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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Brasil tá vendo?

Operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro na comunidade do Jacarezinho resultou na morte de ao menos 29 pessoas na última quinta-feira (6) - LECO VIANA/ESTADÃO CONTEÚDO
Operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro na comunidade do Jacarezinho resultou na morte de ao menos 29 pessoas na última quinta-feira (6) Imagem: LECO VIANA/ESTADÃO CONTEÚDO
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

12/05/2021 06h00

Nesta Terra, tudo que planta dá, sempre em abundância, assim como os descalabros que nos envolvem de um extremo ao outro do país. Não se pode dizer que falta agitação.

Em Brasília, no último domingo, Dia das Mães, o presidente Jair Bolsonaro se regozijava num churrasco com picanha de boi da raça wagyu, de origem japonesa. O preço da peça? R$ 1.799,99. Muito longe das cifras nada fartas de R$ 150, valor mínimo concedido através do auxílio emergencial em sua nova rodada de benefício.

Aos que dependem do programa de renda, nenhum fiapo de carne é possibilitado, e a conta talvez seja ditada entre comprar ou não o ovo hoje para ter o pão amanhã.

As notícias da capital federativa não param por aqui: uma apuração do "Estadão" mostrou que nos últimos três meses, o governo destinou R$ 3 bilhões em emendas para a compra de tratores e implementos agrícolas usados em obras públicas e projetos de cooperativas da agricultura familiar. Diferente do habitual, os recursos foram divididos sem a demanda original, numa espécie de "orçamento secreto". Três milhões de reais, que, segundo a matéria, foram utilizados para a compra de tratores e equipamentos de agricultura com superfaturamentos de até 259%.

Numa imagem panorâmica sobre o mapa nacional, o país contabiliza ao menos 12 capitais com vacinação contra a covid-19 parcialmente paralisada por falta de doses. E a tendência é de que o quadro sofra agravamento nos próximos meses, segundo o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Conass, Carlos Lula, em entrevista à CNN anteontem, segunda-feira (10).

"Infelizmente isso ainda pode piorar nas próximas semanas. A gente acredita que a partir de julho devemos acelerar o processo de vacinação, mas, até lá, teremos muitos problemas", disse, num tom de eufemismo. Quanto mais demorarmos, mais veremos os números de casos aumentarem, juntamente com os de mortes. Uma estratégia deliberada em se chegar à imunidade de rebanho, tal qual já foi percebida nos primeiros depoimentos da CPI da Covid.

Nosso "elixir", desde o início, seria a vacina, que já poderia ter salvo metade das mais de 423 mil vítimas só neste ano. Uma delas sentida de maneira nacional e profunda: a de Paulo Gustavo.

Ao Fantástico, Déa Lúcia, mãe do ator e principal inspiração para a personagem Hermínia, que se tornou a 'coroa' brasileira personificada, avatariza o sentimento que dói em parte da nação. ''Eu chorei com cada mãe, e choro, e vou continuar chorando. Essa luta vai ser minha''. Lúcida, enfatizou que a omissão dos líderes em meio a pandemia nos faz chegar onde estamos, além da bandalheira. ''A corrupção mata. Roubar na pandemia é assassinato'.'

Morre-se de fome, de falta de vacina e de bala. O palco onde habita o riso é o mesmo que divide espaço com o choro nos becos, vielas e demais frestas nas favelas, como a do Jacarezinho, onde foi aberta uma sequência de execuções na quinta, 6. De uma só vez, 29 pessoas foram mortas - 21 eram investigadas. Desse número, apenas três foram detidos e outros três, mortos.

A mais letal da história do Rio e a segunda maior chacina já registrada no Estado. Ao menos 13 dos mortos não tinham relação alguma com a investigação tida pelo governador do Rio, Cláudio Castro, como "trabalho de inteligência". Entre as vítimas estava o policial civil André Frias.

É coerente que o novo chefe da Guanabara veja inteligência em um modus operandi criado para abater e gerar bons frutos. Nas redes sociais, a avaliação positiva o fez crescer, registrando 41% das mensagens a favor de suas ações.

Do Oiapoque ao Chuí, há descaso e ocultação, mãos sujas de sangue e um 'deixa fazer' sem fim. Não há justiça, nem paz. Será que o Brasil 'tá' vendo o Brasil lascado?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL