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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A palavra que não falta

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Imagem: iStock
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

16/03/2022 06h00

Na última sexta-feira (11), completamos dois anos de uma pandemia que pôs em xeque toda e qualquer certeza. Não houve âmbito que ficasse menos impactado desde quando anunciada a crise sanitária que já vitimou, só no Brasil, mais de 656 mil pessoas.

Num esforço de tentar captar as mudanças sentidas ao longo dos 24 meses que se passaram, me pus a perguntar nas redes a definição de cada um em apenas uma palavra. ''Luto'' foi o que a jornalista Flávia Oliveira sentenciou. Mateus Andrade, criador da Bienal da Quebrada, mandou ''dificuldade''. A colunista do Estadão e Rádio Eldorado Rita Lisauskas foi categórica: ''foda''.

Teve quem dissesse ''paciência'', e em seguida, surgiu ''penitência''. Houve espaço para ''solidão'', ''insegurança'', ''loucura'' e ''retrocesso''. Há quem apenas tenha conseguido dizer ''cansei'', ''exausta'', ''desgaste'' e ''turbilhão''. Maria Fortuna, repórter de cultura, lascou um ''tsunami'', seguida pela psicanalista Ligia Guerra, que contrapôs com ''superação''. Já outros cantaram ''resiliência'', ''dúvida'', ''ódio'' e ''pesadelo''. Teve rima com quem mandou ''medo'' e, infelizmente, ''depressão''.

No meio do ''caos'', espaço para riso, ainda que tímido. Foi Lulu Santos que lançou um ''alquingel''. Também levou quem escreveu ''aff'', logo depois de ''saudade''. Itala Maduel comentou ''adaptação''. Marcia Naidin complementou com ''renovação'', com Sandra Leal logo abaixo soltando um ''fé'' — que dividia espaço com ''genocídio'' e ''extermínio''.

Em conversa com o escritor Sérgio Rodrigues, que mantém coluna na Folha de São Paulo sobre a língua portuguesa e o uso das palavras, comentei a urgência de uma escalada das palavras, quase em movimento de violência, em certos momentos, para dar conta do que se vive. ''As palavras nunca vão dar conta de tudo. É da natureza delas uma certa insuficiência, a gente sempre correndo atrás de tentar nomear o mundo, e o mundo está sempre a um passo à nossa frente. O interessante é perceber que o volume foi ficando mais alto, a indignação, a perplexidade, junto com a revolta das pessoas e por razões óbvias''.

Para Sérgio, há avaliação positiva, mas também negativa do fato. ''Por um lado, também deixa escancarada a insuficiência da linguagem. A própria estridência, o fato de ter que gritar muito alto, acaba enfraquecendo a linguagem. Quando você grita muito, é normal que o interlocutor tenha certo descrédito. É muito complicado isso tudo, e ao mesmo tempo muito interessante''.

Ainda assim, há quem disponha fôlego não só em uma, mas em algumas frases, que resultam do mix de sensações de tempos tão sombrios. Foi Karen Ruanna que não conseguiu segurar os verbos. ''Palavras são poucas pra descrever esses dois anos de luta. Dois anos de um desgoverno péssimo, uma pandemia que levou milhões de vidas. Seguimos e seguimos remando numa maré que tá totalmente contrária. Onde o povo na labuta arduamente tenta de todas maneiras sobreviver, garantir um pão. Chegar no mercado e se deparar com o preço imenso das coisas. Tá foda''.

Não faltou nenhuma palavra. Nem precisaria.