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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desculpa se não escrevo sobre a praia

Praia de Grumari, no Rio de Janeiro - Getty Images/iStockphoto
Praia de Grumari, no Rio de Janeiro Imagem: Getty Images/iStockphoto
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

05/05/2021 06h00

Em fevereiro deste ano, o jornalista, produtor musical, apresentador e escritor Nelson Motta trazia em sua coluna n'O Globo uma questão que me afeta de modo particular: o ofício do cronista, aquele que trará, de maneira peculiar, a leitura do cotidiano. Sou impactado pela dinâmica por entender que, com a trajetória profissional, me tornei um.

No texto, Motta dizia sobre a construção dessa escrita tida como banal, mas que acerta a todos seja no impresso ou no online. Por ser algo corriqueiro, por muito foi tratado como algo ''pobre''. Na análise, fez referência aos caminhos que nós, articuladores das palavras, tomamos desde a redemocratização, quando trocamos a chanchada amorosa ou o papo da esquina do bar por discorrer sobre o cenário político, já tão nefasto, e o panorama social.

Para ele, ''hoje tudo isso parece tão antigo, ingênuo e piegas diante do que a crônica se transformou na era Bolsonaro: ficou tudo muito chato e monotemático''.

Semanalmente, escrevendo aqui e também na "Revista Época", fico apreensivo sobre o que trazer para amenizar a dor diante do que vivemos, e não é fácil. Por insistir em alguns temas que a mim me custam caro e chamam atenção, penso ''estou sendo um pé no saco'', frente ao computador onde escrevo estas linhas.

Daí me ponho a refletir: 'sobre o quê poderia falar então'? Talvez da experiência que é acordar em frente à orla, postando uma foto dizendo ''gratidão'' e aglomerando com amigos na praia. E depois, não bastasse, registrar a felicidade que é poder ter essas pessoas em uma festa, sem máscaras. Mas não, não é meu cotidiano e parece longe de ser.

Poderia também falar sobre qualquer problema banal, que no momento parece grande, mas que com um PIX pode ser resolvido (chamam, no geral, de 'white people problem'). E lá escreveria eu sobre essa 'via crucis', tomando uma taça de gin tônica. Mas também não é meu dia a dia. Ou como Keila Melmann, famosa decoradora de ambientes, vivida pela atriz Ilana Kaplan, diria: 'Não, não é de bom tom'.

O flerte ficou impossível, os memes desgastados. 'O que me restaria para prosear?' surge na mente, e logo um apagão. Uma lâmpada acende, como nas animações. 'É óbvio que isso', eu mesmo me respondo.

Com a alta da pandemia no país, milhares de pessoas já vulnerabilizadas socialmente estão ainda mais em perigo. Pesam sobre nossas frágeis moleiras um índice de desemprego que estima 14,4 milhões de brasileiros, segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A comida 'tá cara' e colocá-la na boca virou desafio. No espaço de tempo onde registramos mais de 400 mil mortes pela covid-19, há uma infinidade de entidades, iniciativas e projetos, por todo Brasil, ajudando comunidades, favelas e minorias étnicas, com objetivo de frear a onda fúnebre que nos assola. Pessoas que precisam de sua contribuição. Do contrário, não terão como se alimentar. Aqui em Ecoa você confere uma lista.

''Responsabilizar-se pelo outro e pelos diferentes coletivos que nos rodeiam talvez seja um dos nossos maiores desafios para uma transformação cultural como sociedade (...) Essa deveria ser a bandeira de cada cidadão brasileiro consciente'', foi o que disse Maria Alice Setubal (Neca), doutora em psicologia da educação, socióloga e presidente do conselho da Fundação Tide Setubal, em texto publicado na Folha de São Paulo. E eu, como cronista, concordo.

Na impossibilidade de trazer vivências que fogem ao que é urgente, faço deste cantinho um local de reflexão e compartilhamento para alguns discursos únicos, e são eles:
1) #TemGenteComFome. 2) O país precisa vacinar.
3) #VidasNegrasImportam. 4) Bolsonaro genocida.

Abraço e acolho todas as críticas por apostar nisso, mas me arrependeria amargamente se não as fizesse. Aos que esperam atitude diferente: desculpa se não escrevo sobre a praia. Um dia, quem sabe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL