PUBLICIDADE
Topo

Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Esperançar é preciso

O educador Paulo Freire - Instituto Paulo Freire
O educador Paulo Freire Imagem: Instituto Paulo Freire
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

15/09/2021 06h00

Confesso ter demorado a realizar o que escreveria normalmente nesta quarta-feira após o sete de setembro mais tenebroso da História brasileira. Senti-me na obrigação de que a coluna da semana passada fosse o compartilhamento do que vivo, e sendo amor, pudesse marcar. Até que atingi bem o êxito frente às inúmeras mensagens que recebi, todas carinhosas.O fato é: resistimos e continuamos aqui.

E se continuamos, o quê falar então? Ao poeta nunca pode faltar o verbo, e para o cronista que vos fala, a companhia da palavra ‘certa’ nos temas que mais nos chamam o teor de urgência. E se tem um assunto que tem me deixado sem sono é o descaso com a educação.

Pilar de minha vida, foi onde encontrei abrigo para ser o que sou e estou atualmente. Filho de escola pública em 12 anos, sendo nove no ensino municipal e três no estadual. Em 2016, na energia de fazer o vestibular para minha tão sonhada entrada na faculdade, fui líder de uma ocupação. Vivi algo catártico: fiquei junto de amigos e colegas por três meses debatendo os rumos daquilo que iria impactar não só a minha trajetória, mas as dos que viriam logo em seguida a sentar naquelas cadeiras.

Desde então, se o tema já era presente em minha vida, ficou ainda mais. Foi naquele momento que descobri um certo pernambucano que tinha sido pedagogo, educador e filósofo, terceiro pensador mais citado em trabalhos acadêmicos na seção de Humanas: o brasileiro Paulo Freire.

Posso afirmar que há um corte, uma divisão brusca entre o período que passei sem conhecê-lo e quanto suas reflexões e métodos me ajudaram a refletir de forma global, cada minúcia a ser resolvida na Educação (essa com E maiúsculo). Com sua ‘’Pedagogia do Oprimido’’, Paulo destrincha de maneira objetiva e didática os resultados que se tem quando os minorizados e marginalizados assumem outra função: a de serem maiores. Ali, o ‘’perigo’’.

Seu nome e obra são pegos para Cristo toda vez que se visa debater alguma mudança estrutural no processo de aprendizagem, e talvez por isso seja, desde aquele ano (ou sempre), alvo constante. Sobretudo dos que não têm apreço pela pedra fundamental do desenvolvimento humano, e se refastelam em lautos jantares ridicularizando a situação do país.

Penso que perdemos todos antes e ainda mais depois da pandemia - que não terá fim. Os números deprimem em todos os eixos, e as crises não são poucas. É estética, econômica, política, ambiental e social. E em todas elas, trataremos da falta de políticas públicas que asseguram o acesso amplo e irrestrito à educação.

Uma pesquisa Datafolha organizada pela Fundação Lemann, o Itaú Social e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) realizada neste ano evidencia que para pais e responsáveis, 40% dos estudantes de 6 a 18 anos não estão evoluindo na aprendizagem, não estão motivados e admitem que podem abandonar os estudos. Ainda sob olhar apreensivo dos responsáveis, 88% dos estudantes matriculados no 1º, 2º e 3º ano do Ensino Fundamental estão em "processo de alfabetização". Dessa fatia, mais da metade (51%) das crianças ficou no mesmo estágio de aprendizado, ou seja, não aprendeu nada de novo (29%), ou desaprendeu o que já sabia (22%).

Essas pessoas têm cor e CEP. 43% dos estudantes negros estão no grupo de risco de abandonar a escola, e o número cai se comparado com a avaliação entre os brancos: 35% Já em relação às diferenças socioeconômicas, a renda de mais da metade das famílias é de apenas um salário mínimo, em contraste com os 31% daquelas com renda entre dois e cinco salários mínimos. O risco é ainda maior nas áreas rurais (51%) do que nas urbanas (39%) e incide mais na região Nordeste (50%) do que na região Sul (31%).

Como então projetar o futuro? Em 2020, parte dos alunos inscritos no ENEM com isenção faltaram à prova - cerca de 2.780.947.Por isso, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) reabriu ontem o prazo de inscrição para os isentos ausentes no Enem 2020, em cumprimento a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Precisou da Corte interferir, mais uma vez, sob argumento de que as provas do ano passado foram aplicadas em um contexto de anormalidade, além de julgar a "difícil escolha" de faltar ao Exame por seguir o que preconiza autoridades sanitárias no tocante à covid-19.

Muitas são as coisas que podemos discutir. Penso no pernambucano Freire, que completaria 100 anos no próximo domingo (19), a observar o cenário. Triste com certeza estaria, mas é dele também que vem motivação para acreditar que temos saída. Afinal de contas, ‘’esperançar é preciso’’.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL