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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Periferia é periferia em qualquer lugar

Quebrada alemã demolida  - Divulgação/Presseportal
Quebrada alemã demolida
Imagem: Divulgação/Presseportal
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

23/04/2021 06h00

Você já ouviu falar das quebradas alemãs? Será que esses lugares podem ser considerados "favelas" na concepção brasileira da palavra? Na coluna #DaQuebradaProMundo desta sexta-feira te convido para dar um pião pelas quebradas do mundo comigo.

As quebradas estão mais quebradas do que nunca
e precisamos estar inteiros para consertá-las

Sérgio Vaz

Recentemente eu tive que mudar de casa aqui na Alemanha. Saí de um apartamento na região central (que era pago pela antiga bolsa de trabalho voluntário) e precisei buscar um local mais barato, em uma região periférica da cidade de Osnabrück. No primeiro final de semana no novo bairro, fui dar uma volta no parque e fui abraçado pela saudosa sensação de me sentir em casa de novo. O motivo? Agora estou morando em uma região "sozialer Brennpunkt".

Em uma explicação simples, um "Sozialer Brennpunk" ou, em tradução livre, um "ponto social queimado", é a maneira utilizada para descrever uma "quebrada"; um "gueto". Segundo a definição da Associação Alemã de Cidades e Vilas (Deutscher Städtetag), são "áreas residenciais em que os fatores de impacto negativo nas condições de vida dos seus habitantes e, em particular, nas oportunidades de desenvolvimento das crianças e adolescentes são mais comuns".

A imagem que passa na minha cabeça ao pensar em uma "favela alemã" é uma COHAB da Zona Leste de São Paulo. Porém nesse caso são habitações para a população imigrante e, consequentemente, malvistos pela sociedade conservadora alemã. Infelizmente, essas são áreas em que os índices de pobreza, criminalidade e desemprego são muito acima da média. Alguns apartamentos são abrigo para uma família de dez pessoas, outros são pontos de tráfico e por aí vai.

No mundo todo as quebradas são a expressão pulsante das desigualdades sociais. Entretanto a história das favelas brasileiras é bastante complexa, atravessada não somente por movimentos de migração e refúgio, como no caso alemão, mas também pelos ecos da escravidão. Mas será que esse lugar onde vivo agora, um "Brennpunkt", pode ser considerado uma quebrada, assim como o lugar onde cresci, Favela da Torre em Diadema? A resposta é ambivalente.

O idioma mais falado do mundo já foi o sorriso, hoje em dia é o dinheiro.

De um lado sim. Não somente pela impressão de que o capitalismo faz tudo parecer igual, mas também porque como um fenômeno global as favelas e os Brennpunkte são subprodutos da industrialização nas grandes cidades. De outro lado, não: a quebrada alemã não pode ser comparada com uma favela brasileira. Por mais que existam desigualdades na sociedade alemã, os moradores desses lugares, diferentemente dos moradores das quebradas do Brasil, continuam tendo pleno acesso a um desenvolvido sistema social, educacional e econômico de país europeu.

"Mas só pra te lembrar: periferia é periferia em qualquer lugar"

A marcante frase do mestre de cerimônias GOG sintetiza precisamente a reflexão que eu gostaria de provocar com esse texto. O que faz de um lugar uma periferia? O que faz de um lugar centro? São as distâncias? As barreiras? As presenças, as faltas?

O que senti no primeiro final de semana no novo bairro foi uma lembrança da minha infância, da minha quebrada. Foi ali onde eu senti que periferia, quebrada ou favela é também um estado de espírito. É a nossa diversidade, é um comportamento. É onde as pessoas são mais humanas e tem um senso de comunidade atrelado à própria sobrevivência. É onde o sorriso das crianças brilha juntamente com as dores dos antepassados. É onde o amor e a poesia resistem para nos fazer sonhar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL