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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pedras no caminho contra o holocausto

Projeto ?Stolpersteine?, por Gunter Demnig - Alexandre Ribeiro
Projeto ?Stolpersteine?, por Gunter Demnig Imagem: Alexandre Ribeiro
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

17/09/2021 06h00

Você conhece a sensação de tropeçar em uma pedra? Consegue se lembrar da dor, da raiva, do incômodo? E se eu te dissesse que é possível reinventar esse tropeço? E se eu te fizesse um convite para remontar a história, você viria? Através da apresentação de um projeto artístico, Stolpersteine, nessa coluna #DaQuebradaProMundo eu te convido a tropeçar.

Infelizmente não é somente no poema de Drummond que havia uma pedra. Na época da Alemanha nazista, para cada vez que um soldado tropeçava no pedaço de rua protuberante, falava-se o ditado: "Um judeu deve ser enterrado aqui". Foi somente com o passar dos anos e com o arte-vismo (o ativismo através da arte) que essa narrativa foi reinventada de uma maneira inspiradora. O que no passado era o tropeço da morte se transformou no tropeço da vida, na arte de exaltar memórias.

Stolpersteine é um projeto desenvolvido pelo artista alemão Gunter Demig, feito para honrar as vítimas do holocausto.

Na frente da última moradia voluntária da pessoa em questão são retirados os paralelepípedos, o piso, ou mesmo pedaços de terra, e é colocada uma peça de arte na calçada — um cubo de concreto com a placa de bronze no topo. A gravura em cada pedra começa por "aqui viveu", seguida do nome da vítima, data de nascimento e o destino: internamento, suicídio, exílio ou, na maioria dos casos, deportação e homicídio.

A maioria das Stolpersteine homenageia os Judeus vítimas do Holocausto. Mesmo assim é importante lembrar que existem outras pedras que foram colocadas para homenagear todas a vítimas do holocausto. Os negros, a população Sinti e Romani, os homossexuais, as pessoas com deficiências físicas e mentais, Testemunhas de Jeová, membros do Partido Comunista, da Resistência Antinazista, a oposição cristã, ajudantes de fuga, acusados de traição, a desobediência militar e os soldados inimigos. Todos esses foram também homenageados por Gunter.

A poética do projeto mora na maneira sutil de remontar essa história. Uma pedra no caminho nos olhos dos nazistas era só um problema. O que eles não consideraram é que a língua se reinventa. Os sentidos do passado se tornam obsoletos. Com o passar do tempo, artistas como Gunter enxergaram que até mesmo as pedras que nos machucam no caminho podem ter uma beleza.

As Stolpersteine não são colocadas de forma proeminente na rua, na verdade é o contrário, elas estão no mesmo nível do chão e são feitas para serem descobertas por acaso, por aqueles que prestam atenção às belezas da vida, aos detalhes. O significado foi retomado, e atualmente Stolpersteine é um tropeço na história. Ao contrário dos memoriais centrais, que, segundo Gunter, podem ser facilmente evitados, as Stolpersteine representam uma invasão profunda na vida da cidade, na memória e na vida cotidiana.

O projeto que começou pequeno, em 1992, continua sendo realizado pelo artista nos dias de hoje e tem mais de 75.000 pedras espalhadas pelo mundo. Stolpersteine se tornou o maior memorial descentralizado da história. Todo santo dia que eu saio de casa me deparo com um "tropeço histórico". E agora, consciente, consigo encontrar mais e mais. A lição que fica para mim enquanto um brasileiro? É que os tropeços são necessários.

É preciso tropeçar na história todo santo dia.

Em memória a essa inacabável lista de nomes, de histórias, de Stolpersteine que são os corpos dos pretos e dos pobres neste mundo, as vítimas do vírus cruel da desigualdade.

É necessário dar de cara com dores, raivas e incômodos, sim. Tropeçar não é cair, mas é quase. E para não cairmos nós precisamos confrontar a injustiça. O escritor francês, André Gide disse uma vez que "Tudo que precisa ser dito já foi dito. Mas, já que ninguém estava ouvindo, é preciso dizer outra vez". E é por isso que quando eu voltar para minha quebrada vou puxar o bonde. Vamos fazer nossas "pedras de tropeço" com as nossas histórias. Tropeçar tanto na memória para que a gente nunca mais se esqueça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL