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Júlia Rocha


Júlia Rocha

Com ambulatórios fechados, quem cuida dos pacientes crônicos?

Tem sido desafio prover cuidados para pacientes crônicos que necessitam do sistema de saúde -
Tem sido desafio prover cuidados para pacientes crônicos que necessitam do sistema de saúde
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

18/04/2020 04h00

Os desafios trazidos pela pandemia da Covid-19 já extrapolaram a doença e seus doentes. Aliás, um dos desafios maiores de gestores e profissionais do SUS tem sido manter respirando um sistema de saúde que consiga, aos trancos e barrancos, prover ao menos o mínimo necessário para evitar que os pacientes crônicos se instabilizem de suas condições pré-existentes neste momento. Hipertensos, diabéticos, asmáticos, portadores de doenças autoimunes, idosos frágeis, acamados e todos aqueles que dependem de um controle periódico cuidadoso para se manterem estáveis e seguirem suas vidas normalmente estão, neste momento, afastados dos profissionais que deles cuidam, sem previsão de quando este contato será restabelecido.

Estamos falando de pessoas que precisam renovar suas receitas, saber como anda o controle de suas condições de saúde por meio de exames laboratoriais que, em alguns casos, precisam ser feitos mais que duas vezes ao ano, que precisam ser examinados para saberem se o que tomam de remédio precisa ser ajustado, trocado, reduzido, aumentado e pessoas que estão cheias de queixas que não se encaixam no quadradinho da urgência ou da emergência mas que precisam ser ouvidas e acolhidas em uma rede de cuidados. O fato é que não serão.

Por todo país, uma parte importante das unidades básicas de saúde estão fechadas e seus profissionais foram enviados para outras unidades. Muitos foram remanejados para a urgência e seus pacientes ficaram sob os cuidados de outros profissionais. Em muitas equipes, não há profissional médico há muito tempo.

Se você puxar pela memória, vai se lembrar. Não faz muito tempo que nós, que defendemos o SUS, estávamos aqui esperneando, chorando e debulhando um rosário por dia para que todas as forças do universo nos ajudassem a impedir que a maior de todas as punhaladas que a saúde pública brasileira já levou fosse dada pelos ditos representantes do povo.

Aprovada pelo congresso maquiada de responsabilidade com os gastos públicos, a EC95 tinha a missão não revelada de esmagar o SUS até que ele morresse e pudesse ser substituído, vendido ou privatizado.

De fato, a realidade da Atenção Primária à Saúde no Brasil já andava delicadíssima. Em 2020, o sistema, que já vinha operando há anos no limite do impossível, encontrou um vírus capaz de colapsar até mesmo sistemas robustos de países ricos.

Atendendo a população mais carente, as equipes da Estratégia de Saúde da Família do país inteiro estão se virando como podem para avaliar remotamente seus pacientes. E são os que mais precisam de acompanhamento contínuo os que menos têm acesso aos serviços neste momento. São os mais pobres (e mais adoecidos exatamente por serem pobres) os que não podem pagar por internet para serem avaliados em uma chamada de vídeo, os que não podem pagar por transporte até as unidades de saúde, os que moram em lugares de mais difícil acesso e inclusive os que menos devem ficar circulando e se expondo ao vírus, já que são os mais frágeis diante dele.

O que se sabe é que a APS brasileira já pode esperar e se preparar para um pós-crise tão grave e desgastante quanto a crise. Se com recursos adequados e sem pandemia, a situação já é sabidamente complexa e muito desafiadora, em uma realidade onde há escassez de recursos materiais e humanos e onde a pobreza e o abandono estatal impedem as pessoas de se preservarem em regime de isolamento, o risco de um colapso é real.

Agentes Comunitários de Saúde, profissionais essenciais para o modelo de APS que se estruturou no país viraram luxo e sonho de tantas equipes. Até mesmo nas maiores capitais do país, o mais comum é encontrar um ou dois agentes tentando executar o trabalho que deveria estar sendo feito por cinco.

Em lugares historicamente esquecidos, os postos antes ocupados por milhares de médicos de outros países passaram a não contar com nenhum profissional médico. Comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e áreas rurais e até urbanas de diversos municípios brasileiros sofrem as consequências disso até os dias de hoje.

É preciso buscar estratégias que possibilitem que todos os brasileiros e brasileiras tenham o seu direito à saúde garantidos neste momento. A normalidade anterior ao momento que vivemos não volta mais e eu não seria leviana de sugerir que devemos voltar a atender normalmente os pacientes crônicos em nossos ambulatórios. É óbvio que adequações serão mais que necessárias neste processo. Serão essenciais para que todos possam se proteger. O que não é possível é que deixemos os mais vulneráveis de fora. Justamente os que mais precisam de nós neste momento.

Para que nossas ações por um cuidado amplo e universal cheguem a todos e a todas, é preciso investimento. Não se promove saúde com boas intenções ou discursos, apenas. A preservação de nossas vidas é incompatível com a obsessão em se seguir uma cartilha ultraliberal cega e manca. Sem investimento, muitos de nós não sobreviveremos à travessia, meus caros… Mas é como vovó dizia: direito não se ganha. Se arranca. Sigamos atentos, fortes e lutando por dias melhores. Arrancaremos o direito de chegarmos todos vivos à outra margem deste rio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Júlia Rocha