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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cartas para um certo alguém

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

11/08/2021 06h00

Queria escrever-te uma carta para que pudesse saber das minhas novidades. Gostaria de começar inicialmente dizendo que envelheci. Pois é, o tempo acabou chegando. Nem tão velho e nem tão novo, cá estou ajustado. Melhor: eu quero te contar que amadureci. Melhor: uso agora umas máscaras que fazem a pele ficar mais 'nova' e bonita, mas não adianta muito, porque uso por cima as que a esconde.

A Luísa, minha sobrinha (quase) filha, ainda está morando comigo. É, sou um tio-pai. Espera. É que eu não sei se você sabe, mas virei tio. E de três! A Luísa é a última e está mora há oito anos - ela tem 11. Eu já contei sobre isso? Desculpa, são muitas coisas. Eu entrei para a faculdade com a ajuda de uma vaquinha, vê se pode? Paguei com a língua, virei case de sucesso e hoje não duvido de mais nada que apareça em relação às causas na timeline. Basta aparecer uma tag e eu já estou curtindo, compartilhando, doando. Faço o que posso. Inclusive, você já contribuiu para o Padre Julio Lancellotti hoje?

Também tranquei a faculdade, cheguei a ficar oito meses sem dormir em casa por morar fora. Conheci muita gente, amei algumas pessoas.

O menino que você conheceu virou homem não só no quesito tamanho, mas em responsabilidade. Resolvo problemas, pago contas, penso no jantar, falo sobre política mesmo sem um vasto entendimento sobre e ainda assisto séries dinamarquesas. Se sou um ''homão da porra''? Não sei. Eu só queria mesmo era ser cool e aprender a cantar funk, dançar que nem os meninos do passinho e viajar feito o Pedro Andrade.

Esse mesmo menino (e que hoje é homem) faz análise toda semana. É uma santa ajuda, ele recomenda. Também quebrou a ideia que foi vendida a ele de que sendo homem, seria o ''Super'' e que tudo poderia fazer. Quer dizer, não só ele foi enganado. O Gil também foi, é só olhar a música. Ele também quer contar que aprendeu a andar de bicicleta há pouco, e que ostenta isso com a maior felicidade do mundo. O homão também tem momentos de bobão.

Já rodei o país com a escrita e reafirmo todos os dias o quanto sou realizado sendo jornalista, apesar do Rio de Janeiro e do Brasil. Você sabe e acho que lembra, né? Porque eu, sim. De tudo, todos e de nós. A cumplicidade dada pelo olhar e pela certeza de que o mundo era legal e bonito sem Temer, Cunha, Liras e Bolsonaros. Sem tanques nas ruas enquanto muitos brasileiros carecem de alimento e de emprego. Sem pandemia. A gente ria muito e não estávamos sós.

Tínhamos milhares conosco, dava até para contar nos dedos. Nós crescemos. Outros mundos, encontros, amizades e certezas. Nele, você sabe, existem Temer, Cunha, Liras e Bolsonaros. Há uma lista imensa de seres e coisas que fazem da peleja cotidiana um tanto quanto mais difícil, não nego. E quanto mais velhos, mais abominações vamos angariar. Ó vida, ó céus.

Mas, calma, é que fui me atropelando e nem perguntei se você gostaria de ter lido até aqui. Sigo sedento de notícias vindas de ti. Outro dia, ao atravessar o sinal, a avistei no outro lado da calçada. Me vi defronte com algo que me transbordava em grandes quantidades. Silenciei-me na intenção de talvez não incomodá-la com minhas perguntas. ''Por onde andou?''; ''Com quem esteve?''; ''Quais foram seus últimos desejos, sonhos e afins?''; ''O que você fez e/ou faz?''; ''Como tens vivido?''

Eu só queria que você soubesse que essa é mais uma das inúmeras cartas que eu fiz para você e que não chegarão, e mesmo isso acontecendo, o pensamento segue sempre comigo. Peço que não se admire caso algum beija-flor ou passarinho cruze seu caminho durante os dias de sol a pino. Fui eu que enviei, para fazer do teu dia mais um quadro de arte, com tons cintilantes de nostalgia e puro amor.

assinado,
um menino do seu passado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL