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Fred Di Giacomo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Que os brancos falem sobre os crimes dos brancos (sem isso o país não muda)

Desenho das crianças indígenas Miranha e Juri, sequestradas pelos cientistas alemães Spix e Martius - Reprodução
Desenho das crianças indígenas Miranha e Juri, sequestradas pelos cientistas alemães Spix e Martius Imagem: Reprodução
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

06/07/2021 06h00

Quando eu trabalhava para a revista Superinteressante, capas sobre nazismo costumavam vender muito. O interesse dos brasileiros pelas atrocidades do ditador Adolph Hitler era imenso. Por isso, os editores da Super publicavam ao menos uma capa sobre o tema por ano. Era sucesso garantido.

Uma pergunta comum na redação (que virou até reportagem) era "o que aconteceria se os nazistas tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial?" Bom, não é preciso muita imaginação para descobrir, basta olhar para o que vivemos no Brasil.

Nazismo, doença infantil do Colonialismo

1 - Reprodução - Reprodução
Capa de "O som do rugido da onça" de Micheliny Verunschk
Imagem: Reprodução

Hitler teve que ser derrubado pois levou longe demais a ideologia do Colonialismo (divisão do mundo em raças inferiores e superiores, trabalho escravo, dominação de países independentes para tomar seus recursos naturais).

O ditador alemão que assassinou seis milhões de judeus passou a fazer com outros países europeus o que esses faziam com suas colônias, quebrando o pacto da branquitude de só transformar em campos de concentração terras da África, Ásia, Américas e Oceania.

Essa sensação se reforça ao ler o ótimo romance "O Som do Rugido da Onça" (Companhia das Letras, 2021), de Micheliny Verunschk, autora pernambucana criada em Arcoverde, que conta o sequestro de duas crianças indígenas - batizadas no livro de de Iñe-e e Juri - por dois renomados cientistas alemães do século XIX: Spix e Martius.

A dupla de alemães é festejada até hoje na Alemanha e no mundo por suas descobertas feitas no Brasil, especificamente na região da Amazônia, de onde trouxeram espécies de animais, vegetais e algumas crianças — a maioria das quais morreu na viagem de navio. Mas, calma, como assim? Sequestro de crianças? E ninguém ficava chocado?

Acontece hoje e acontecia no sertão, quando cientistas roubavam crianças, como parte de suas experiências científicas. O mesmo aconteceu com o pai de Altaci Corrêa Rubim, uma doutora em letras da etnia kokama, que relatou que o pai, quando criança, foi enganado por um missionário. O religioso lhe ofereceu um chocolate e o raptou, levando-o para um abrigo, longe da família e onde não podia falar sua língua nem saber quem era.

Não é preciso lembrar que Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do atual governo, é fundadora da Atini, uma ONG acusada de sequestrar crianças indígenas de suas famílias.

Lugar de fala

2 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A escritora pernambucana Micheliny Verunschk
Imagem: Arquivo pessoal

"O som do rugido da onça" conta a história da menina Miranha, chamada na Europa de Isabela, e batizada por Micheliny Verunschk de Iñe-e. Mas é uma narrativa fragmentada e polifônica em que narram Iñe-e, a paraense Josefa, o rio alemã Isar, a grande onça Tipai uu, trechos dos escritos de Spix e Martius e recortes de jornais contemporâneos, que manchetam o genocídio dos povos originários.

Genocídio que segue, hoje, 521 anos depois de iniciada a invasão portuguesa no Brasil.

Os portugueses foram responsáveis pelo extermínio de cerca de 95% da população indígena do Brasil (que, em 1500, contava com cerca de 5 milhões de pessoas). Quem sobreviveu ao massacre e às doenças foi escravizado, violado, proibido de falar a própria língua e de praticar sua espiritualidade.

Os lusitanos trouxeram, ainda, escravizados, outros 4,8 milhões de africanos. Vale lembrar que cerca de 15% dos escravizados morriam na travessia marítima e um número ainda maior no momento de sua captura. Esses milhões de mortos (alguns falam em 4 milhões) nunca vão ser devidamente contabilizados.

Isso sem contar toda repressão a rebeliões e aos crimes do Império Brasileiro, cujos monarcas pertenciam à família real portuguesa. Só na Guerra do Paraguai, participamos do extermínio de 300 mil paraguaios e de cerca de 75% da população masculina de nosso vizinho.

Não parece, portanto, exagerado comparar o regime colonialista que os portugueses implantaram aqui com sua versão mais extrema, o nazismo. Um nazismo que "venceu" e cujos descendentes, nós que fazemos parte da branquitude", ainda se beneficiam de um sistema de castas/raças que privilegia quem tem a pele mais clara. Um nazismo que coloca sua polícia, braço armado do Estado, para matar negros e proteger o patrimônio de brancos. Lembrem-se: oito de cada dez assassinados pelo Estado brasileiro são negros.

Dentro deste contexto, o romance de Micheliny nos leva à alteridade. Nos leva a entrar na cabeça da menina tomada de sua família e do seu lar pela "civilização" branca. Mas não só. Conectando o sequestro de Iñe-e com as notícias dos massacres atuais e a experiência de Josefa, seu romance mostra o quanto, hoje, seguimos neste apartheid invisível, onde o "rei-racismo" está nu, mas ninguém da branquitude tem a coragem de enxergá-lo.

"O racismo é uma problemática branca.", já escreveu Djamila Ribeiro, citando Grada Kilomba. E completa em "O que é lugar de fala?": "é preciso, cada vez mais, que homens brancos cis estudem branquitude, cisgeneridade, masculinos."

É urgente que escrevamos, pensemos e divulguemos este sistema criado pela e para a branquitude do lugar privilegiado onde nos encontramos. De "dentro".

Precisamos escrever sobre o sistema colonial que criamos e do qual gozamos. Escrever, como faz Micheliny, sobre os Spix e Martius, as rainhas Fredericas Karolines; os donos de poder. Falar sobre nossa sociedade "morta-viva" que, como reza o ruído da onça, está morta quando "não consegue mais escutar a voz dos animais, dos espíritos, das árvores e dos rios".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL