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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aos jovens e adultos: nossos pais envelhecem

Getty Images
Imagem: Getty Images
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

14/04/2021 06h00

Aconteceu faz um tempo. Era manhã, por volta das 10h. No visor, a chamada 'Casa'. Atendi. Do outro lado da linha, a voz feminina embargada de minha mãe. ''Estou com muitas dores'' foi o disparador para que a preocupação e o nervosismo tomassem conta de mim no outro canto da linha, numa outra cidade.

Durante a conversa, que durou pouco mais de 10 minutos, a descrição de tudo aquilo que havia acontecido até a ligação. As crises em decorrência de cálculos renais haviam impossibilitado o sono e por consequência, seu descanso. A neta, minha sobrinha, havia saído para escola para o ponto de ônibus da escola - pré pandemia - sozinha.

Enquanto falávamos era ela em casa, sem remédios, mas com lenços e documentos. Uma consulta de análise socioeconômica do hospital agendada para a quarta seguinte e enfim, começarem os processos para a sua cirurgia. Mas suas dores não respeitam prazos, tampouco a comprovação de pobreza. Seus incômodos cada vez mais constantes respeitam apenas o agora.

Tentei segurar o choro, fingindo uma normalidade. ''Ficará tudo bem, eu chego na manhã desta sexta. Vamos resolver isso'', soltei, mentindo pra mim e para ela. Aos 20, poucas são as coisas que você realmente pode fazer, além de encher o saco e criar problema. No meu caso, não tanto. Desligamos o telefone. Fui correr.

Na ida, suor e choro decoravam meu rosto. Me dei conta, pela enésima vez nos últimos três anos que este processo é maior e delicado: a velhice de minha mãe está se concretizando. Ela não esperará que eu complete 40 ou 50 anos para ter dores na lombar, fraqueza nas pernas, dores de cabeça que terminam em enxaquecas. O ideal de que devemos primeiro envelhecer para que só depois eles possam cai por terra.

Ninguém me avisou que isso aconteceria tão cedo, de que o corpo dela padeceria em casa. Se há aviso, esqueceram de mim. 'Como é que você vai pifar agora?' ou 'por que comigo?' são as perguntas que você tenta responder, com raiva. Raiva derivada de uma tristeza colossal, refletindo a impossibilidade de fazer algo para quem lhe deu a vida. Uma amiga, outro dia, comentou 'tudo na sua vida segue um ritmo intenso. talvez isso tenha sido respeitado até nessa situação'.

Enquanto nossos pais ficam senis, você mergulha na infantilidade, em busca de conforto para amenizar a solitude que é desempenhar todas as funções. A impotência vem, junto com a não crença do que seus olhos assistem. A cada dia, um episódio diferente. A repetição de uma mesma informação três vezes ou mais, além da facilidade em esquecer. Intercalamos risos e choros quando chegamos nesse estágio.

A vida não foi fácil para ela. 30 anos como doméstica, servindo o lauto jantar nas casas dos patrões quando ela mesma se preocupava se eu teria o que comer em casa. Criou dois filhos, ficou em coma durante três meses por conta da diabetes. Além de um processo contra empregadores que deixaram de pagar seu INSS por sete anos. E que achavam isso normal, mesmo morando no condomínio mais caro de São Conrado. Mais do que dizer que não foi fácil, a vida, em alguns momentos, foi injusta.

Voltei para casa, tomei banho e fui trabalhar. No fone, ao apertar o display de aleatório, Milton Nascimento. Me senti afogar no mar de lágrimas ao som de 'Cais'. Ao escutar Bituca, ouvi a voz de minha mãe e algo silenciou o vazio que havia dentro de mim desde o início daquela manhã. Não adiantava fugir, nem prender. Deixe que o mar se encaminhe para levá-los, como barcos, para esse momento tão atenuante de nossa passagem.

A mesa gira, o jogo inverte e está aqui estabelecida uma dinâmica que a própria vida se prontificou em organizar por você, meio de graça. A concomitância de ser filho e pai, o melhor amigo, babá, parceiro. ''Eu queria que você fosse mais jovem, para voltar a ficar nos meus braços como ficava quando bebê'', me confidenciou outro dia, enquanto comíamos.

Na incapacidade de recriar o momento, o contrário é bem mais provável. Somos nós que devemos colocá-los no colo. E cuidar, ainda que por um milésimo você possa pensar que não há forças. É fundamental que todos saibam e tenham isso em mente: nossos pais envelhecem.

P.S: A coroa se vacina na segunda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL