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Fred Di Giacomo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Infantilizamos espiritualidades indígenas, transformando-as em folclore

Curupira é personagem do folclore e defende as matas - eVison/Arte UOL
Curupira é personagem do folclore e defende as matas Imagem: eVison/Arte UOL
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

22/08/2021 06h00

Aconteceu primeiro quando as primeiras civilizações surgiram na Mesopotâmia, muitos anos antes de Cristo. Era comum que um povo, como os judeus, por exemplo, transformasse as divindades que seus rivais adoravam em demônios, crendices ou fábulas.

Lembra do monstro marítimo Leviatã, que devorou Jonas? Ele seria uma versão caricata do deus marítimo cananeu Lotan, que na mitologia desse povo havia sido derrotado pelo deus dos raios e das tempestades Hadad.

Se você não está com sua leitura da Bíblia em dia, os cananeus são um povo vencido pelos judeus após o êxodo do Egito. Algo parecido aconteceu com o "culto ao bezerro de ouro" -- condenado por Moisés, no Velho Testamento, e que parece uma referência direta a cultos dos povos inimigos dos judeus.

Quando os romanos adotaram uma nova dissidência do judaísmo como religião oficial, que chamaríamos de cristianismo, muitos deuses greco-romanos também foram demonizados ou tornaram-se "folclore".

Não é raro ver o demônio, por exemplo, retratado como o deus da natureza Pã ou o Minotauro. O mesmo aconteceu com os povos nativos europeus, africanos e asiáticos que os romanos (e posteriormente os impérios cristãos) colonizaram. Muito do "folclore" europeu é o que restou da espiritualidade celta ou nórdica.

O que é folclore e por que ele é comemorado no dia 22/08?

2 - Wikipedia - Wikipedia
Turma do Pererê
Imagem: Wikipedia

Folclore é um neologismo vindo da união de duas palavras da língua inglesa: "folk" (povo) e "lore" (conhecimento). Quem criou o termo foi o escritor e folclorista britânico William John Thoms, em uma carta enviada no dia 22 de agosto de 1846.

A partir daí, diversas nações passaram a celebrar o dia do folclore no 22/08. No Brasil, o dia do folclore foi oficializado pela ditadura militar em 1965.

Espiritualidade indígena vs folclore

Assim como os judeus "demonizaram" as divindades dos povos que dominaram e os católicos transformaram os deuses dos colonizados em monstros, contos de fadas e crendices populares, os portugueses e demais europeus, que chegaram nas Américas, fizeram o mesmo com a espiritualidade dos milhões de indígenas que aqui vivia.

Os povos originários do Brasil falam diversas línguas, seguem costumes diferentes e têm, cada um, seus próprios encantados e entidades.

Maukanaimã, que Mário de Andrade transformou no protagonista do livro "Macunaíma: o herói sem nenhum caráter" é uma divindade do povo macuxi.

O Saci-Pererê, que Monteiro Lobato popularizou como um menino negro de gorro vermelho, é uma entidade guarani, também conhecida como Jaxy Jaterê ou Kambaí.

"Jaxy Jaterê, ele é o protetor da floresta. Então, na aldeia, a gente já tem esse conhecimento de história, que a gente sempre ensina pras crianças. O nosso personagem Jaxy Jaterê, ele não é um folclore, ele é uma história viva, que é contada até os dias de hoje", disse o escritor Olívio Jekupé ao site Hypeness.

1 - Acervo Pessoal  - Acervo Pessoal
Texto e foto de Olivio Jekupé em 1989
Imagem: Acervo Pessoal

Já o escritor indígena Yaguarê Yamã Aripunãguá ensina: "Em tupi antigo seu nome Sasy significa dor e pererê significa aos pulos o que em português seria mais ou menos "dor que salta ou pula" justamente por se tratar de uma entidade não muito amistosa". Sua aparência original seria a de um jovem indígena com uma perna só, fumando o petynguá, tradicional cachimbo guarani. Já a caipora é uma entidade que nas línguas do tronco tupi chama Ka-aporãga, que significa "Espírito que mora na mata"

Bom, assim como o saci e a caipora, praticamente todos os "personagens" do folclore brasileira (curupira, boto, cobra grande, yara, mapinguari) são, na verdade, divindades, encantados ou entidades de povos específicos que habitavam o Brasil antes dos portugueses chegarem.

Colocar o mapinguari (ser da espiritualidade dos maraguás e dos sateré-mawé, que moram no Norte do país) no mesmo saco do Jaxy Jaterê (entidade dos guarani, que vivem no sul e sudeste do país) é a mesma coisa que dizer que Jesus era filho de Shiva e Zeus.

Ao transformarmos a espiritualidade dos povos que habitavam nosso país antes da chegada dos portugueses em folclore e contos de fada, contribuímos com seu epistemicídio (a destruição de conhecimentos, de saberes, e de culturas não assimiladas pela cultura branca/ocidental) e com a crença de que toda cultura original destas terras faz parte de algo primitivo, pronto a ser superada e substituída pela cultura europeia dos colonizadores. Também reforça o mito de que indígenas (e sua cultura e espiritualidade) são seres do passado, quando ambos estão vivos no presente hoje. Folclore e lenda é acreditar nisso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL