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Júlia Rocha


Brasil, esse campo de concentração pronto para um genocídio

Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

24/04/2020 11h02

Olá povo brasileiro, trabalhadoras e trabalhadores deste lugar que aprendemos a amar. Preciso ser breve. Hoje meu recado é urgente. Escrevo de um quarto escuro e sem janelas, na casa onde antes eu vivia mas que hoje é onde eu sobrevivo e planejo formas de não morrer.

Este lugar que antes chamávamos de pátria não é mais um país. Nos tornamos um campo de morte e precisamos agir para não morrer. E agir, como tudo nesses tempos, é o contrário do que imaginamos ou sonhamos. Agir é ficar parado. Se reinventar na medida do impossível, trancado dentro da sua casa. Agir é ajudar quem está pior e pressionar o governo para que faça sua obrigação.

Do meu quarto escuro, entre uma faxina e outra, entre um trabalho e outro, eu abro livros, textos, vejo filmes e o coração vai ficando menor. O cheiro da morte é suave, meus amigos. É preciso prática e costume para senti-lo e reconhecê-lo. É preciso ter sentido este cheiro muitas vezes na vida para respirar fundo e perceber que o ar está empesteado de intenções mórbidas. E além de perceber o que se avizinha, é preciso coragem para tentar se antecipar.

A morte às vezes nos chama, nos encanta e faz a gente caminhar em sua direção achando que o que estamos fazendo é o correto, é nobre e admirável.

Durante os períodos mais macabros do nazismo alemão, os indesejados eram levados para os campos de concentração onde deveriam trabalhar em rotinas extenuantes. Muitos campos tinham frases de enaltecimento ao trabalho expostas para que todos lessem: "O trabalho liberta."

Ali também ocorriam testes diversos inclusive realizados por médicos. Testavam doses de medicamentos, testavam resistência à fome, à sede, ao frio, ao calor, testavam procedimentos. O horror.

Os corpos daquelas pessoas eram objetificados. Não eram mais consideradas pessoas. Entendam. Ninguém faz coisas absurdas com o outro considerando-o como um ser humano. Primeiro é preciso tirar deste outro qualquer traço de humanidade. Por isso, antes da morte, é preciso desumanizar.

É como fazemos com os negros, os indígenas, à população LGBT, as mulheres, com pessoas com deficiência. Depois que não os consideramos mais humanos, aí sim podemos matá-los em câmaras de gás, com doses erradas num teste de medicamento ou com 80 tiros num carro de uma família que vai a um chá de bebê.

Nos tornamos um grande campo de concentração nazista onde quem quer salvar a própria vida e a dos seus deve ser marcado com fita vermelha como alguém que não quer trabalhar e que, por isso, não terá acesso à direitos básicos, como atendimento em saúde, por exemplo.

Hoje, moramos num campo de concentração onde se deseja testar remédio fora de um ensaio clínico. Remédios sem evidências de que funcione mas com um desejo político de que engane alguns para que eles saiam e trabalhem mais.

É ainda pior, por que não estamos presos. Pelo contrário, podemos ir e vir. Aliás, nos incentivam a fazê-lo dizendo que quem não sai de casa e caminha pelas ruas em busca de trabalho não o faz por que é preguiçoso e quer mamar nas tetas do governo.

O que ainda não percebemos é que o ir e vir, o shopping aberto, o comércio funcionando é a nossa nova, sofisticada e invisível câmara de gás.

Muitos dos mortos nos campos de concentração de Hittler não entendiam direito para onde estavam indo ao serem levados para a morte. Não entendiam justamente por que estavam limitados na sua capacidade de raciocinar criticamente. Limitados pela fome, pela miséria, pelo medo, pela força das opressões que ali se estabeleceram.

Ainda hoje, integrantes do governo fazem força para economizar dinheiro público na compra de respiradores que poderiam salvar vidas. Ainda hoje, integrantes do governo atrasam o pagamento de um auxílio para que as pessoas que não desempenham profissões essenciais possam ficar em casa e proteger suas próprias vidas e as vidas de suas famílias.

O desafio de desligar a máquina de morte que temos instalada hoje no país é complexo e possivelmente não será atingido com notas de repúdio aos atos autoritários de quem deveria nos guiar em tempos de crise. Notas de repúdio nem devem ser lidas por esse pessoal. Se eu tivesse um dinheiro, eu apostaria que não são, mas todo o dinheiro que eu tenho está sendo usado para apoiar saídas deste pesadelo coletivo monumental que é viver neste país hoje

Júlia Rocha