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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lebensmittelverschwendung - o complexo alemão que a favela pode curar

Recipiente de lixo com frutas e legumes  - Wikipedia
Recipiente de lixo com frutas e legumes Imagem: Wikipedia
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

25/06/2021 06h00

Será que você consegue ler a palavra inicial do título deste texto? Mesmo que esteja chegando no nível avançado do idioma, ainda tenho diversos problemas com a pronunciação desses "palavrões". Contudo, pronunciação e gramática ficam em segundo plano quando a questão é uma visão afiada para os desafios à nossa frente. No meio da imponente palavra Lebensmittelverschwendung, um jovem de favela vivendo na Alemanha encontrou um gigantesco problema social, e nessa coluna #DaQuebradaProMundo eu te convido para que, juntos, a gente possa repensar.

A língua alemã tem um costume de juntar palavras para agrupar o sentido de todas elas. Por conta disso, te explico aqui o significado de cada uma que constitui o tema do texto. Leben, significa vida. Mittel, significa meio. As duas palavras juntas se transformam em Lebensmittel, que é a palavra alemã para o meio de vida, o alimento. E a palavra final, essa que completa a amálgama das ideias é a feminina, die Verschwendung, que em português significa o desperdício.

Lebensmittelverschwendung = O desperdício dos alimentos

O choque está presente comigo até hoje. Foi a minha primeira semana como voluntário na escola primária na cidade de Osnabrück, aqui na Alemanha, que eu vivenciei essa cena:

A comida preparada por uma empresa externa havia sido entregue na porta da nossa classe e todos os alunos foram se servir com pratos cheios de peixe e macarrão. Entretanto, antes mesmo de sequer realizar completamente a primeira mordida no peixe empanado, alguns dos alunos emanaram em uníssono um "ehhh" (o que é o equivalente em alemão para um som de repulsa, de nojo) e automaticamente - completamente naturalizados - se levantaram e despejaram TODO o alimento do prato no lixo. Sem piedade. Sem remorso. Sem culpa. No lixo.

Ao ver aquela cena - que infelizmente se repete diariamente nesses quase dois anos trabalhando como educador - esse choque cultural me bateu forte e me machucou. Lembrei das histórias da infância de minha mãe, que teve que abandonar a dignidade e furtar alimentos do supermercado para literalmente não morrer de fome. Lembrei daquele fatídico dia, em uma noite fria do mês de julho depois do falecimento do meu pai, onde um único miojo foi o que dividimos em três para termos o que comer.

A pergunta ecoou no meu peito e segue batucando forte: como é que possível ensinar o valor do alimento para quem nunca teve que se preocupar se ia ter o que comer?

Em 15 de março de 2021 a pedido do Ministério alemão da Alimentação e Agricultura (BMEL) foi divulgada uma pesquisa que cada lar alemão joga fora em média 75 quilos de comida por ano. Do outro lado do planeta, segundo pesquisa da FGV cada lar brasileiro desperdiça 128 quilos de comida por ano. E com esses dados em mente, eu te convido à uma reflexão: de que lares esse alimento vem sendo desperdiçado?

Ao olhar esses números e vivenciar o desperdício diário desse lado do globo, eu me lembro da tradição sagrada da minha família: só pode deixar a mesa se tiver comido tudo. A ponto mesmo de se precisar, ter até que lamber o prato.

E quando questiono essa realidade entre os meus, o povo das favelas e das quebradas desse Brasil, vejo que isso é uma prática comum entre nós. Nosso modo natural é ser grato e não desperdiçar o alimento, porque somos nós essas famílias que realmente conhecem as dores no estômago por não ter o que comer.

A fome bate de novo no nosso povo.

É necessário repensar as nossas atitudes, inclusive no prato. O Brasil tem 19 milhões de pessoas passando fome em meio à pandemia, enquanto o sistema em que vivemos nos incentiva a um consumo insustentável e desumano. Será que a gente precisa de tudo isso mesmo? E, se não, o que a gente pode fazer?

"Se tem gente com fome, dá de comer" disse o poeta Solano Trindade e é exatamente isso que nós, conscientes dos nossos privilégios atuais, e combatentes contra a desigualdade violenta que mata o nosso povo, devemos fazer nesse momento. Dar de comer.

Movimentos como a Coalizão Negra Por Direitos, em parceria com a Anistia Internacional, Oxfam Brasil, entre outros, uniram suas forças para lançar uma campanha de financiamento coletivo. Os fundos arrecadados serão usados para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia de covid-19.

Se você quiser conhecer a iniciativa, acesse https://www.temgentecomfome.com.br e doe você também!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL