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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nascer pobre é uma benção

Livro é coisa de playboy? Alexandre Ribeiro na Favela da Torre - Lucas Sampaio
Livro é coisa de playboy? Alexandre Ribeiro na Favela da Torre Imagem: Lucas Sampaio
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

20/08/2021 06h00

Ao nascer herdamos muito além do que sobrenome, endereço e trejeitos. O nascer - juntamente do acaso das circunstâncias - é a corrente que determinará os seus acessos de vida ou morte. Onde e com quem você nasce é o que determina como será a sua educação, como se dará o seu acesso a água e, inevitavelmente, se você terá ou não acesso a cultura. E mesmo assim, mesmo que nascido no recanto das pobrezas materiais, eu acredito que o nascer pobre é uma benção. Fica comigo que nessa coluna #DaQuebradaProMundo vamos repensar os significados.

Qual efeito tem a pobreza na mente?

Fazemos parte de um mundo em transformação. Nem que seja para pior, mas em constante mudança. Por exemplo: na mesma potência que estão destruindo a biodiversidade e o meio ambiente do nosso planeta, jovens negros estão ocupando cada vez mais cadeiras nas universidades publicas do Brasil e do mundo, assim como esse jovem que escreve essa coluna é um moleque de favela estudando Literatura e Retórica em outro idioma, em um outro lado do planeta.

E foi na minha primeira semana de aulas que tive minha mente sacudida por uma autora branca e britânica - muito entendida sobre sensibilidade e o pensar no outro - Virginia Woolf. Em sua obra, Um Teto Todo Seu (A Room of One's Own), Virginia Woolf retrata o papel da mulher na ficção em uma análise áspera e factual. Ao realizar tal analise, Virginia explica aos leitores também muito sobre as intersecções das sociedades, onde caminhos de liberdades e opressões se encontram. Rebatendo pequenas interações diárias, dessas que não temos opção a não ser o confronte, potentes reflexões são disparadas pela autora em nossa direção.

E que efeito a pobreza tem sobre a mente, e que efeito a riqueza tem sobre a mente?/ And what effect poverty has on the mind, and what effect wealth has on the mind. [?]

Que efeito tem a pobreza sobre a opinião?"/ What effect has poverty on opinion

(Um Teto Todo Seu, Virginia Woolf, 64)

A pobreza na epistemologia

A capoeira que jogamos na academia requer sabedoria e astúcia, já que nosso ponto de partida nunca será apagado de nossa trajetória. Em um âmbito pessoal para poder ilustrar a história, estou realizando um curso acadêmico em inglês ao lado de jovens que cresceram em escolas bilíngues ou tem o inglês como idioma materno, enquanto eu só aprendi a falar inglês aos dezesseis anos de idade, limpando privadas em hotel de luxo de uma das ruas mais caras de São Paulo. Nós jogamos capoeira com regras que foram criadas contra nós, Virginia. Fazemos parte do povo que foi programado para vestir uniformes cinzas e desaparecer por trás de cargos de serviçais, esse é o nosso ponto de partida.

Ao pensar em uma devolutiva para o questionamento da autora eu precisei me voltar a trajetória de nós, esses jovens coloridos que adentraram as universidades graças as políticas de ação afirmativa. Desse lado somos aqueles que adentraram a USP, a UFABC, a UFRJ ou até mesmo o Bard College Berlin, somos sim. Somos aqueles diretamente afetados por cursos que não vão pegar leve na quantidade de trabalho a ser realizado fora da sala de aula. Somos destruídos por instituições que não conseguem compreender que seu pai já não é mais presente, e que por conta disso você precisa trabalhar e estudar, não pode levar a faculdade como a única prioridade da vida. Qual o efeito que a pobreza tem na mente, Virginia? Ela deterioriza a nossa capacidade de ser. A nossa capacidade de pensar.

O nascer pobre germina bênçãos. O nascer rico poda herdados.

"Mas Alexandre, você falou que nascer pobre é uma benção e até agora só está reclamando. Não estou te entendendo." Pera lá, querida leitora. As bênçãos nos apetecem em duas ocasiões:

Primeiro, a mesma faculdade que aplica inexplicáveis barreiras por minhas condições iniciais é aquela que está ciente dos erros cometidos no passado e atualmente concede bolsas de estudos, cotas de estudantes negros como políticas públicas de reparação aos erros do passado. É nossa responsabilidade espalhar o conhecimento a esses acessos e colocar mais dos nossos nesses espaços.

E em segundo, pelo simples fato de ter que lutar para sobreviver muitos de nós chegam nas universidades com bagagens que nenhum bacharelado ou doutorado será capaz de ensinar. São aprendizados de humanidades e interseccionalidade na pratica. Respeitar as crianças, as mulheres e os mais velhos. Trabalhar dez vezes mais para ser reconhecido igualmente. Ser brilhante no meio da mediocridade para poder ser notado. É esse tipo de padrão comportamental que podemos encontrar em jovens que crescerem em comunidades pobres, enquanto do outro lado da moeda, jovens herdeiros estão deparados com o desamparo e falta de rumo para as próprias vidas, já que sempre houve alguém que poderia se responsabilizar por ele. Ser pobre te prepara para lidar com o mundo real.

Como é que o brilho do pobre se define? É pela gambiarra? É pela superação, é pela lágrima? Como será que a pobreza afeta nossa mente para o bem, Virginia?

Eu prefiro definir o nascer pobre como um "nascer aberto as possibilidades de um mundo em construção". Um minimalismo e atenção aos pequenos detalhes de maneira forçada, já que não existem outras opções. Entretanto é da pobreza da falta de recursos que as ideias mais genuínas nascem. E nós somos essas ideias.

Nascer pobre, veja bem, não, morrer pobre.

Esse texto não é para exaltar a pobreza, mas na verdade um texto para dizer que eu quero que ela seja extinguida. E que aos poucos, todos nós as venceremos.

Por mais que seja um argumento contra os fatos e dos dados numerológicos - que apontam que sim, o lugar onde nascemos é o que determina até onde podemos chegar - eu continuo acreditando na ficção de que o lugar de onde nascemos não é o que determina o lugar onde nós vamos chegar.

Nascer pobre é a benção da adrenalina da sobrevivência pautando o ritmo dessa vida que chamamos de dança. Mas veja bem, a graça, a benção de se nascer pobre é que te foi entregue um desafio a ser ultrapassado: a pobreza.

E que nesse aspecto cada um de nós possua a liberdade para atribuir a riqueza onde quiser. Seja a de espírito, a de consciência, a de amor ao próximo, ou até a mesmo a material. O importante é entender que nos foi entregue o desafio chamado de vida, esse desafio que nos norteia e nos dá passos práticos a serem seguidos, no lugar de vazio e confusão. Tão simples quanto acordar e bater o ponto, a benção escondida através da pobreza é: faz seu corre para fazer o seu jogo virar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL