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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um chá de distopia

Thiago Braz comemora salto durante a final olímpica na Rio 2016 - Alexandre Cassiano/Nopp
Thiago Braz comemora salto durante a final olímpica na Rio 2016 Imagem: Alexandre Cassiano/Nopp
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

21/07/2021 06h00

Daqui dois dias, ou seja, na sexta, o mundo voltará seus olhos para Tóquio, cidade sede das Olimpíadas 2020, mas que acontecem em 2021.

A realização do evento, feita sob pressão do esforço financeiro para viabilizá-lo, tenta burlar a distopia que nos confina desde março do ano passado. A trancos e barrancos, a iniciativa quer enfatizar que há vida pós-covid, mesmo estando submerso nela.

Apesar de uma cidade com alto teor de restrições, fica impossível conter a propagação do vírus. Na manhã de ontem (20), o Comitê Organizador das Olimpíadas atualizou o número de infectados pelo coronavírus: são 80 até o momento, sendo alguns atletas que participarão das atividades.

Durante os últimos dias que antecedem o início do torneio, Tóquio registrou média diária de casos acima de mil. Ao longo dos meses anteriores, pesquisas atestaram que a população local não queria receber o período olímpico em meio à crise sanitária, que segundo a diretora técnica da Organização Mundial de Saúde, Maria Van Kerkhove, "está longe do fim".

Não há como não pensar no sentimento frente à festa vivido há cinco anos, sob as bençãos do Cristo Redentor. Àquela época, as coisas não iam muito bem por aqui: o país enfrentava o início do processo de impeachment da presidente Dilma Roussef; um desmonte na educação pública fazia estudantes ocuparem suas escolas por melhorias — fui um deles —; taxas de desemprego já eram altas, e a fome já indicava retorno ao debate na praça.

Enfrentávamos tudo isso e mais um pouco, só que juntos, em aglomerações onde se abraçava quem conhecia ou não. Não tínhamos sobre nossas cabeças uma pandemia tão violenta.

Sinto saudades e sei do quê, mas algo me impede de vivenciar o espírito esportivo em sua amplitude no agora

Quero sopros de vidas reais e possíveis, não apenas viver ilusões. Invejo a imagem que vi no último sábado, após fazer uma entrega para minha mãe: uma dupla de amigas que se regozijavam na orla da zona sul carioca (pudera), sendo servidas com taças de champanhe. Havia um ar de superioridade e uma sensação de que "tá tudo tranquilo", mesmo sem estar.

Observei a cena em cima da bike, e pensando que a quilômetros dali, o conjunto de favelas da Maré, na zona norte, passara 24h diante de uma operação policial. Por lá, nada estava bem. Moradores ficaram com medo até de ficar em casa, pois tiro ultrapassa parede e não existe bala perdida.

A distopia pesa, claro. Mas viver tentando fugir dela é pior ainda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL