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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Catadora de latinha ganha três salários mínimos na Alemanha

Rosangela da Silva Marinho, catadora de lixo. Ela é mãe de Thompson Vitor, 15, estudante que passou em 1º lugar no IFRN (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte)  - Arquivo Pessoal
Rosangela da Silva Marinho, catadora de lixo. Ela é mãe de Thompson Vitor, 15, estudante que passou em 1º lugar no IFRN (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte) Imagem: Arquivo Pessoal
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

13/08/2021 06h00

Você já catou latinha? Tirou ela daquele saco de lixo preto - às vezes ainda molhado com o líquido das bebidas - deu uma leve chacoalhada, colocou-a com carinho no chão para depois pisoteá-la com todo o ódio às desigualdades que habitam em seu corpo? Você já catou latinha? Eu já.

Na minha infância catei latinha com a minha avó, catei tampinha de promoção do refrigerante vermelho com mamãe e, hoje em dia, de um outro lado do planeta, cato latinha recebendo em euro. Na coluna #DaQuebradaProMundo desta sexta-feira quero te explicar as diferenças entre ser catador no Brasil e na Alemanha.

Por que as pessoas catam latinha?

Porque dá dinheiro. Não muito, mas dá dinheiro. Assim como para a minha avó, essa ocupação aparece na vida de muitas pessoas através da necessidade. A minha vó nunca foi catadora de latinha por opção, ela se tornou especialista e fez carreira com o tempo, precisou estudar o assunto. No caso dela, depois de uma vida inteira trabalhando no setor da limpeza, se aposentou e não recebia o suficiente. Daí veio a ideia de coletar as latinhas e vender para o ferro velho.

Segundo pesquisa realizada pelo site Mercado Mineiro, o quilo da latinha de alumínio vazia pode variar de R$ 3,50 até R$ 7, a depender do ferro velho.

Não é curso de faculdade, é saber popular, é griot.

Aqui da Alemanha, o que vejo atualmente é que catadores de latinha saem de casa preparados, com luvas espessas e boas sacolas para evitar cortes. Já do lado da minha avó, ela me ensinou a dar duas bicudinhas em cada saco de lixo encontrado. Assim, antes de abrir a gente podia ouvir o barulho das coisas e se tivesse vidro a atenção era dobrada. Minha avó também me ensinou a tomar muito cuidado com as pontas de alumínio protuberantes, pois aquelas cortavam profundo e segundo ela, "poderiam me matar". E o mote principal de cada dia: "cabeça erguida e sorriso no rosto meu fí. Se você não fizer por você, ninguém vai"

Os catadores de latinha na Alemanha e o sistema Pfand

Ao morar na Alemanha não demorei para descobrir que os catadores de latinha existem e resistem por aqui também. Com outras condições, é claro, entretanto na mesma luta. Uma das principais diferenças é um sistema chamado de "Pfand".

Em uma tradução livre, o Pfand é um "depósito". Seja ele garrafas, latas ou até mesmo caixas de cerveja. É um sistema que faz com que a todo momento que um cliente compre uma latinha (ou qualquer produto com o selo "Pfand") ele é obrigado a pagar uma taxa de depósito pelo recipiente que comprou. Sendo assim, as pessoas são incentivadas a devolver o recipiente vazio, já que pagaram um depósito por ele. E como efeito colateral o sistema apoia a reutilização, a conserva de recursos, a economia de energia e a redução na poluição.

2 - Reprodução - Reprodução
Valor de cada item devolvido / Fonte: https://www.mehrweg.org/einkaufen/pfand/
Imagem: Reprodução

Quanto se ganha catando latinha no Brasil e na Alemanha

Na época que a minha vó ainda brilhava nesse plano, sozinha ou conosco, ela conseguia vender o quilo da latinha de alumínio por aproximadamente R$ 3,50.

Para fazer uma comparação justa com a trajetória da minha heroína, vamos considerar o seguinte: ela - ou qualquer outra catadora - manteria o ritmo de 100 latinhas por dia, 5 dias por semana e receberia 1 pagamento por mês.

Seguindo esse ritmo de trabalho, sendo paga por quilos - o que equivalem à aproximadamente 70 latinhas (14,5 g por latinha) - com o total de 2000 latinhas por mês a minha avó receberia o equivalente a R$ 98,00.

Do outro lado da moeda, se a minha vózinha seguisse o ritmo brasileiro aqui na Alemanha, somente coletando essas latinhas de alumínio que valem 0,25 Euro, no final do mês ela receberia o total de ?500, que na cotação atual equivalem a R$ 3.078,60.

É sobre politicas públicas de responsabilidade social e ecológica

Assim como tantos e tantas no nosso Brasil, as catadoras são aquelas trabalhadoras responsáveis em ordenar os absurdos de um consumismo desenfreado. Os catadores são os artistas da organização das nossas cidades, bairros e centros e sem elas e eles, a gente não seria capaz de seguir à caminhar.

Minha avó receberia muito mais na Alemanha, de fato. Mas não por conta de aqui ser um "país mais rico", mas sim pelo fato de aqui existir uma política pública que responsabiliza aqueles que consomem. E para antes de cometerem esses atos, que as pessoas repensem um pouco. "Será que eu preciso de mais uma garrafa d?água?". "Essa garrafa tem Pfand, e eu não preciso do valor. Vou deixa-la visivelmente ao lado da lixeira para que alguém possa desse valor utilizar".

É sobre incentivar e nos lembrar que fazemos parte de um eco sistema, onde está tudo interconectado e a gente depende um do outro. É sobre entender o seu lugar no mundo, e se você não quiser fazer parte, que aqueles que assumiram as responsabilidades sejam devidamente reconhecidos. É sobre combater desigualdades de mãos dadas na luta pela justiça. É por nossas crianças e nossas avós.

1 - Acervo pessoal - Acervo pessoal
O colunista do UOL Alexandre Ribeiro e sua avó
Imagem: Acervo pessoal

Esse é um texto em memória de Marta da Silva, descanse em paz minha vózinha. Continuaremos catando latinhas e boas palavras por aqui. A reciclagem é constante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL