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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Graças a Deus, o WhatsApp parou

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Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

06/10/2021 06h00

Estava prestes a me locomover para a mesa na hora do almoço, quando a última mensagem enviada ficou como se não tivesse chegado ao outro lado. "Ué, mas o Wi-Fi está funcionando", afirmei a mim mesmo. Liguei o 4G, que fluiu como um jato no navegador do celular. Para certificar, tasquei um modo F5 na tela do laptop, e lá ia girando a internet. O problema não era ela, e sim os meios.

Dei de ombros, imaginando que poderia ser uma pane momentânea de minutos, quando frente à TV, a confirmação de uma parada não só em uma, mais outras duas esferas comunicacionais. A bem da verdade, em três aplicativos de uma mesma rede, em que confiamos tudo e não recebemos nada. Chefiada, veja só, por um mesmo ser, um dos tais "mi ou bi ou trilionários" anjos troncos do Vale do Silício, como resume Caetano Veloso em sua mais recente canção.

Me veio a sensação de uma Terra entrando em outro ritmo, mais calmo, quando fui surpreendido pelo toque do telefone. Era a terapeuta ligando para confirmar a sessão da tarde. Foi de minha boca que ela ouviu a explicação de seu telefonema, feito pelo WhatsApp, não ter completado. Acabei tirando sarro, dizendo que antes da plataforma, o próprio celular fazia isso, e que ela foi para o caminho certo: se quisesse falar comigo, haveria de ligar no celular "normal".

No balanço das horas, tudo mudou. Confesso ter gostado de ouvir e sentir, ainda que lacônicos e abruptos, "sim" e "não" por meio de uma chamada. Foi interessante esperar um diferente tempo de resposta ao falar com minha parceira através de SMSs, que no fim da noite, acumularam-se em ligação de aproximadamente uma hora e meia.

Apesar das frustrações de um dia em que muita coisa não andou - sobretudo para aqueles que dependem da precisão de respostas urgentes, os que trabalham com serviços fundamentais, os entregadores e demais profissionais - sinto que foi mais "feliz". Compartilhando o mesmo sentimento de meu colega em Ecoa Rodrigo Ratier, tive a impressão de que havia sobrado mais tempo. "O tempo correu mais lento e menos ansioso", disse ele em seu texto.

No resumo da ópera, a ânsia de se correr com tudo, em algumas horas, recebeu um "espera um pouquinho aí". A amiga e jornalista Cora Rónai, das mais entendidas sobre redes que conheço, resumiu bem: "Uma queda dessas nos mostra como estamos neuróticos com a ideia de comunicação instantânea. É perfeitamente possível sobreviver sem responder a tudo que chega, na hora em que chega".

Talvez fomos nós mesmos que implementamos essa correria, diferente daquela esperançada por Pierre Lévi acerca do surgimento do espaço virtual. Uma comunicação múltipla, ligando de uma ponta a outra pessoas, mas sem que estivéssemos com mochilas de pedras nas costas.

Fui pra cama com a certeza de que não desfaço de minha linha fixa de telefone nem por um decreto, tampouco cancelo o serviço do recebimento de cartas. Vai que acontece de novo?

P.s.: esperando ansioso pela próxima queda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL