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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vencedor do Oscar, curta "Dois Estranhos" é uma paulada

Cena de "Dois Estranhos", que venceu o Oscar no domingo - Divulgação / Netflix
Cena de "Dois Estranhos", que venceu o Oscar no domingo Imagem: Divulgação / Netflix
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

28/04/2021 06h00

"Hoje, a polícia vai matar três pessoas. Amanhã, a polícia vai matar três pessoas. Depois de amanhã, a polícia vai matar três pessoas. Porque a polícia dos EUA mata três pessoas ao dia", foi uma das mensagens de Travon Free, comediante vencedor do Oscar de Melhor Curta por "Dois Estranhos" (Netflix), em seu discurso. Digo uma das pois só nele havia a representação de várias: sua roupa trazia o nome das vítimas acometidas pela violência policial americana, e que foram pauta na película que garantiu a estatueta.

O curta é uma paulada. Em um frenético looping, conta a vida do jovem negro Carter James (vivido pelo rapper Joey Bada$), que acorda ao lado de uma linda mulher após um encontro feliz. No movimento de saída do apartamento, em Nova York, o rapaz acende um cigarro na calçada e acaba sendo abordado por um policial branco (Andrew Howard), que o acusa de ser traficante. Alvo 'perfeito', é repreendido por reagir a tentativa de revista e acaba assassinado. Mas o desfecho não tem desfecho: ao abrir os olhos, está de volta à cama onde teve prazer. E tudo começa outra vez, num ir e vir de giro em círculos sem precedentes, onde o final já é sabido.

Não só as cenas causaram impacto, mas a constatação da realidade diária americana que vitimou pessoas que ficarão na história, como George Floyd e Breonna Taylor. O primeiro, personagem brutal de morte filmada em Minneapolis, no Minesota, um registro que marcará o século. Os joelhos do policial Derek Chauvin - agora condenado - o impedindo de respirar, deixando Floyd sufocado, sem ar. Um antes e depois cirúrgico do movimento #BlackLivesMatter/#VidasNegrasImportam.

A segunda, uma técnica de emergência médica e aspirante à enfermeira, com vida ceifada após uma batida de agentes para cumprir mandado de busca por atos de seu ex-companheiro (veja só). A profissional de saúde agora dá nome a uma lei, que desde junho bane a invasão de casas em operações de buscas em Louisville, no Kentucky.

Eles e tantos outros são peças de citação ao final do filme de Travon, que teve sua fala durante a cerimônia de entrega do prêmio amplamente repercutida nas redes sociais brasileiras. ''Chocou. E deveria chocar mesmo. No Brasil, a polícia mata 17 por dia: 80% negros'', enfatizou o jornalista Luís Adorno.

Os dados aos que Adorno se refere são os obtidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Numa comparação entre os dois últimos anos (2019-2020), a média de mortos pelas polícias no primeiro período foi de 17,4 por dia. Já no semestre inicial de 2020, 17,5. Os números apontam que, de todos os assassinatos registrados no país, 13,3% são provocados por policiais civis e militares.

Doídos, apontamentos que escancaram a tragédia pela qual o país passa, com embasamento histórico. Pessoas que perderam e perdem, enquanto você lê este texto, o direito de viver. Por serem reconhecidas pessoal e digitalmente pela cor da pele, o cabelo, altura, voz, a partir da visão geral de que trazem as mesmas características: são negras e negros, sua maioria, periféricos e ou favelados.

"Não sejam indiferentes à nossa dor", foi a fala final do roteirista no mais famoso prêmio da Terra, em relação aos Estados Unidos. Mas poderia ser também para o Brasil.

E como cito o Oscar, a trilha de uma saudação para não esquecer as vítimas de violência não será fúnebre, igual a do clipe durante a cerimônia: 'As', de Stevie Wonder.

Que assim seja.

P.S.: Onde estão os três garotos de Belford Roxo?
P.S2.: O Brasil não pode ficar sem Censo.
P.S3.: Tem gente com fome.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL