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Fred Di Giacomo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Cora Coralina: quando a melhor doceira do país elegeu-se intelectual do ano

Cora Coralina cozinhando seus famosos doces - Reprodução/"Cora Coralina: Todas as Vidas"
Cora Coralina cozinhando seus famosos doces
Imagem: Reprodução/"Cora Coralina: Todas as Vidas"
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

27/04/2021 06h00

"Fiz os doces melhores da minha cidade e, talvez, do meu país. Mesmo! Acredito que de frutas ninguém trabalhasse em doces melhor do que Cora Coralina. E fiz, sobretudo, do nome bonito de doceira, minha glória maior".

A nonagenária que se vangloriava da habilidade de doceira foi das escritoras mais habilidosas do Brasil. Seu depoimento, transcrito acima, pode ser conferido no belo documentário "Cora Coralina: Todas as Vidas", lançado em 2017 e disponível no YoutubeMovies.

Mas engana-se quem pensa que seus doces eram admirados apenas pelos moradores do estado de Goiás. Certa vez, em 1982, Cora pediu a seu amigo, o bispo Tomás Balduíno, que levasse ao Papa João Paulo II uma caixinha de suas guloseimas. O Papa aceitou os doces e ainda mandou uma carta oficial do Vaticano com sua assinatura, em agradecimento.

Cora Coralina em Goiás

(...) Minhas mãos raízes
Procurando a terra.
Semeando sempre.
Jamais para elas
os júbilos da colheita. (...)

Mãos pequenas e curtas de mulher
que nunca encontrou nada na vida.
Caminheira de uma longa estrada.
Sempre a caminhar.
Sozinha a procurar,
o ângulo prometido,
a pedra rejeitada.

Cora Coralina, Estas Mãos

Nascida na cidade de Goiás, em 1889, a poeta e contista Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, conhecida nacionalmente como Cora Coralina, foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano, em 1983, concedido pela União Brasileira dos Escritores. De Drummond de Andrade, mais popular poeta deste país, Cora arrancou elogios em cartas e resenhas:

Minha querida amiga Cora Coralina: Seu Vintém de Cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ?), Drummond de Andrade.

Quando retornou a Goiás, aos 67 anos, depois de viver décadas nos sertões paulistas, Cora apelou aos conhecimentos ancestrais das mulheres de sua família que eram doceiras de mão cheia. Foi vendendo doces, especialmente doces de frutas, que ela juntou dinheiro embaixo do colchão por 20 anos para comprar a casa em que morou até o fim da vida.

Cora nunca teve o privilégio de existir exclusivamente para a arte. Tendo estudado apenas os quatro anos do primário, ela escrevia textos para os jornais de Goiás desde os 14 anos, mas só conseguiu publicar seu primeiro livro, quando já batia quase 76 anos de idade. Quando foi convidada a participar da Semana de Arte Moderna, de 1922, seu marido a proibiu, assim como a proibiria de publicar poemas diversas vezes. Cora trabalhou a vida toda: vendeu flores, vendeu livros, criou seis filhos. Cozinhava de dia e escrevia de noite.

Cora Coralina em Penápolis

Coló e Cora Coralina - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Cora Coralina recebe a visita da penapolense Coló
Imagem: Acervo Pessoal

Morei alguns anos nesta cidade banhada pelo [rio] Maria Chica e abençoada por São Francisco de Assis

Cora Coralina

Cora passou cinco anos de sua vida na pequena Penápolis, noroeste paulista, vendendo linguiças e banha de porco, e ajudando o comércio local a se organizar entre 1936 e 1941. Inicialmente, ela veio até Penápolis para se juntar a Ordem Terceira de São Francisco, quando ganhou um hábito e o nome de Irmã Conceição. A cidade fora fundada por padres franciscanos no início do século XX, que administravam a igreja matriz e o colégio local. Lá também teve uma loja de tecidos e retalhos chamada de Borboleta. Depois mudou-se para a vizinha Andradina (SP) e terminaria sua vida cíclica de volta a Goiás Velho, para onde foi resolver problemas do inventário paterno e acabou ficando e se consagrando como doceira-poeta.

Quando perguntei se alguém tinha alguma história com Cora no grupo de escritores de minha cidade natal, Penápolis, me contaram que minha própria tia, Coló, a havia conhecido e tinha fotos com a escritora:

Casa de Cora - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Casa Velha da Ponte
Imagem: Acervo Pessoal

"Foi na minha lua de mel, estive na casa dela. Fomos porque perdemos nossa passagem para a Argentina. Meu marido perdeu todos os documentos, então resolvemos ir para Goiás Velho [apelido da cidade de Goiás]. Tomamos café com ela, era uma graça de pessoa. Ela não cozinhou no dia, o que comemos já estava pronto. Ela falou que tinha morado em Penápolis, que a filha dela era professora e deu aula por aqui. Tomamos café com biscoitinhos feito por ela. A casa era bem antiga e chamavam de a casa velha da ponte."

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