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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando o lugar de fala é incapaz de falar algo que se aproveite

Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

10/02/2021 04h00

Na semana anterior, trouxe aqui em Ecoa a questão do erro para jovens negros e periféricos, sendo quase uma trajetória definida às pessoas que trazem essas características. O objeto de semelhança a mim era Lucas Prateado, ator, rapper e agora ex-BBB, que deixou o confinamento na manhã do último domingo (7) após sofrer uma série de retaliações por e simplesmente beijar um homem.

Com o espaço e respeito que me são dados, resolvi oferecer essa coluna para alguém que precisava compartilhar, comigo e com vocês, leitores, uma reflexão acerca do acontecimento. Com a palavra, hoje, Bruno de Castro*:

A gente olha pro semelhante em busca de abrigo. Já são tão pesados os olhares dos diferentes que, diante de alguém parecido comigo, meu desejo é de acolhimento. De abraço. Da compreensão. De algum tipo de amor. A gente quer se sentir seguro. Mas nem sempre quem está do outro lado tem essa disposição. Ou uma bagagem compatível com a empatia. Ou uma prática condizente com o discurso. Aí, em vez de me respeitar, essa pessoa me violenta. Da pior forma.

Esbraveja, dedo em riste, que não sou especial. Me manda calar a boca. Orquestra minha exclusão justo onde eu achava que teria mais chances de ser aceito. Questiona minha fé. Ameaça me agredir. Cancela meu sonho. Planta, no papo miúdo, sorrateiro, a dúvida sobre quem eu realmente sou. Quando, na verdade, já deveria estar no passado o tempo no qual precisamos justificar quem somos. Porque é agora, hoje, o dia em que devo ser quem eu desejo ser.

Se de nenhum homem branco heterossexual é exigida uma apresentação do tipo "Olá, sou Fiuk, branco e heterossexual", por qual razão exigimos de um homem negro bissexual que ele se coloque com "Olá, sou Lucas, negro e bissexual"? Por que ninguém questiona a veracidade de uma relação heteroafetiva e rotula de estratégia o beijo intenso de dois homens pretos? Onde estava a indignação quando indivíduos alcovitaram o enlace de um casal heteroafetivo branco? O que explica celebrarmos uma experiência e condenarmos a outra em rede nacional?

A base disso está em sermos induzidos desde cedo ao homem-e-mulher, à família tradicional, à felicidade como um direito exclusivo de quem obedece a um padrão, a esse padrão, que também tem cor. Seja você branco, hétero, cis, jovem, profissionalmente estável, cristão e sexualmente ativo, toda vivência afetiva é oferecida a você. O mundo se abre. Seja o contrário disso e o mundo vai te colocar contra a parede tal qual fizeram as participantes de um certo reality show contra um homem negro que se assumiu bi durante o programa. Três mulheres negras LGBTQIA+ acusando um semelhante por ele ter exercido o direito à sexualidade. Agiram como se ele tivesse cometido um crime. O crime de amar.

Justo o tipo de julgamento de que ele não precisava. Que nenhum bissexual precisa. Que nenhuma pessoa LGBTQIA+ precisa. Não vindo de um semelhante na raça. E uma raça que prega a união, o respeito às individualidades, a importância da coletividade, a reverência às lutas antepassadas e a projeção de um futuro. Um afrofuturo. Quem fez isso - esbravejou, mandou calar a boca, orquestrou, questionou, ameaçou, cancelou e semeou a dúvida - entendeu nada do que é negritude. Do que é diversidade. Ocupa um lugar de fala incapaz de falar algo que se aproveite. Algo condizente com o que diz representar (e não representa, é preciso frisar).

Nesse caso (e esse é bem específico), abriu-se uma porta, foi-se embora e resolveu-se um problema. Lucas solucionou, ele mesmo, a mais urgente e objetiva das questões: a de ficar exposto a ataques cada vez mais severos e covardes. Mas, no mundo real, a porta que se abre muitas vezes é a do suicídio. Um problema de saúde pública que a gente insiste em tratar na esfera da vida privada, do tabu, da frescura, da 'falta de Deus', da necessidade de aparecer e do 'mimimi'. E não é nada disso. Está longe de ser.

A opressão testemunhada por todos nós é similar à violência psicológica vivida por centenas de milhares de jovens negros LGBTQIA+ de periferia pelo Brasil todo dia. Garotos e garotas que tentam viver sua negritude e sexualidade na inteireza (ou mesmo só na parte), mas são impedidos pela bestialidade do outro. Pela limitação do outro de não enxergar nele/a alguém com o mesmo direito ao afeto. Na rua e dentro de casa.

Diante da pressão, da rejeição, das palavras duras, do despejo, da agressão física e de tantos outros absurdos, muitos enxergam na própria morte a única saída para se livrarem dessa dor que lhes causaram. Dessa rejeição. Mas ela, a morte, não precisa ser a única saída. Se você passa por isso, peça ajuda. Busque sua pessoa mais íntima, mais próxima e fale. Falar estrutura o pensamento. Molda a dor. Ajuda a atravessar o caminho.

Nós precisamos ser abrigo pro outro mesmo (ou principalmente) quando formos diferentes dele. Porque só ele sabe o tanto que dói a dor que só ele sente. Cada um é um universo. Se eu não sou o outro, não posso, dedo em riste, dizer que o outro é desimportante. Que direito eu tenho? Nenhum. O que há é uma obrigação moral de salvar quem precisa de ajuda. E isso a gente tem praticado cada vez menos. Na verdade, a gente quase sempre empurra o outro pra um buraco mais fundo.

Dá mais like bancar o lacrador, se valer de conceitos estratégicos, cuspir palavras-chave, disparar gatilho emocional para todo lado em rede nacional e reduzir a história do outro a pó, mesmo que isso custe o sonho dele. Ou a vida. A gente não pode normalizar isso. A gente não precisa ser Karol, Lumena, Pocah, Projota e Nego Di. Enquanto humanidade, a gente não sobrevive muito mais se continuar no papel de quem se arvora arauto da moralidade e está sempre disposto a julgar o outro sem fazer qualquer autocrítica ou fazer o mínimo. E o mínimo é estender a mão. Praticar o que prega, sabe?

Jovens negros LGBTQIA+ precisam de muita coisa. Oportunidade, principalmente. Mas se tem algo de que eles e elas não precisam é de alguém, seja quem for, com alguma semelhança (de pele, de gênero, de cidade...) lhes dizendo o tempo todo o quanto eles são errados, como não cabem em determinados espaços e que não são especiais. Isso, o lado de lá, o lado de quem é branco e cishetero, já faz. E faz com maestria. Há séculos. O que a gente precisa é inverter essa lógica. É urgente. Porque essa é uma lógica perversa. De aniquilação. E isso só vai acontecer quando tivermos, coletivamente, uma postura mais honesta diante de tudo e do outro.

*Bruno de Castro é jornalista, escritor, fundador do coletivo Ceará Criolo e pesquisador do Mestrado em Antropologia Unilab/UFC

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL