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Deixe sua angústia doer. Vai por mim.

Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

15/05/2020 11h50

Bem no começo de tudo - ainda vivíamos entre a falsa normalidade de março e o medo de abril - ficamos (principalmente os que tiveram seu direito à vida e à saúde preservados) aqui, no sofá da sala, pregados às telas de nossos celulares e computadores. Alternávamos o olhar entre a televisão incansável ligada em tempo integral no canal de notícias e a panela de arroz que quase queimava na cozinha.

Foi daqui que muitos de nós vimos e fomos vistos nos últimos dois meses. Com as "roupas de sair" guardadas num fundo bem fundo do armário e com os pijamas velhos virando a roupa de viver, nossos corações palpitavam frente a cada nova notícia. Os jornalistas e os cientistas e os epidemiologistas e os virologistas viraram a nossa fonte comum de adrenalina, ansiedade e dores pelo corpo. Um sobressalto contínuo que, já era de se esperar, nos adoeceria em pouco tempo.

A necessidade de olhar para fora vinha não só da vontade de saber das notícias mas também de um desejo inquietante de não sentir o que nos consumia dentro. A ávida busca por novas novidades escondia o fardo pesadíssimo de um luto real para o qual achávamos que eramelhor não olhar. Aquela velha história de não falar de algo para que este algo desapareça.

Engano.

Enquanto os portais na internet nos alimentavam (ou nos intoxicavam) daquilo que precisávamos para anestesiar a dor que estava dentro, fomos perdendo nem tão lentamente assim muito do que éramos. E quando perdemos o que somos, morremos. E renascemos, de certo, mas não sem antes contemplar e viver o luto do que se foi. Olhar para fora, para a faxina da famosa, para a máscara do presidente, para as irresponsabilidades perpetradas contra o povo trabalhador nos poupou de sentir a nossa dor pessoal por algumas semanas.

A tela do celular foi a pílula que nos permitiu seguir em frente sem nos ver. Por aqui, falamos, brigamos, criticamos, nos posicionamos, nos mostramos. Mas cá estamos outra vez em busca de sentido.

Adoecemos. Engana-se quem pensa que não há sofrimento em anestesiar-se, também. A pessoa sedada, seja pelo potente anestésico que adormece o corpo ou pela cerveja, pelas lives, pelos feeds ou pelos comprimidos, ela não sente mais dor mas também não sente delícia. Quem se anestesia o faz para o feio e para o bonito. Para o tosco e o gentil. Para o Bolsonaro e para a vida.

Como era de se esperar, fomos caindo um a um. Afogados em UTIs, deprimidos em escritórios, acuados a digitar outros valores nos caixas de supermercado. E seguimos buscando anestesia.

Deixo aqui o meu convite. Permita-se angustiar-se. Feche os olhos e deixe a dor dizer o que dói. Cheire sua dor, olhe-a nos olhos, com a coragem que a vida quer de você. Compadeça-se de você mesmo. É aí, atrás da dor, que fica a porta de saída. Use sua angústia como força e inquietação coletivas. "Organizar a revolta. Mobilizar as esperanças."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.