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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A favela, a identidade e os quiosques

Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro - Ricardo Moraes
Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro Imagem: Ricardo Moraes
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

25/08/2021 06h00

Se você ainda não sabe e chegou aqui agora, eu sou um jornalista nascido e criado na Rocinha, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro e do país. Sempre digo que quando pensada por Cristo, ou seja lá qual for a força na qual você acredita, ela foi feita de propósito, justamente por estar ao lado da Gávea e São Conrado, dois dos bairros mais abastados da cidade.

Minha mãe, Lúcia, foi cozinheira doméstica por mais de trinta anos, e um dos locais onde mais atuou como empregada durante toda sua vida foi a Praia de São Conrado. Parcialmente, posso dizer que metade da vida passei dentro dos condomínios de luxo sem ao menos morar neles.

Mas algo me fazia deixar de crer que aqueles lugares não eram realmente meus, todas as vezes em que, mesmo pequeno, entre nove ou dez, tinha de mostrar o meu RG quando ia junto de ‘mi madre’ para seu trabalho, o que só acontecia em dia de tiroteio. Ah, cabe lembrar também das ocasiões em que eu ia à praia para correr e tentava na volta dar uma passadinha para tomar água. Eu disse que tentava, pois, no fim, não conseguia.

Por ir correr, não gostava de levar a identidade. Não levando identidade, não havia possibilidade de entrar. Não entrando, não tinha água. Simples: eram coisas "de cima’’.

A coisa encrencava vez em quando. É que eu sou negro. Para legitimar todas as informações que eu dava relacionadas ao apartamento, bloco, nome do prédio, etc, minha mãe tinha de parar tudo que estava fazendo, descer e confirmar que "sim", o menino preto de cabelo volumoso era seu filho, mesmo já tendo sinalizado a mensagem pelo interfone.

Carrego ao longo dos anos uma relação de amor e ódio pelo bairro de São Conrado. Amor no que se refere à praia, instrumento de entretenimento, agregador. A ilusão de um espaço democrático e aberto, com frango na mão e farofa no prato, local onde todos nós, moradores da favela ou não, poderíamos ir mesmo abarrotados de contas a pagar. No tocante ao ódio, pelo excessivo teor de preconceito expressado e concentrado em cada metro quadrado da região, principalmente por irmos à praia que eles frequentam.

Escrevendo as frases anteriores, relembro uma vez que fui encontrar amigos na antiga livraria do shopping que ali existe. Bermuda, camisa branca e sandálias. E mais um segurança do lado, que ao me avistar dando os primeiros passos dentro do lugar, me acompanhou até a porta da livraria, parando somente no momento onde observara que os que me esperavam eram brancos, loiros e de olhos claros. Gelei. Mas o questionei sobre todo o movimento que o mesmo havia feito, e a resposta foi: "Estou seguindo ordens". Mais do que ver, a partir dali, com apenas 9 anos, caía em mim o quão desigual eram as coisas que giram neste local chamado Brasil. Yes, nós temos banana.

Minha mãe hoje já não trabalha mais em Sanca, apelido carinhoso dado ao bairro, mas continuo correndo na praia, mascarado e com identidade no bolso. Na real, eu só tento correr, já que o calçadão está acumulado de inúmeros quiosques chiques e caros, todos sempre cheios, sem nenhum protocolo. Com seus clientes ostentando e aparentemente pouco importando-se com o que acontece do Uiapoque ao Chuí. São os quiosques brancos dos brancos, onde vê-se negros somente dentro dos trailers de duas formas: cozinhando ou servindo. ‘’E a pergunta roda e a cabeça agita’’: seria errado?

Corta. A Rocinha é a coisa mais cosmopolita do mundo, diria eu. É essa coisa pulsante, viva e intensa que conheço. Institucionalizamos o caos nos postes, no barulho desenfreado e diário do confuso tráfego de ônibus de linha e escolares, vans e caminhões de lixo. Aqui a palavra de ordem é o amor, mesmo que em nossos becos já tenham morrido centenas de pessoas. Sim, eu sei, isto não é normal, mas tornou-se comum ao longo dos anos. O talibã é aqui.

Nossas portas estão abertas, é só você escolher. Desbrave esta cidade dentro da cidade subindo-a pela Estrada da Gávea ou vindo pelo Zuzu. Você entra aqui de graça e sem ter de mostrar identidade, basta estar vivo. Pera. Nem tão de graça assim, se quiser conhecer andando de moto. Mas calma: o preço é camarada, apenas R$ 4,00. Amamos receber gentes, contar histórias e terminar o encontro no Laboriaux, parte mais alta da Rocinha e de melhor e maior vista do Rio.

Eu nunca fiz nenhum questionário do Proust, mas se o fizesse, na pergunta ‘’Onde você gostaria de morar?’’, responderia que na Rocinha, o melhor lugar do mundo para mim no aqui e no agora. E o meu sonho…Hmmm... Que todos possam ter estrutura pra poder estudar. De saneamento e de transporte. De família. E de identidade, para que todos tenham em mente a certeza de que não existe ninguém acima.

Precisamos construir mais pontes, derrubar mais muros. Daqui do alto dessa minha grande vista ocidental, rezo à Nossa Senhora de Fátima para que isso de fato aconteça. E não só: para que todos nós convivamos na luta por um país mais justo, onde a graça seja a pluralidade do encontro. Que o ministro da educação saia do cargo, que o Crivella não acabe como embaixador, que a pandemia tenha "fim" e eu possa curtir o Carnaval ao lado da minha mina. E que o presidente da república pague por tudo que fez e está fazendo em respeito às gerações de agora e as que virão. Por Dona Lúcia, pelas minhas Luísas, por você e por mim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL