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Fred Di Giacomo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Livros não são coisa de rico; livros salvam vidas.

O escritor Gabriel García Márquez  - Colita/Corbis
O escritor Gabriel García Márquez Imagem: Colita/Corbis
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

13/04/2021 06h00

Como se a coisa já não estivesse complicada para os viventes dessas bandas, empenhado em fugir dos quatro cavaleiros do apocalipse diariamente, o governo brasileiro ainda quer enfiar impostos nos livros e deixar nossa leitura ainda mais cara.

Há uma semana foi noticiado que a Receita Federal divulgou considerações sobre o projeto de juntar PIS e Cofins. Neste obscuro tratado tributário, o órgão alega que famílias de baixa renda não consomem livros não-didáticos. Algo que o Ministro da Economia, Paulo Guedes, também defende há tempos.

A ótima coluna Página Cinco já demonstrou, aqui no UOL, que este papinho trata-se de mero caô para enfiar mais impostos goela abaixo do contribuinte. Primeiro parem de inventar que a elite brasileira é chegada em leitura. É óbvio que rico no Brasil não lê. Ou não estaríamos nessa enrascada há tantos séculos. O rico brasileiro gosta de Miami, Romero Britto e área VIP. Leitura no país é coisa de pouco status, nem like nas redes sociais rende.

No entanto, meus raros leitores, livros salvam vidas. Sim, já escrevi sobre isso antes, em outro site, mas sinto-me na obrigação de repetir por aqui.

Como os livros podem salvar sua vida?

Antes de ter dinheiro para conhecer o mar ali do lado, no litoral paulista, eu já tinha rodado o mundo com os navios do capitão John Silver e do viajante Gulliver, tinha ido até o coração do continente africano com Livingstone e tinha admirado o Mississipi em aventuras passadas com Tom Sawyer.

Antes de sonhar em entrar na universidade, eu tivera algumas aulas curtas com mestres como Camões, Darcy Ribeiro e Platão. Não tinha uma namorada ainda, mas achava que Romeu e Julieta foram muito ansiosos em se matarem e que o primo Basílio era um tremendo sacana.

Na minha vida, tive três grandes influências: meus pais, os livros e a música - inicialmente cavalgando os três acordes do punk rock. Provavelmente, meus pais - professores - foram a mais importante de todas, porque foram eles que me estimularam a ler desde os 6 anos de idade. Seu grande tesouro era uma biblioteca recheada de livros que me rodearam por toda infância e adolescência. Livros que disputavam espaço com os móveis e pessoas em casa. Livros e seu cheiro de papel novo ou amarelado, espalhados, deitados, catalogados. Livros cheios de nomes estranhos que eu fui decifrando quando aprendi o "bê - a - bá": Macunaíma (seria um livro sobre indígenas?), Trópico de Capricórnio (um livro sobre geografia?), Guimarães Rosa (um homem com nome de flor?).

O que aqueles livros grossos e sem figuras tinham de tão especial para tomar a atenção dos meus pais por tanto tempo? Entre um livro da coleção Vaga-Lume e um infantil da Ruth Rocha, fui descobrindo que livros ensinavam, divertiam e viciavam sem grandes efeitos colaterais. Aliás, o único efeito colateral dos livros era te deixar mais inteligente.

Os livros foram meu curso de inglês, meu reforço escolar, minhas aulas de administração, de game design e de cultura geral. Graças a eles eu tive assunto em mesas de bar, entrevistas de emprego e reuniões de negócio.

Cientificamente, já se provou que ler faz muito bem para o ser humano. A leitura retarda suas chances de desenvolver Alzheimeir, melhora sua memória, reduz o estresse e combate a depressão. Mais que isso: ler te ajuda a escrever melhor, aguça o pensamento analítico e aumenta seu conhecimento. E você pode perder sua casa, seu dinheiro e sua família, mas nunca ninguém poderá tirar seu conhecimento. (A não ser que te façam uma lobotomia, é claro.)

Encare a leitura como um game

Se você quer ficar rico ou garantir a paz mundial. Se você quer aprender uma língua ou se preparar para o mercado de trabalho, então LEIA. Mas comece com leituras que te agradem. Uma das coisas que mata o prazer da leitura é dar para uma criança de dez anos a obrigação de devorar as obras de José de Alencar. O menino abre as primeiras páginas cheias de descrição rococó de "O Guarani" e dorme no segundo parágrafo. Quando acorda, vai jogar videogame. Eu adoro meu Playstation, mas acho que todo mundo deve reservar umas horinhas para a leitura no seu dia.

Também não vale a pena começar com coisas muito difíceis. Encare a leitura como um jogo: a cada fase você vai evoluindo um pouco. Quando eu tinha dez anos abri o "Grande Sertão: Veredas" e não entendi uma frase; catorze anos depois, ele se tornou um dos meus livros favoritos. Você é uma pessoa romântica? Leia "Bridget Jones". Você acha que todos os livros só falam de playboys? Leia o Ferréz. Você gosta de aventura? Leia "Os Três Mosqueteiros". Livros não são chatos. "Existe um livro para cada pessoa, você só não achou o seu ainda."

Como já disse, sugiro que você comece lendo sobre o que gosta. E, quando o que você gosta se tornar a leitura, expanda seu universo. Aí está a verdadeira magia da literatura: ela te permite viajar pelo mundo, pelo tempo e para lugares que nunca existiram. Ela te permite ter aulas com os melhores professores do mundo. A literatura é a única universidade onde você pode aprender sobre felicidade com Aristóteles, sobre o mal com Hannah Arendt e sobre a guerra com Sun Tzu. Você pode descobrir como era a vida de uma escrava em "Um defeito de cor", ir até o inferno com "A Divina Comédia" ou se aventurar com elfos e anões em "O Senhor dos Anéis".

Depois que você descobrir um autor favorito, comece a criar uma "teia de autores" que se relacionam com ele. Eu descobri Bukowski na faculdade e adorei seu "Misto Quente" — que falava da infância e adolescência de um garoto feio, pobre e virgem de uma forma crua, sarcástica e, ainda assim, engraçada. Tive aquela mágica sensação de "escreveram essa história para mim" e terminei o livro com vontade de tomar uma cerveja com o autor. Tinham me falado que Henry Miller seguia uma linha parecida e, então, fui ler seus livros. De lá, passei por Anaïs Nin, Nietzsche, os beats, Clarah Averbuck e John Fante numa prazerosa sequência de descobertas. Em outras palavras: você descobriu o prazer da literatura lendo "50 tons de cinza"? Leia, na sequência, "Crepúsculo" que inspirou o livro de E. L. James e continue com o "O morro dos ventos uivantes", de Emily Brönte - o livro favorito de Bella e Edward. Em um ano, você estará lendo Jane Austen e vai ter se divertido muito no caminho.

Um dado interessante: ler aumenta sua empatia. Quando você lê histórias da vida de mulheres líbias, meninos afegãos e pais noruegueses; você passa a ver todas essas pessoas como? Pessoas. Você começa a enxergar a humanidade como uma (turbulenta) família. Você percebe que os "outros" são como você. Você entra na vida de pessoas com as quais você nunca conviveu e se identifica com o que existe de universal em toda vida humana: a dor, o amor, o ciúme, o medo, a inveja?

Comece lendo sobre o que te interessa e depois passe a ler de tudo - inclusive livros de pessoas completamente diferentes e opostas a você. Eu sempre simpatizei com autores progressistas, mas aprendi muito com conservadores como Céline, Nélson Rodrigues, Paulo Francis, Pound e Gilberto Freyre. Só pra constar, o maior símbolo da nossa extrema-direita - aquele que é astrólogo e filósofo - lista entre seus autores favoritos os comunistas Graciliano Ramos e Jorge Amado.

Mesmo que você não passe a concordar com o autor, isso lhe dará melhores argumentos em seus próximos debates. Aliás, antes de entrar em um debate no bar ou na internet, antes de emitir opiniões definitivas, antes de sentenciar alguém em seus julgamentos: leia sobre o assunto, pesquise, reflita. Existem excelentes livros sobre seu tema polêmico favorito: leia!

Se eu tivesse só um conselho para dar para você, caro leitor, eu repetiria: leia. Leia tudo que você puder. Faça carteirinha na biblioteca municipal da sua cidade, se você não tem dinheiro. Troque suas roupas de marca por centenas de livros, se você é rico. Presenteie seus amigos com livros. Pesquise sobre os autores, vá a sebos, leia livros que estão gratuitos na internet.

E, se você quiser bater um papo sobre literatura, estou aqui pronto pra passar uma madrugada enchendo o saco de todos falando sobre meus livros favoritos, os livros que eu preciso ler antes de fazer 40 anos, os livros que quero escrever um dia e até sobre um faroeste caipira que escrevi. Mas leia. Se tem um conselho que eu posso dar para quem quer mudar de vida é esse. Os livros salvaram minha vida. Eles podem salvar a sua também.

Uma versão mais rudimentar deste texto foi publicado no site Glück Project

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL