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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Recordações de um Natal

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

22/12/2021 06h00

Pensar no Natal hoje em dia, com vinte e três anos, barba grande e contas a pagar pode parecer menos doce. Não que seja proibido viver a festividade sendo adulto, mas que todas aquelas sensações e alegrias perdem peso, isso não se pode negar — sobretudo para os mais experientes. A morte de uma pessoa querida, chegadas, partidas, uma separação, a distância. Tudo faz diminuir o brilho das memórias antes coloridas. Mas eis que finco o pé na esperança, depositando no evento as melhores energias.

Fui uma criança com encantamento pelo momento natalino, mesmo não tendo acesso à fartura da mesa e às mil possibilidades de presentes. De família pequena e por vezes desintegrada, cabia a mim ser a motivação, quase numa espécie de chama que resiste no escuro, apesar dos tempos em que a barra pesava.

Na lembrança, as vezes em que minha mãe estava trabalhando na véspera para, então no 25 de dezembro, comprar o frango assado da padaria e partilhar com os vizinhos que aparecessem pela frente. A coroa sabia repartir e multiplicar, e não acabava. Não, isso não é uma saudação à pobreza ou à dificuldade, mas simplesmente à vontade de se abraçar com um prato de comida quem surgir pela frente. É na divisão que a gente soma.

Na cabeça também brota o momento em que dona Lúcia estava acamada, por conta de uma ferida na perda que custou a cicatrizar por ter diabetes, o que durou cerca de um ano e meio.

Na espera de um milagre, além do nascimento do menino Deus, lá fui eu ajudar para que algo saísse do papel. E não é que deu certo? Gordinho à época, uma professora do meu reforço escolar lembrou-se de mim para fazer as vezes de um Papai Noel na casa de uma amiga.

Encarei o trabalho com a maior dignidade. Preenchido de espumas na barriga, dei vida ao bom velhinho para crianças e jovens da minha idade (12 anos). Fiz a alegria de alguns e também dos mais velhos, quando na verdade, queria mesmo era receber aquilo. No fim, as três horas de função me deram 120 reais, um pote com rabanadas que haviam sobrado e um panetone (talvez seja a partir dali que comecei a gostar), que compuseram a ceia daquele ano, juntamente com o peru comprado com a grana.

Não sobrou mais nada do dinheiro e a roupa da noite era a do ano anterior. Mas não grilava. O que fazia sorrir era estar com os meninos da Rua da Fonte, onde passei boa parte da infância. As altas roupas que ostentavam para ficar na sala de casa ou sentados na escada, aguardando os churrascos infindáveis. Os fogos para saudar a chegada de Jesus, o salvador.

Mesmo grande, não consigo fingir costume ao ver qualquer que seja a decoração da festa. Revivo tudo aquilo que não pude viver, projetando na sobrinha-filha que crio o gosto pela coisa. Ser tio-pai não é fácil e sinto que não posso esmorecer. Sobretudo quando aqueles olhinhos castanho-escuros de onze anos me perguntam, toda pimpona, a dúvida de diversas crianças à época: ''Tio, existe Papai Noel?''. E o adulto de 1,86 m de altura responde, calmamente. ''Sim, Luli. Ele existe e estará conosco na noite de Natal''. Mal sabe ela que ele já fui eu.

Esse ano recebi presentes especiais encarnados, e a eles celebro a noite, com o coração e a mente conectados, apesar da distância. O segundo da pandemia, mas já possível de encontro, graças à vacina.

Seja ele como for, que seja. E que você, desse outro canto da tela, tenha um motivo especial para vivenciar a noite com alegria, amor e afeto. Não importando o lugar, mas sim as pessoas. Mande mensagem, abrace, beije. Não brigue. Comporte-se. Ria e mais, sorria. Reclamemos menos, sonhemos mais. Quem sabe você não é o Natal de alguém?

Esse é o meu desejo mais especial. Para mim, para você e para mim. E para você, meu Natal antes do tempo. E que toda a magia seja envolvida com os acordes de Jesus Cristo, não é mesmo, Roberto?

P.S.: se puder, doe para a iniciativa SP Invisível, que neste ano faz uma ação nas ruas para quem vive nessa situação. Ao todo, 116 milhões de brasileiros vivem a insegurança alimentar. Ou faça a sua ação perto de você. Seja o Natal de alguém.