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Fred Di Giacomo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O estado natural do homem é a miséria e o capitalismo o salvou - Só que não

Ao centro: Davi Kopenawa Yanomami no encontro de Lideranças Yanomami e Ye"kuana, onde os indígenas se manifestaram contra o garimpo em suas terras. -  Victor Moriyama/ISA
Ao centro: Davi Kopenawa Yanomami no encontro de Lideranças Yanomami e Ye'kuana, onde os indígenas se manifestaram contra o garimpo em suas terras. Imagem: Victor Moriyama/ISA
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

31/08/2021 06h00

Há algumas semanas, rodou um vídeo na internet, de um jovem aluno do Mackenzie defendendo o capitalismo dizendo que o estado natural do homem é a pobreza e que o capitalismo foi nosso salvador da fome, do frio e do desamparo. Acho interessante como muitos dos que propagam tais mentiras se definam como "cristãos" e "conservadores".

Um cristão afirmar que a miséria é o estado natural do homem - "criado a imagem e semelhança de Deus" e cujo pecado original foi "pago" com o sacrifício de Cristo - poderia ser acusado de blasfêmia. Para tais cristãos, o homem foi criado imperfeito e graças ao seu esforço corrigiu o erro de Deus? Da mesma forma, os que se definem "conservadores" são, então, "progressistas" que querem "revolucionar a natureza" (tal qual a boneca Emília) e o estado ancestral das coisas com um capitalismo cada vez mais agudo que viria para "salvar o homem"?

Tais argumentos em prol das bênçãos do capitalismo não diferem muito de uma coluna recente publicado no jornal Folha de São Paulo, que alega, entre outras baboseiras, que a pobreza "começava a diminuir, durante a Revolução Industrial" e que "proteger-se do clima foi um dos principais motivos para termos poluído tanto." Em seguida o autor de tais falácias lista uma série de catástrofes inventadas pelo homem para concluir que "todas essas atividades causaram aquecimento global -mas não deixam de ser grandes conquistas humanas, que merecem ser celebradas e difundidas entre os pobres".

Eu adoro ler textos de autores ricos que usam, como argumento para a destruição do planeta ou para a escravidão dos mais pobres, o bem-estar destes mesmos pobres. Isso quando é comprovado que quem mais sofre com a emergência climática são os mais pobres e os cidadãos negros e indígenas.

Seria tão mais honesto se os defensores de um "capitalismo selvagem" afirmassem com todas as letras que posição deles é a de manter uma área VIP no universo para poucos, que terão todos os luxos do capitalismo, enquanto a maioria da população agonizará com fome, guerras e catástrofe climática. A questão é que, como ensina Grada Kilomba, essas pessoas não estão sendo honestas em seus argumentos. Elas não os afirmam por ignorância, mas por convicção. Grada defende, por exemplo, a liberdade de pessoas negras deixarem de "tentar explicar aos brancos seu racismo:

Explicar é alimentar uma ordem colonial, pois quando o sujeito negro fala o sujeito branco pode sempre responder com aquela frase desdenhosa: "Sim, mas..." Então, o sujeito negro explica mais uma vez, e novamente escuta a frase: "Sim, mas...", Grada Kilomba

Paraíso Perdido

Sempre que algum gênio repete a frase "hoje, qualquer pessoa pobre tem mais bens de consumo que uma rainha da idade média", um banqueiro fica mais rico. Primeiro, essa comparação mira bens de consumo, não a qualidade de vida ou a quantidade de calorias ingeridas por uma pessoa. Quando os primeiros portugueses aqui chegaram "famintos e sujos", como descreve o pensador indígena Aílton Krenak, encontraram pessoas muito mais "rijas e saudáveis" do que os próprios portugueses, mesmo vivendo "do que a terra dava". Quem conta é o próprio Pero Vaz de Caminha:

Eles não lavram, nem criam. (...) Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

É importante lembrar, também, que essa comparação usa como "estado natural do homem" a vida dos europeus em um período genericamente chamado de "Idade Média", no qual a exploração do homem pelo homem já era regra na sociedade europeia e a servidão era o modelo de produção local.

Porque nunca comparamos a vida dos mais pobres de nosso país, os que vivem abaixo da linha da pobreza, com as dos indígenas que aqui habitavam antes da chegada dos portugueses? Porque sempre que vamos celebrar a "vitória do capitalismo" comparamos esse sistema com o "comunismo real" da Coréia do Norte e não com os modos de vida e produção pré-colonialistas de povos que vivam nas Américas, África e Oceania? Esses povos nunca pediram para serem "salvos" pelos europeus. Não há registro de grandes fomes entre tupinambás, kaingangs e tupiniquins antes da chegada dos brancos por aqui.

Por que até hoje os povos indígenas que vivem no Brasil se recusam a aceitar "as maravilhas" que a sociedade branca tenta lhes impor? Por que os ianomâmis imploram para serem apenas deixados em paz diante das ofertas de "todos os bens de consumo" que uma rainha da idade média sempre sonhou? Será que o capitalismo (e seu bicho-papão o "comunismo") é a única possibilidade de existência feliz e saudável neste planeta?

Bom para poucos, péssimo para muitos

Quando os defensores do capitalismo "sem regras" dizem que destruímos nosso planeta para nosso próprio bem e celebram que hoje somos 7 bilhões de pessoas na Terra, nunca consideram que no meio do caminho havia milhares de vegetais e animais que simplesmente foram extintos para que Jeff Bezos pudesse dar um rolê pelo espaço ou para que pudéssemos acessar avanços indispensáveis ao bem-viver, como uma rede social em que fingimos que vivemos felizes em uma sociedade cronicamente infeliz. Tudo isso enquanto espécies estão "desaparecendo 100 vezes mais rápido do que no passado" e, segundo reportagem da National Geographic, milhões de anos serão necessários para que os mamíferos se recuperem das extinções que vêm ocorrendo por nossa causa."

E não são apenas os animais e vegetais que são exterminados para que a roda do capitalismo siga girando, como diz Krenak:

Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser? A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL