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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Black Nod": quando o encontro vira revolução

Black Nod - iStock
Black Nod Imagem: iStock
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

21/05/2021 06h00

A experiência de ser um moleque cria de favela andando pelas ruas frias da Alemanha vem sendo diariamente transformada. O motivo? Na maioria das vezes que encontro com uma pessoa preta caminhando pelas ruas, a gente se cumprimenta com um leve aceno de cabeça e um olhar carregado de afeto. Uma rápida, mas íntima declaração de solidariedade diária. Instigado, resolvi procurar entender os porquês desses encontros e me deparei com o termo "black nod". Nessa coluna #DaQuebradaProMundo quero te apresentar uma revolução silenciosa.

O salve preto

O que é o "black nod"? Na minha tradução e adaptação para o pretoguês significa algo como "salve preto". "Nod", a palavra do idioma inglês, significa um leve aceno com a cabeça em forma de cumprimento. Também conhecido como o "salve" na quebrada, sabe? Pode ser o famoso e universal "ôôô", que é passado de geração em geração, ou que seja mesmo o icônico som "auê", difundido pelo ex-jogador Dinei.

O "black nod" faz parte da cultura global, e somente vivendo longe da minha favela foi que eu descobri o peso desse "salve". Um simples olhar que carrega uma cultura de pertencimento e acolhimento para os oprimidos do mundo todo.

Para uma pessoa oprimida - seja por gênero, classe ou raça - existem áreas de poder na sociedade (e às vezes até países inteiros) onde por conta das estruturas de opressão sistemáticas nunca se esperava que um de nós chegasse. Dentro deste contexto, uma pessoa oprimida que transita dentro de qualquer desses mundos é muitas vezes vista como um "vencedor". O "salve preto" é uma maneira sutil e precisa de dizer "se liga, eu realmente não esperava ver outro de nós por aqui, mas só de te ver sinto que nossa correria está indo bem". "Desejo poder e amor para você. Axé".

"Black Nod" ou "salve preto", na cultura de quebrada dos Estados Unidos

O encontro que vira revolução

As experiências de corpos pretos no mundo são atravessadas por um mal que não conhece barreiras: o racismo. Entretanto, o "black nod" vem para subverter essa lógica que nos faz tanto sofrer e se apresenta como um encontro de irmandade. Na busca de entender outras perceptivas sobre o "salve preto", conversei com alguns amigos e fiz a seguinte questão: "Na sua experiência de andar na rua como uma pessoa negra, você vivenciou o "Black Nod"? Se, sim, qual foi sua sensação depois que aconteceu?"

1 - Alexandre Ribeiro - Alexandre Ribeiro
Adeola Ogundotun
Imagem: Alexandre Ribeiro

Para Adeola Ogundotun, um grande amigo e escritor nigeriano: "Sim, eu já experimentei isso várias vezes. Eu não diria que é estranho porque vem de um desconhecido, que por acaso é um homem negro. Mas é uma sensação bastante comunitária, e isso transmite essa sensação de fraternidade que a gente sente na pele. Contudo, acenar com a cabeça para uma pessoa conhecida ou desconhecida não é incomum na África. É bastante normal esta conotação de irmandade. Aqui a diferença apenas é numérica de preto e branco."

Ser negro na Alemanha

Embora não haja registros oficiais, a estimativa está entre 500.000 e 1.000.000 de pessoas negras de uma população de mais de 80 milhões de pessoas. Há uma grande comunidade turca, e não faltavam os europeus brancos; mas, neste suposto caldeirão de culturas, as pessoas com famílias de origem africana são minoria.

O "salve preto" é machista?

Conversando com a minha companheira, Jessica Küttner, - que tem o tom de pele igual ao meu, mas não tem os cabelos tão crespos assim - ela me disse sentir que o "salve preto" tem origens patriarcais, pois é uma questão muito mais presente de homens para homens. Na busca ouvir outro ponto de vista feminino, conversei com uma amiga alemã negra, a Jacqueline, que me disse o seguinte:

2 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Jacqueline Dick
Imagem: Arquivo Pessoal

"Minha experiência aqui na Alemanha é que muitas pessoas negras 'dão um salve' para você mesmo que você não os conheça. Nos últimos anos, notei que isto se tornou cada vez menor. No exterior também noto muito menos. Na verdade, meu sentimento [em relação ao "salve"] sempre foi muito bom, mesmo que sem pensar muito sobre. Outras vezes me perguntei: "será que nós nos conhecemos? Por que você está me cumprimentando?". Acho que depende sempre de como uma pessoa acena com a cabeça ou cumprimenta você"

O "black nod" no recorte do colorismo.

Quando a Jacqueline trouxe essa dependência de como a pessoa te cumprimenta, me lembrou também das minhas inseguranças com o tema se relacionado ao colorismo - a ideia de que de pretos e pardos fazem parte do grupo "negro" nos censos e políticas públicas brasileiras, entretanto são tratados diferentemente com base na tonalidade de sua pele. Se no Brasil você é branco demais para ser preto, como vão te reconhecer como negro no exterior?

Pessoalmente, aprendi com traumas do passado o peso que foi cultivar a minha negritude. Depois de poucos meses que deixei meu cabelo crespo crescer foi o momento que eu tive as piores experiências com abordagens policiais na minha vida. Entretanto, eu nunca me senti seguro em me descrever como um homem negro brasileiro, mesmo que fosse somente como um homem "negro de pele clara". Mas essa narrativa vem se alterando depois de experiências no exterior.

Talvez porque do outro lado do planeta exista a consciência de que a miscigenação não ocorreu de maneira pacífica. Possivelmente porque desse lado a representatividade seja tão baixa que os moradores precisem exaltar cada miudeza. Ou quem sabe, porque por aqui o "eu" seja um outro "eu". No meio dos meus achismos não consigo explicar o porquê, mas aqui, mesmo no desconforto de uma cabeça colonizada pelo ser "pardo", pelo embranquecimento, sinto que sou lido como preto.

3 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Marco Gomes
Imagem: Arquivo Pessoal

Buscando saber se não andamos sozinhos nessa, resolvi trocar uma ideia com um irmão de outra quebrada brasileira, o Marco Gomes, do Gama (DF). "Na sua experiência de andar na rua como uma pessoa negra, você vivenciou o "Black Nod"? Com uma vivência muito similar, Marco Gomes respondeu o seguinte.

"Acontecia, sim, bastante. Eu diria que no período em que eu morei em Nova York, acontecia umas duas, três vezes por semana pelo menos. E por não conhecer o termo "black nod" eu chamava de camaradagem. Acontecia comigo principalmente no contexto de pessoas pretas e pessoas latinas, porque no contexto nova-iorquino é bastante parecido socialmente. Então é meio que uma comunidade só, bipartida, mas é bastante integrado, e, aí, isso acontecia bastante esse "black nod", esse "latino nod". Principalmente quando estamos cruzando a rua, na porta de metrô, ou nas questões de serviço, quando vamos atender ou ser atendido por alguém. Ou só mesmo de passar, de estar nesse ambiente mais elitizado, você passa e dá esse "nod" (salve), para a pessoa. Sei lá, numa filarmônica por exemplo, em um restaurante mais caro, acontecia bastante sim."

"Qual foi sua sensação depois do acontecido?". E Marco seguiu:

"No começo até me espantava, eu diria. Não me assustava, longe disso. É acolhedor, mas me espantava. Eu falava "nossa, olha só, eu sou parte de alguma coisa, sabe? É uma coisa que eu não sentia no Brasil. Agora a gente consegue estar criando isso entre nós, né? A nossa geração vem construindo isso em cima do que tanta gente vem fazendo, mas eu não sentia isso no Brasil. E, aí, lá quando eu cheguei em Nova York eu me senti realmente parte de alguma coisa. [...] Foi uma das coisas mais acolhedoras, me fez sentir parte e me fez me sentir empoderado, querer agir em coletivo."

Os encontros, de fato, revolucionários

Na lógica racista que aprisiona e limita os nossos corpos, deu para sentir que encontrar com um igual e se sentir inspirado é uma pequena revolução diária. E quando dizemos que o ato de caminhar é também uma transformação social é exatamente por conta disso: os nossos passos, as transições entre o "hood" (a quebrada) e os lugares elitizados, são o que nos colocam em evidência nos debates sociais, culturais, educacionais e financeiros.

Mesmo que muitas vezes agridoce, refletindo o quanto os negros ainda têm que ir longe para se sentirem em casa, o "black nod", o "salve preto", traz essa noção de que o nosso povo está articulado e não estamos à mercê de favores.

Como disse o poeta, "Cerre os punhos, sorria. E jamais volte para sua quebrada de mão e mente vazia". É com um exército de "nóiz" que mudamos o mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL