PUBLICIDADE
Topo

#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O idioma humano é o pertencimento

Casal conversando por Libras - Jovanmandic/Getty Images/iStockphoto
Casal conversando por Libras Imagem: Jovanmandic/Getty Images/iStockphoto
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

09/07/2021 06h00

No último final semana eu tive folga do trabalho para comemorar o meu aniversário de 23 anos. O presente, de fato, recebi no dia seguinte à comemoração: foi na fila do mercado que senti o poder da poesia da língua de sinais. Nessa coluna #DaQuebradaProMundo quero partilhar com vocês como pertencer é o brilho de ser quem somos.

O meu aniversário se deu na última sexta, e foi no sábado ensolarado que encontrei com um desconhecido no mercado enquanto fazia compras. De longe, eu havia visto que ele carregava em sua cabeça um implante coclear - um implante para que pessoas surdas possam escutar através de um processador de fala externo. E sem demora, a gente se esbarrou no corredor e conversamos durante poucos segundos.

A poesia é o primeiro passo da língua de sinais. Por ser um dos gestos mais repetidos durante a vida, você não precisa soletrar o nome de uma pessoa para se referir a ela, essa pessoa pode simplesmente criar um gesto que represente o nome dela da melhor forma. Sendo assim, para começar nossa conversa eu gesticulei o sinal para dizer o meu nome - que é quando replico os caracóis dos meus cachos com a ponta dos dedos. E perguntei o nome dele. Que gesticulou um arco acima dos seus olhos.

Naquele momento, imaginei que o nome dele era arco-íris. Por brilhar em frente à minha existência, e por ter a coragem de nascer e morrer sendo uma ponte entre ares.

Logo em seguida partimos para uma conversa mais básica, essa que todos fazemos quando não temos o que dizer em uma fila, em um corredor de mercado. A pergunta me foi direcionada com o gesto: Está comprando o quê? E do meu lado, genuinamente feliz em saber a resposta, fiz o sinal referente à galinha: dois dedos em frente ao meu nariz, que em um movimento de pinça simulam o bico de uma galinha que se abre e fecha. Prontamente ele me disse que foi um prazer me conhecer e então o arco-íris se esvaiu.

Você conhece Libras?

O que eu no meu lado irrealístico e lúdico senti como poesia, na verdade tem um nome e é um sistema preciso e inclusivo. Deutsche Gebärdensprache (DGS), a Língua Alemã de Sinais. Que em nosso país é a Libras (Língua Brasileira de Sinais) um dos - assim como os idiomas dos povos nativos deveria ser reconhecido - idioma oficial do nosso Brasil.

Surdo ou deficiente auditivo?

O meu amigo arco-íris é surdo, pois surdo é aquele que tem perda auditiva profunda e se identifica com o mundo através do visual, com a língua alemã de sinais, ou a brasileira ou a que seja. O deficiente auditivo, entretanto, é aquele que foi perdendo a sua audição gradualmente, mas ainda se identifica com o idioma oral.

Incluir é propagar o pertencimento

Ao finalizar aquela pequena e mundana conversa, cruzei a esquina e senti um arrepio interno que partiu do coração. "É assim que eles se sentem: absolutamente normais e efêmeros. A diferença é a poesia que cada um carrega na própria palavra." Esse foi o aviso sincero que meu peito - que vem aprendendo a língua de sinais durante esse ano todo - me enviou e me pediu para transcrever em forma de coluna. E não podemos parar só nas palavras.

Segundo o IBGE são mais de 10 milhões de surdos e deficientes auditivos aqui no nosso país. A probabilidade de você encontrar, trabalhar ou viver com um surdo hoje é muito grande, e por que não aprender a Libras? Não só para conversar, mas também para viver e experienciar novas formas de arte, de poesia. Assim como esses versos do poeta surdo de nascença, Edinho Santos:

Onde aprender a Libras de graça

No perfil dos queridos amigos Gesiel e Kérima

Curso de Libras - USP STOA

A plataforma de cursos de apoio da USP está oferecendo curso de Libras gratuito e online pra quem quiser aprender. Você pode conhecer mais sobre o curso aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL