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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Meu maior feito é um só: continuar vivo

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

04/05/2022 06h00

Nunca fui muito de ter prazer com aniversário (o que acontecerá daqui dois dias), e eu já escrevi isso em um texto, há três anos. Mas se não tiver a oportunidade de ter lido, explico. A real é que nunca foi possível comemorar, já que o dinheiro possivelmente gasto com bolo, doces e o guaraná seria o mesmo a ser utilizado na compra do arroz e feijão dos dias anteriores à festa, e que me fariam permanecer alimentando nos dias seguintes.

Mas há quase uma semana, me vi defronte ao inusitado, ou ao menos silenciado processo de cuidado da saúde, e que por sua vez me fez parar em um hospital. Não entrarei aqui nos pormenores, já que tomaria mais de uma coluna falando sobre meu estado de saúde, que agora segue bem e cuidado.

Reflito talvez sobre o medo, não total - mas parcial - de morrer. Sim, é "normal" pensar isso quando numa sensação de vulnerabilidade. O mais triste é pensar que uma doença poderia me fazer partir, contrariando todas as narrativas traçadas até aqui para um jovem como eu: não morrer de morte "baleada", com projétil partindo de um fuzil, no meio do caos, do transtorno, com trilha de caveirão-voador (apelido dado aos helicópteros que dão apoio às operações policiais no Rio). Não morrer pela cor que trago na pele, e que muito molda quem sou.

Tal qual Jhonatan Ribeiro de Almeida, 18, pai de um bebê de quatro meses e que, no dia de minha internação, foi morto com um tiro no peito pela polícia carioca. "Porque mataram meu filho?", sua mãe, Monique, gritou, clamando respostas, vendo o corpo da prole sem nenhum socorro. Tendo que justificar que Jhonatan não fazia parte do tráfico. ''Largaram ele no chão como se fosse um porco... como se não tivesse família. O Jonathan tem família", reiterou.

Rascunhando minha jovem biografia, passa um filme com aqueles que são vítimas do Estado e da violência brutal que acomete o país. Foi-se Jhonatan, mas antes era Iago, Cleiton, Ryan... que não tiveram direitos, nem oportunidades.

Retomo os dados usados por minha colega de Ecoa Anielle Franco, que indicou que o relatório anual do Instituto Fogo Cruzado trouxe análises de que 75% dos massacres ocorridos na região metropolitana no Rio foram de responsabilidade da polícia.

A conclusão da pesquisa não é nada esperançosa. "Num Rio de Janeiro onde pistolas e fuzis se espalham pelas mãos de quem não deveria os portar, mesmo aqueles que são treinados para usá-las também são vítimas, dentro ou fora do serviço''. Só sei sentir.

''Confesso que não faço muita coisa, vou mais na sorte mesmo'', relembro a frase de um amigo, quando perguntei sobre como faz para se manter vivo sendo ele jovem, branco e morador de um bairro nobre. Confiar na sorte? Eu? Jamais. Ao longo de 24 anos, inúmeros são os macetes e estratégias para não me tornar estatística. E não é fácil. É rolê diário.

''Abaixa-levanta-fica calado'' não foi coreografia do TikTok, e sim subentendida durante a infância. Já agora, mais ''experiente'', não sair com mochila, com guarda-chuva de cano grande ou qualquer objeto que lembre uma arma. E ter a carteirinha da faculdade. E ter algo do trabalho como certidão de segurança.

Mas sobre o quê estava falando? Ah, sim, sobre fazer 24 anos. Na verdade, sobre não encarar muito bem os aniversários. Sobre transitar numa cidade violenta, sobre o genocídio da população da qual faço parte - e que é a maioria da população brasileira - sobre nada acontecer ''por engano'', um tiro disparado como se fosse ''normal''. Sobre as orações que faço dentro da van que corta a zona sul do Rio, escorrendo pelo morro e os bairros mais nobres. Ou sobre uma reflexão de dentro do hospital, repleto de amores passados, presentes e futuros.

Por isso, no dia 6 de maio, talvez não seja interessante receber os "parabéns". Eu queria mesmo era ganhar algo para muito além de mim: a possibilidade de meus sobrinhos crescerem e sonharem. E os amigos deles também. ''E vejo e peço dias de outras cores. Alegrias para mim, pro meu amor. E meus amores'', como canta Caetano.

Seguindo a trajetória do meu novo ano, já que meu maior e mais importante feito até aqui é um só: continuar vivo.

p.s.: Dedico essa coluna à minha editora em Ecoa, Fernanda Schimidt, que durante dois anos me estendeu as mãos em todas as quartas-feiras. Agora parte para um novo sonho e em um novo lugar. A ela, o meu carinho.