento, sem emprego, sem segurança alimentar, sem escola, sem lazer, sem cultura, sem preservação do meio ambiente, sem infraestrutura, e com tratamento especial dos agentes da segurança pública para jovens na comunidade. Um novo serviço que entrega morte em domicílio. Dá trabalho e fica ruim! Fica meia boca. Fica mais ou menos. Por que não importa o que se faça em uma unidade de saúde, não importa o quanto nos esforcemos como profissionais. Com a despensa vazia, ou com o filho morto na sala, meu irmão, ninguém tem saúde. Manda um pai de três filhos controlar a pressão e o diabetes com as crias chorando de fome para você ver.

Nesta semana, o povo negro de Minneapolis (EUA), com o apoio massivo de pessoas brancas sabedoras de seus privilégios de raça, seguiu os conselhos de Malcom X e se voltou contra as pessoas certas. Malcom ensinou que precisávamos estar atentos para que os jornais não nos fizessem odiar o oprimido e adorar o opressor. Parece que não faltou atenção. A reação foi justa e em um ponto didática para brancos brasileiros. Lá, sabedores de seus privilégios de raça, entendendo que policiais não batem ou matam pessoas brancas simplesmente por elas serem brancas, estas pessoas formaram uma barreira de segurança em torno de pessoas negras para que estas, sim, pudessem fazer o que precisava ser feito.

Eu me peguei pensando em qual foi o caminho que a classe média branca brasileira tomou para tolerar conviver com tantas atrocidades contra o povo negro, indígena, contra mulheres, contra pobres, contra trabalhadores no Brasil sem se mover a ser este escudo.

Essa matança não é uma exclusividade brasileira, apesar de aqui ela ter suas peculiaridades, mas dói, sabe? Machuca, mata aos poucos ver essa desgraça acontecendo outra vez, e outra e outra, e acompanhar todo o ritual que se segue, depois que o menino já morreu, depois que não há mais volta, que o coração já parou de bater. Sabe... as notas de repúdio, os desenhos das crianças para todos postarem nas redes sociais, os gritos de "João Pedro, presente". Que mentira! Ele não está presente! Nem ele, nem Agatha, nem Marielle, nem os outros milhares de indígenas, de mulheres, de pobres, de negros, de trabalhadores, de sem-terras. É só ausência. A ausência trágica de tantos e tantos e tantos jovens que morreram cheios de saúde, num massacre provocado por um sistema desumano e desumanizador.

Chega uma hora que cansa, sabia? Cansa ser pacífica. Chega uma hora que dá vontade de seguir o exemplo do povo negro de Minneapolis.

Mas voltando ao propósito desse texto que é falar sobre a possibilidade de se humanizar o SUS e a assistência à saúde de forma isolada, como se pudéssemos criar, dentro dessa estrutura que desumaniza e coisifica seres humanos, uma ilha de proteção para nossos pacientes localizada dentro do nosso consultório, eu vou lhe dizer: é enxugar gelo.

Recentemente, o ministro da educação disse que "odeia o termo 'povos indígenas'". A ministra da mulher e -qualquer coisa - (não importa, já que eles pouco se importam), disse que se assustou por que os povos tradicionais, os povos originários, os quilombolas, os ciganos, os seringueiros estão em maior número do que ela pensava. Ela não comemorou. Ela se assustou. E se irritou! Pior: ela alertou o presidente para o fato preocupante de que crianças estavam nascendo nos quilombos e crescendo ali, com valores dali, criando assim uma identidade própria incompatível com os valores cristãos, evangélicos que esse governo parece querer nos enfiar goela abaixo. Apesar de serem estes povos profundos conhecedores de formas mais equilibradas de convívio com toda a natureza e capazes de no ensinar formas mais justas de sociabilidades humanas, para Damares, há muitos deles. São mais do que ela pensava que fossem. Estão sobrando, aos milhares.

Fascista é assim, mesmo. Não tolera o diferente. Não suporta. Odeia! O preocupante é que são justamente essas diferenças que nos fazem humanos. É nossa singularidade, nossa capacidade de criar e produzir cultura, de buscar sentido, de construir subjetividade, nosso jeito único de viver e preservar o que produziram nossos mais velhos. É isso que nos faz gente. Gente plena que anseia por vida plena. A intenção de nos transformar nessa massa homogênea que eles dizem ser um único povo, calando nossas forças ancestrais, silenciando os terreiros, as aldeias, os quilombos e transformando essas gentes, esses indomáveis, esses indesejáveis em obedientes trabalhadores a serem explorados dentro de uma lógica capitalista, anexando seus territórios, antes preservados, para que virem pastagem para boi ou campo para soja não é mera ideologia patriota. É a justificativa moral para aniquilar povos inteiros.

Se há 3 ou 4 séculos a parte branca da humanidade discutia se negros e índios tinham ou não tinham alma e assim determinavam se era possível coisificá-los até o ponto de trocar seus nomes, separá-los de seus familiares, vendê-los como mercadorias e escravizá-los fazendo-os trabalhar até a morte. Há menos de um século a máquina de propaganda da Alemanha nazista produzia filmes em que comparava a migração de judeus pelo mundo à infestação de ratos, afirmando que assim como estes animais, o povo judeu era responsável por espalhar miséria e doença por onde iam. Foi só depois que o estado nazista alemão construiu a ideia de que judeus pertenciam a uma subcategoria de gente que o cidadão médio alemão aceitou que era, sim, aceitável escravizá-los e matá-los de fome ou asfixiados em câmaras de gás.

Fico imaginando uma campanha de humanização da assistência à saúde dentro de um estado nazista em pleno funcionamento. E olho para o nosso tempo, para a mídia hegemônica entregando dentro da casa de cada família a imagem do povo brasileiro como criminoso, do índio como preguiçoso, do negro como traficante, do sem-terra como ladrão. E olho para mim, fazendo cara de útil, de importante, falando de humanização do SUS no Brasil de 2020.

A máquina de propaganda anti-povo é tão importante para manter tudo como está quanto o fuzil na mão do policial apontado para a cabeça da mulher que chora seu filho morto na favela. É essa propaganda que cria e reproduz a justificativa moral que nos fará aceitar passivos o extermínio desses povos. Afinal, nem humanos eles são. Fica mais fácil para o "cidadão de bem" aceitar que eles sejam tratados como ratos. Se nosso cérebro estava sedento por explicação, por justificativa, dizer a ele que essas pessoas não são gente, ou pelo menos que não o são em plenitude, tem se mostrado uma estratégia bastante eficiente.

No capitalismo, esse jogo é tão importante como o ar que respiramos. A existência de grupos tidos como inferiores, como sub-raças, sub-cidadãos, merecedores de uma sub-vida é o que garante a superexploração dessas pessoas num mercado de trabalho precarizado. Tornam-se todos entregadores de comida ou motoristas de aplicativos agradecidos por conseguirem o alimento e mais nada. É a uberização da vida. Sem direitos trabalhistas, sem direito a cidade, morando mal, vivendo mal, sobrevivendo. Aos poucos, vamos normalizando o inaceitável.

A desumanização se completa quando as estruturas sistêmicas se apropriam da nossa subjetividade, da nossa capacidade mental de discernir entre o que pode e o que não pode existir. Desse ponto em diante, passamos a não ameaçar este estado de coisas. E é fácil aceitar que o outro seja tratado como uma sub-categoria do humano, principalmente quando não fazemos parte do grupo que é desumanizado. Não dói na gente, não é mesmo? Pimenta no olho do índio, da mulher, do negro, do pobre, é refresco. Então, quando não mais se enxerga ali uma pessoa, já se pode matar aquela coisa enforcada no supermercado, fuzilada dentro de casa, esfaqueada no meio da mata, ou de doenças evitáveis na fila do SUS. Tudo sem que se queime uma delegacia sequer. No caminho, algumas notas de repúdio sobre os corpos caídos no chão.

Falar de humanização da assistência à saúde sem falar desta estrutura que legitima, não só a desumanização, mas a morte de quem não se parece com esse ideal de humanidade é ineficiente. Nem a medicina, nem a enfermagem, ou a fisioterapia, a nutrição, a psicologia, a terapia ocupacional, a educação física estão descoladas desta realidade racista, misógina, eugenista. Foram todas ciências geradas em solo colonizado por essas estruturas. É preciso força, energia e vontade de fazer diferente para sair dessa matrix. É preciso radicalizar o pensamento para mudar estruturas e transformar realidades.

Se acharmos suficiente brigar para que os seres humanos sejam tratados com humanidade apenas dentro dos limites do nosso consultório corremos o risco de que morram cheios de saúde pela bala genocida do estado. De que adianta lutar por humanização na saúde, ou na educação, ou na segurança pública ou onde você quiser, se o estado vem matar e prender meus pacientes na favela, bem depois da consulta onde eu disse a ele que não faltava saúde para que ele vivesse mais cem anos?

Júlia Rocha