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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para aqueles que se foram por aqueles que aqui ficam

Pornchai Kittiwongsakul/AFP
Imagem: Pornchai Kittiwongsakul/AFP
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

30/07/2021 06h00

01/02/2021. Anterior ao meu embarque para a Alemanha por conta da bolsa de estudos, passei catorze dias na minha quebrada, a Favela da Torre. Foi por lá - no meio da depressão corrosiva da pandemia - que ouvi uma criança dizer para a outra, "você está racista" e não necessariamente "você é racista". Foi por lá também que ouvi o pensamento inspirador do meu irmão, o Lucas, que me despertou esse texto.

"Antes eu falava que infelizmente perdi meu pai aos 13 anos. Mas eu resolvi mudar. Comecei a dizer: "sou grato pelos 13 anos que vivemos juntos". Sem esquecer do quanto é triste não ter ele aqui comigo, mas sim não deixando que a tristeza seja maior do que meus outros sentimentos. Vivi 13 anos de felicidades também."

Quinhentas mil rosas atiradas no oceano
-- e no desfazer das pétalas --
pensou-se natural que a vida se perca.


Quinhentas mil rosas atiradas no oceano
-- e no entrelace dos espinhos --
mostrou-se anormal que a vida se esqueça.

Foi no dia 19/06/2021 que quinhentas mil rosas foram atiradas no oceano. Foi no dia 23/07/2009 que se marcou a ida de meu pai. Foi no dia 11/07/2020 que minha querida avó partiu.

"E daí?", tem quem diga [...] "São somente dias, só datas, são números".

No mar da insensibilidade a narrativa é controlada por admiradores de máquinas. Mas já no mar que habita rosas, esses números deixam de ser fatos concretos e se tornam sensibilidades, humanidades, trajetos. Antes de serem datas, são dias. Antes de serem dias, são símbolos. Antes de serem símbolos, são vidas, histórias. Histórias.

É pela lembrança - pelo valor da vida - que minhas palavras desta sexta-feira são uma homenagem aos nossos corpos.

É pela lembrança de Zé Paulo, o pedreiro, vizinho e marido da Cida, que se foi devido às complicações da covid-19. É pela lembrança do Pompê, o melhor jogador de CS da quebrada que se foi devido às complicações da covid-19. É pela lembrança da Gisele Carriel, o sorriso mais lindo da família Vieira que se foi devido às complicações da covid-19.

É pela lembrança de Antenor Gomes Barros Filho, de Marta da Silva, e de tantos, tantos outros familiares nossos que hoje nadam no oceano de rosas. "O luto é o pedágio a se pagar por uma vida vivida cheia de amor". E é por vocês que pagamos com o sofrer, sem esquecer a pureza de um sorriso que reverencia a gratidão.

As palavras do meu irmão Lucas me lembraram a dicotomia da vida. Me lembraram que o mesmo símbolo pode ter facetas e interpretações diferentes, e é por isso que devemos seguir, que devemos caminhar para observar a vida de outra maneira.

O mesmo mês de julho que abrigou morte e mau presságio para minha e para tantas famílias, é também o mês que abriga o dia da independência da Bahia, dia de meu aniversário. E foi no dia dezesseis do sete, que meu melhor amigo, esse dos ensinamentos, fez aniversário. É para aqueles que se foram por aqueles que aqui ficam que é necessário resistir.

E é pela vida do Lucas, é pela minha vida. É por nossa geração que tantos avós, pais e crianças lutaram. Lutaram para que nós fizéssemos parte da geração que hoje é pela primeira vez a maioria preta e parda nas universidades públicas brasileiras. A geração que não aceita as barbaridades feitas nas políticas públicas. A geração que entende que quinhentas mil rosas atiradas no oceano não serão somente atiradas. Serão lembradas, celebradas e principalmente reparadas.

Não para minimizar o impacto de uma vida que se vai, mas também para relembrar o impacto daquela vida que fica. E que no final das contas —até durante a morte — é ela, a vida que se reinventa, a que vence.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL