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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Água da torneira é um privilégio de poucos

Refugiado carrega água - R.S. Hussain
Refugiado carrega água Imagem: R.S. Hussain
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

30/04/2021 06h00

Uma cena tão cotidiana quanto trágica: jogando golzinho na viela de pedra a gente arrancava o tampão do dedo vez ou outra. O sangue jorrava, mas a lágrima não caía. Enquanto a água da mangueira limpava o pé eu me perguntava: como pode um dedo tão pequeno evidenciar força e fraqueza esse tempo todo?

A água que limpava também trazia a lembrança da insaciável sede. E somente com o pequeno movimento de tentar trazer água da torneira para perto da boca todas as vozes da viela de pedra gritavam em uníssono: NÃO!!!

O tempo passou e aqui estou bebendo água da torneira todo dia. Mas por que eu só me permiti beber água da torneira do outro lado do planeta? Esse "não" ecoou uma vida toda, e, aqui na Alemanha, - onde moro por conta de uma bolsa de estudos - me atualizei e me pergunto o seguinte: como pode uma torneira tão pequena evidenciar força e fraqueza esse tempo todo?

O "não" que saía da boca da minha mãe e dos vizinhos até que fazia sentido. Aquele "não" foi pautado na estranha água que chegava em nossas casas na periferia da cidade de Diadema, em São Paulo. Segundo dados do Ministério da Saúde mais de 1.300 cidades encontraram resíduos de agrotóxicos na água que sai das torneiras em medições feitas entre 2014 e 2017.

Muitas vezes não tínhamos água pelo simples fato de o abastecimento ser "aleatoriamente" cortado. Entretanto, quando tínhamos água, lembro-me muitas vezes de abrir a torneira e encontrar com uma água preta bem escura, outras vezes uma água com uma cor marrom, e raramente, uma água incolor. Mas afinal, a água de torneira faz mal à saúde?

Sim e não. Em tese, por conta dos investimentos realizados no tratamento, a água que sai da torneira é potável e não faz mal à saúde. O que faz mal é a maneira de armazenamento e o encanamento utilizado para a água chegar em nossas casas.

A contaminação pode ocorrer por causa de caixas d'água sujas ou por sistemas de encanamento antigos que liberam partículas de ferro na água pela falta de manutenção. Por isso é fundamental que seja feita uma limpeza periódica na caixa d’água e nos canos para eliminar qualquer risco de contaminação. Contudo se a água que sai na sua torneira estiver incolor (um pouquinho branca ainda é aceitável), inodora e insípida, você pode bebê-la sem preocupações.

Talvez por carregar comigo um trauma de infância, que eu demorei para me acostumar com a ideia de beber água de torneira aqui na Alemanha. E por que eu poderia beber água da torneira sem problemas desse outro lado do planeta?

Existem diversos fatores para que essa realidade seja construída. Na Alemanha a Agência Federal de Proteção ao Consumidor e Segurança Alimentar (BVL) garante que água da torneira é limpa e segura para consumo. Eles também impõem que proprietários de imóveis sejam obrigados por lei a cuidar da higiene da tubulação.

Um outro fator que ajuda para uma água mais pura é que não são utilizadas caixas d’água na Alemanha, evitando a contaminação antes da chegada às casas. E, por último, segundo a pesquisadora Larissa Bombardi em entrevista para a Agência Pública, o fator principal se dá na regulamentação da concentração de poluentes na água da União Européia.

"Isso é um escândalo de saúde pública. Nós colocamos o limite alto, lá na estratosfera, e aí comemoramos que temos uma água segura", questiona a professora de geografia na Universidade de São Paulo e autora de um atlas que compara a lei brasileira e europeia no controle dos agrotóxicos.

O estudo de Larissa revela como nossos limites chegam a ser cinco mil vezes mais altos que os europeus. "O caso mais grave é o do glifosato: enquanto na Europa é permitido apenas 0,1 microgramas por litro na água, aqui no Brasil a legislação permite até 500 microgramas por litro."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL