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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Direito de envelhecer e imunizar

Odára Matias é voluntária em vacinação depois que avó morreu de covid, no RJ - Divulgação/Helga Pitta
Odára Matias é voluntária em vacinação depois que avó morreu de covid, no RJ Imagem: Divulgação/Helga Pitta
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

03/03/2021 04h00

Em fevereiro, a jornalista Flávia Oliveira trazia em sua coluna n'O Globo o perfil dos idosos vacinados contra a Covid-19. Na espera do imunizante, figuravam, em sua maioria, mulheres brancas.

Ao mesmo tempo, pululavam em minhas redes sociais fotos dos avós e avôs de amigos e colegas, e também de tantos outros que não conheço, indo às Unidades de Saúde Básica para aplicação da vacina. Sinto-me comovido, claro, pela realização de nossos amados, com a felicidade extrema de ter a chance de receber o único instrumento de prevenção contra o vírus inimigo. Mas penso que nem todos têm as mesmas condições e direitos. Ser velho em asfalto é diferente do que ser na periferia e demais rincões do país, sobretudo quando se é feita a leitura de gênero e raça. Beira a contagem nos dedos dos pés e das mãos aqueles que conseguem ter a fase da "melhor idade" com todos os cuidados e direitos que lhe cabem.

Quem chega, é como se tivesse passado por todos os desafios impostos pela vida. Um sobrevivente. Se não enfrentou em seu caminho uma bala, teve como obstáculo as questões trabalhistas que deterioram a saúde física e psicológica. Há ainda aqueles que são acometidos pelas duas dinâmicas, tornando-se ainda mais guerreiros na trajetória. E que ainda assim precisam, após tanto esforço, vender sua mão de obra a baixas condições financeiras para fazer uma grana a mais no fim do mês. Viver só com a aposentadoria não é tão simples ou bom quanto se imagina.

Em meio a tantas faltas, a escassez de doses da vacina faz o panorama ficar pior. Em um levantamento feito pelo Estadão a partir de dados do Ministério da Saúde disponibilizados pela plataforma Brasil indica que somente 48,8% dos brasileiros com 90 anos ou mais conseguiram receber a imunização até agora, mas que já tem o registro de ao menos 142 mil pessoas de grupos menos prioritários imunizadas, como 119,6 mil idosos com menos de 75 anos, grupo ainda não contemplado na fase atual da campanha, segundo diretrizes federais e estaduais. Não basta ter pouco, tem que furar fila, além de ser desigual.

Em fala para o Boletim Saúde - De Olho No Corona, o infectologista e titular da Fiocruz, José Cerbino Neto, chama atenção para o escalonamento de grupos, tidos como os que mais necessitam neste momento. ''A priorização já é uma contingência. O ideal seria não precisar priorizar,'', diz. Cerbino faz questão de ressaltar que o cenário se dá pela indisponibilidade de mais vacinas, o que diminuiria metade dos problemas vistos até aqui.

''São desafios que estão sendo colocados e fazem com que as decisões possam não ser 100% justas. Agora, precisamos ter em mente que cada vez que a gente ''sobe'' uma população, a gente "desce" outra. Se um grupo entra em prioridade, outro vai pro final da fila. Se conseguirmos manter os parâmetros do programa, vamos ser bem-sucedidos e vacinar a população de favelas e periferias com agilidade''.

É o que se espera. Afinal de contas, eles também têm direito de envelhecer e estarem imunes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL