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Júlia Rocha


Saúde mental, Paulinho da Viola e o Rio de Janeiro

Kelly Fuzaro/MTV
Imagem: Kelly Fuzaro/MTV
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

22/05/2020 10h41

Passo a semana tentando construir esse texto sem precisar falar só de morte novamente. Tem sido difícil, mas desta vez eu vou conseguir. E a razão do meu otimismo é que, já na segunda-feira, vi Paulinho caminhando pela Lapa. Depois de vê-lo seguir o som de sua criatura "Choro Negro", pisando como se chão não houvesse, andando sobre as flores que nasciam sob seus pés, como sempre acontece com os homens como ele — eu imagino — buscando a direção das notas e da sobre-humana melodia que era dele mas que também é nossa, minha missão de falar de vida, de sobreviver, ser teimosamente feliz nesse lugar que chamam de país ficou possível.

Vivemos o luto do nosso jeito de estar no mundo. Tudo morreu. Ou quase tudo. Desculpe, é preciso falar da morte se quisermos falar de vida. Sabe quando alguém morre e nós ficamos aqui dizendo: "coitado, não pôde nem se despedir das pessoas que ele amava. Não pode resolver os conflitos, pendências, pedir desculpas, dizer um último eu te amo ao seu amado." Pois é. Começa aí esse inominável desconforto. A vida que levávamos morreu e estamos coletivamente em luto. Dos empregos ao pão sobre a mesa. Tudo resolveu ir embora ao mesmo tempo deixando para trás um buraco imenso que dói, que faz chorar e nos dá a dimensão de um vazio para o qual não queremos e nem sabemos olhar.

Uma parte desse "nada", desse vazio, desse buraco que ficou nos demanda ativa busca por preenchê-lo. A imensidão do que nos foi tirado não é, nem de longe, algo pequeno, desprezível. E hoje meu olhar de mulher, de artista, de médica fita cada uma das pessoas que passam por mim nessa busca de novos sentidos.

Da mulher negra e pobre, carregando o fardo de uma vida seca, árida, que resolveu em plena pandemia buscar a médica que a escuta e falar das suas dores. Então somos nós duas, de máscara, protegidas pela distância e pelas barreiras que evitam a doença mas não impedem que nos enxerguemos e que nos reconheçamos. Ela fala alto para vencer o tecido que a amordaça. Está acostumada. E enfim, em meio ao caos, pode falar de si. Está se dando a chance de reorganizar, revisitar, reviver e superar suas dores e seus desgostos tão antigos. Ontem, ela sorriu. Enfim, estava mais leve, como nos aconselha Regina.

Do marido já muito idoso a me procurar semanalmente com o exame de sangue de sua amada. "Eu disse a ela que não precisa sair. Eu venho por ela. Não quero imaginar perdê-la. Sei que ela é mais frágil que eu. Posso vir conversar com você e levar as orientações para ela. Assim, sinto que ela está mais protegida."

Se nos fosse dada a chance de nos preocupar apenas com o que de fato é problema em momentos como esse (o vírus, o álcool, a máscara, o supermercado) talvez não estivéssemos em frangalhos como estamos. Eu digo isso para que tenhamos coragem de tirar esse piano que carregamos nas costas e, como nos aconselha Regina, viver mais leves. Mas não é possível individualizar a culpa, a responsabilidade, a discussão sobre o nosso sofrimento. Ele é coletivo. Saúde mental depende diretamente de não estarmos submetidos a lideranças tão insensíveis, para não dizer perversas, fascistas.

Dizer que a mulher que sofre a fome dos filhos e o abandono estatal precisa de antidepressivo não é falar de saúde mental. É ser idiota.

Por óbvio, somos diferentes, reagimos de formas diferentes, temos histórias de vida diferentes, e por isso estamos diferentes em meio a tantas atribulações. Contudo, nem a mais saudável e funcional das mentes resiste incólume ao fascismo e sua barbárie. Não é você, camarada. O problema não é você! Não é você que é fraco, não é falta de antidepressivo, de ioga, de exercícios de respiração. É a força capitalista, no seu mais profundo desdém pela vida, mostrando seus dentes, ao concentrar riqueza e renda, ao explorar trabalhadores até a última gota de sangue e ao negar aos mais vulneráveis o direito básico à vida e à preservação da saúde.

Paulinho da Viola, genial brasileiro que tenho a honra de cantar em tantas rodas de samba, é a nossa teimosia personificada. Ele é o espelho de uma classe - negra, pobre, trabalhadora - que por conta do tamanho da sua genialidade, obrigou as classes dominantes deste amontoado de gente chamado Brasil a engolir o samba como a mais poderosa representação da identidade brasileira.

Os donos do poder e do dinheiro aqui destas terras, até outro dia mesmo, sequer permitiam que a identidade brasileira levasse em conta o seu povo índio, negro, mestiço. Se negavam, esses falsos intelectuais, falsos pensadores, a acatar a força da cultura popular e diziam que o Brasil era um país de brancos escutadores de música clássica europeia. Eu dou risadas... Mas como diria Chico, o dia não pede licença para raiar.

Somos, com ou sem autorização, o Brasil do povo brasileiro. Do povo trabalhador negro, índio, mestiço, herdeiros das forças mais potentes da natureza preservadas nas nossas folhas, nos nossos banhos, nos nossos atabaques. É certo que o que nos falta é estarmos juntos, organizados politicamente em busca da Revolução Brasileira. A Revolução do povo que constrói esse país.

Paulinho da Viola andando pela Lapa em busca do violão, do cavaquinho e do pandeiro que choravam aquele Choro Negro é a síntese do que precisamos fazer para derrotar o medo, a treva, o mal. Sair da plateia que vaia e assim alimenta o fascismo para caminharmos coletivamente em direção ao poder genuinamente popular. Construir as saídas. Exercer SOLIDARIEDADE DE CLASSE. Buscar, como na música, orientar nossas potências. Canalizar as indignações. Organizar a revolta. Mobilizar as esperanças.

Em agosto do ano passado, depois de assistir a uma apresentação na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, eu ouvi de...

Posted by Paulinho da Viola on Sunday, May 17, 2020

Acho que fiquei de falar de saúde mental e Rio de Janeiro, né? Deixa eu voltar aqui para ver se já falei. Acho que não falei? Ou falei? Falei. Falei, sim. Tá tudo aí.

E o Rio, camaradas, continua o Rio. Lindo. A Lapa, nem me fale? Que saudade da Lapa.

Júlia Rocha