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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não podemos morrer. E isso importa

Menino empina pipa de frente para o mar de Ipanema, no Rio - Getty Images/iStockphoto
Menino empina pipa de frente para o mar de Ipanema, no Rio Imagem: Getty Images/iStockphoto
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

19/05/2021 06h00

Desde criança, temo ser dado. Não o brinquedo, digo, mas aquele que elenca números positivos ou negativos em análises. No meu caso, o receio era estar alinhado com porcentagens que escancaram que uma vida como a minha não é possível no país onde nasci e cresço (ainda): negro, periférico e favelado.

Ao passo da trajetória, fui perdendo muitas pessoas que amava por enfermidades, como o câncer. De uma tacada só, aos 11 anos, perdi em sequência três pessoas pela doença, num espaço de um ano e alguns meses. Na cabeça, foi plantada em mim uma questão difícil de resolver: "E se eu não morrer de bala? Como explicarão?"

Era um baque o apontamento de uma outra alternativa que fugisse aquilo que via reproduzido na TV ou mesmo presencialmente, nos becos da favela, passando por cima de corpos amontoados, corroborando a narrativa individual e coletiva de fim único. Uma predestinação, sem que a nos fosse ofertada a interrupção na Terra a não ser alvejado durante uma operação policial.

Assim fui dialogando e criando estratégias de sobrevivência, reiterando as muitas formas de fechar o ciclo. Aprendi a não ter medo da morte, mas sim de morrer e não ver os planos efetivados.

Quando ano passado contrai o coronavírus, a reflexão foi rememorada. Permito confessar que fiquei chapado. "Será que vai ser por conta desse vírus? Não é possível", dando pane na clausura do isolamento. Felizmente, aqui estou, diferente de muitos, infelizmente.

Mas, recentemente, ao ver o Caso Jacarezinho, o que não gostaria de internalizar veio na velocidade de um jato. Uma "operação" terminada com 28 mortes, sendo uma delas a de um policial. Imagens de horror, com moradores unidos para lavar poças de sangue. Famílias sem poder velar seus entes, todos despedaçados.

Na frente da tela, ao passo que tentava acreditar em outras opções de fechar o ciclo, vi que ainda mais hoje, no Brasil 2021, sou o alvo certo. E me pergunto todos os dias, ao findar a jornada, o "por que não eu?"

São pensamentos condicionados pelo Partido da Morte, tal qual resumido por Átila Roque em artigo n'O Globo. Nele, Átila aponta que o desprezo pela vida das populações desprezadas faz parte de uma visão "racista e mesquinha" apresentada por agentes que não têm respeito com o viver. E que aniquilam, diariamente, pessoas como eu, as vítimas de Jacarezinho, o menino João Pedro, Ágatha, as crianças de Belford Roxo, e a lista não para: indígenas, quilombolas e demais pessoas que engrossam a parcela inviabilizada e majoritária do país.

Para ele, só há uma forma de respondermos: com vida, num fechamento proposto inicialmente por Conceição Evaristo, de que não podemos morrer. E de que isso importa.

Reivindico o acordo, por Átila, Conceição, por você, por mim. Depositando na frase de Jurema Werneck, durante entrevista ao Roda Viva na segunda (17), todas as esperanças: "A gente quer morrer da morte boa. E viver da vida boa".

É.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL