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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O discurso do presidente

24.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia de posse dos novos ministros da Secretaria-Geral e da Cidadania - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
24.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia de posse dos novos ministros da Secretaria-Geral e da Cidadania Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

10/03/2021 04h00

Quinta-feira, 20h30 da noite, horário de Brasília. Na TV, no rádio e na internet, a abertura do slogan do Governo Federal. ''Pátria amada, Brasil''. Em cadeia nacional, o pronunciamento oficial do presidente da república no dia em que se completa um ano de pandemia:

"Boa noite.

Sem pânico e histeria, como venho falando desde o princípio. O vírus chegou, está sendo enfrentado e brevemente passará.

Eu confio na hidroxicloroquina, e você? Tem centenas de relatos de médicos e de infectados dizendo que ela deu certo. Quem não quiser tomar, não toma, mas não fica aí querendo proibir. É um testemunho meu. Deu certo e estou muito bem. Aqueles que criticam apresentem uma alternativa.

A gente não pode injetar qualquer coisa nas pessoas e muito menos obrigar. Eu falei, inclusive, que ninguém vai ser obrigado a tomar vacina, e o mundo caiu na minha cabeça. A vacina é uma coisa que, no meu entender, você faz a campanha e busca uma solução. Você não pode amarrar o cara e dar a vacina nele. Eu acho que não pode ser assim.

Eu, Jair Bolsonaro, não sou contra a vacina. Mas sou plenamente favorável a esse tratamento que nós temos no Brasil.

Eu não posso falar como cidadão uma coisa e como presidente, outra. Mas, como sempre, eu nunca fugi da verdade, eu te digo: eu não vou tomar vacina. E ponto final. Se alguém acha que a minha vida está em risco, o problema é meu. E ponto final. Eu tive a melhor vacina, foi o vírus. Sem efeito colateral.

O que essa pandemia serviu para revelar foram os aprendizes de ditadores. Figuras nanicas, hipócritas, boçais, achando que manda no estado dele. Vai tomar vacina? Vai tomar você, pô. Vacina ou o que você bem entender. Coca-Cola, Tubaína?

Tudo agora é pandemia, tem que acabar com esse negócio. Lamento os mortos, lamento. Todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer. Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Vocês não ficaram em casa. Não se acovardaram. Temos que enfrentar os nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?. Não adianta começar a fechar tudo de novo. Um lockdown mais rígido acarreta mais mortes. Devemos sim voltar à normalidade. Tenho, como chefe de Estado, que tomar decisões que não me deixaram tomar. O que faltou para nós não foi um líder, mas deixar o líder trabalhar.

Temos a consciência tranquila. Com os meios que temos, podemos realmente dizer que fizemos o possível e o impossível para salvar vidas.

A desinformação mata mais até que o próprio vírus. A história vai mostrar onde se errou, e se algumas mortes poderiam ser evitadas. Venceremos o vírus e nos orgulharemos de estar vivendo neste novo Brasil, que tem tudo, sim, para ser uma grande nação. Estamos juntos, cada vez mais unidos, Deus abençoe nossa pátria querida."*

O discurso acaba. William Bonner e Renata Vasconcellos aparecem na tela, na escalada do Jornal Nacional.

"11 de março: um ano do decreto de pandemia global pelo coronavírus."
"No Brasil, mais de 268 mil vidas perdidas."

O ano dois da batalha começa.

*Todas as frases do texto foram escritas a partir da fala do presidente Jair Messias Bolsonaro ao longo do último ano

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL