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Fred Di Giacomo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que significa a música "La Belle De Jour"? Clássico nasceu de confusão

Tom Cabral /Santo Lima
Imagem: Tom Cabral /Santo Lima
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

04/05/2021 06h00

O que Big Brother Brasil e a música popular brasileira têm em comum com ativismo e preservação ambiental? Bom, nesta edição do BBB21, diversos temas importantes foram ventilados ao grande público: racismo e LGBTQfobia foram debatidos na casa e pesaram em eliminações e desistências. A causa indígena tornou-se pauta graças a um documentário exibido para alguns "brothers".

Após a eliminação do pernambucano Gil do Vigor no último domingo, tudo indica que a vencedora deste BBB21 será a paraibana Juliette Freire, fenômeno gigantesco das redes sociais onde seus seguidores se apelidaram de "cactos". Tanto Gil, quanto Juliette se mostraram antenados com as causas sociais e a equipe da "sister" já até fechou uma parceria com a ONG Voz das Comunidades, que já distribuiu mais de 130 mil refeições para as favelas cariocas.

Alceu - Reprodução/ Globoplay - Reprodução/ Globoplay
BBB 21: Brothers curtem show de Alceu Valença
Imagem: Reprodução/ Globoplay

Nordeste no topo

Protagonistas do BBB21, Gil e Juliette sempre destacaram o orgulho de terem nascido no Nordeste e fizeram questão de divulgar a cultura da região. Ambos escolheram como trilha sonora o hino de versos misterioso "La Belle de Jour", lançado em 1992 pelo cantor Alceu Valença, que acabou sendo apelidado no programa de "La Belle de GilJu". Mas você conhece a história por traz desse clássico?

"A todo inimigo da fauna e flora, meu desprezo"

Foi na Bahia, em agosto de 2019, diante das crescentes queimadas na Amazônia que o cantor pernambucano Alceu Paiva Valença, 73, rasgou o verbo contra os que insistem em destruir nossa biodiversidade: "A todo inimigo da fauna e da flora, àqueles que promovem a poluição, a todo populista traidor do povo, a todo demagogo, toda mão pagã. Sim, vai para toda essa gente ruim meu desprezo. Será sempre assim. Já não tenho nenhuma ilusão", disparou Alceu.

Valença nasceu no interior de Pernambuco, nos limites do agreste com o sertão, neto de violeiro e poeta. Influenciado pelo avô e por artistas como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, ele passou a se engraçar com a música. Chegou a formar-se em direito no Recife e trabalhar como jornalista, mas a paixão pelas melodias o levou a gravar seu primeiro disco, "Quadrofônico", com o amigo Geraldo Azevedo. O que pouca gente sabe é que Alceu chegou a passar um dia preso pela ditadura militar brasileiro quando era estudante universitário.

A Belle de Jour

No final dos aos 70, desgostoso com a ditadura militar que governava o Brasil, Alceu se autoexilou na França onde frequentava um "bar dos filósofos". Apaixonado pelo país, voltou lá para tocar em um festival, nos anos 80, e não perdeu a oportunidade de tomar uns goles no mesmo bar filosófico .

Um existencialismo aqui, um platonismo ali, uma taça de vinho para rebater o falatório e eis que surge uma bela atriz de olhos azuis diante do artista brasileiro. Simpática a loira com pinta de famosa perguntou o que Alceu fazia. Ele respondeu que era poeta

- Faça um poema para mim, então, poeta! - disse a gringa. E Alceu pegou um guardanapo branco e respondeu:

-Pronto, aqui está: um poema em branco.

A bela riu e elogiou a inventividade do artista brasileiro, que perguntou a amigos de quem se tratava a moçoila que aparentemente lhe dava bola. Era a atriz inglesa Jacqueline Bisset, famosa por filmes como "O Fundo do Mar" e "A Noite Americana". No entanto, Alceu não fazia menor ideia de quem era Bisset e na hora pensou que fosse Catherine Deneuve, que estrelou o filme "La Belle de Jour".

Jacqueline - Getty Images - Getty Images
Jacqueline Bisset
Imagem: Getty Images

Anos depois, inspirado pela mar azul da praia de Boa Viagem, em Recife, Valença se lembrou dos olhos azuis e da cantada que recebeu de Bisset e resolveu homenagear Paris-Recife e a musa do cinema, mas novamente confundiu-se e acabou encaixando o filme de Deneuve na canção. Então, "La Belle de GilJu" é uma canção de Valença que mirava homenagear Bisset e acertou em cheio em Deneuve e no coração de todo Brasil.

Alceu Valença fala sobre a origem da música "La Belle de Jour" (o assunto começa a partir de 13 minutos, mais ou menos)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL