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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Favela fluente em inglês: 5 dicas básicas da quebrada pro mundo

Filype Kaique da Silva, 24, o VulgoFK, com a Cohab de Cidade Tiradentes (SP) ao fundo  - Arquivo pessoal
Filype Kaique da Silva, 24, o VulgoFK, com a Cohab de Cidade Tiradentes (SP) ao fundo Imagem: Arquivo pessoal
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

09/04/2021 06h00

Independente se você é morador de favela ou não, como eu, existe uma grande possibilidade de que você já tenha ouvido essa frase em algum momento da sua vida: "Vou falar inglês como? Eu não consigo falar nem português direito." Nessa coluna #DaQuebradaProMundo eu te darei dicas básicas para transformar essa realidade.

No caso de que essa informação traga alguma credibilidade, quem escreve esse texto é o Alexandre Ribeiro. Sou um jovem de 22 anos que cresceu na Favela da Torre em Diadema, e ganhou uma bolsa integral em uma universidade americana, o Bard College Berlin. O inglês foi uma parte essencial de todo esse processo, e como a maior parte do meu conhecimento veio de maneira gratuita eu gostaria de compartilhar um pouco do meu aprendizado. Para quem é iniciante, ou sonha em começar a aprender o idioma, aqui vão as cinco principais dicas.

1 - Use ferramentas gratuitas. Antes de procurar uma escola de inglês (principalmente agora que estão todas fechadas) pesquise material gratuito. O seu aprendizado pode, mas não precisa ser em uma escola convencional. Eu mesmo comecei a estudar inglês no aplicativo que muitos já conhecem, o Duolingo, e segui uma estratégia que mudou minha experiência com o aprendizado. O aplicativo funciona da seguinte maneira: existem diversas aulas com uma lição de 5 níveis. Automaticamente, se você terminar o nível 1 da lição atual, a aula de um novo tema é desbloqueada e você pode avançar. Esse método foi pensado para não te desanimar, e é bom no começo. Entretanto, a dica de ouro nesse aplicativo é o seguinte: só avance para a próxima aula depois de completar as cinco partes da lição atual. Foi assim que memorizei grande parte do meu vocabulário. 15 minutos por dia e o aplicativo mesmo lembra: feito é melhor que perfeito.

2 - Não seja seu próprio inimigo. O desafio é complexo, mas nós também não precisamos ser nossos próprios boicotadores. Esse tipo de pensamento é exatamente o que nos segrega na sociedade e não nos deixa ascender socialmente. Descomplique e desmistifique as ideias de que falar inglês não é para você. É para você e para todos nós, e pode te ajudar muito. A fluência é o ponto onde você se sente bem.

3 - Um sonho se torna realidade quando a inspiração está perto da gente. O meu aprendizado do idioma mudou completamente quando eu deixei de ficar entediado e comecei a me divertir, vendo conteúdo humorístico/memes em inglês. Comecei a aprender na época do Vine, lembra? Contudo hoje em dia nós podemos buscar referencias próximas da gente. Por exemplo: você já ouviu falar da história do Filype Kaique da Silva, o VulgoFK? Ele viralizou nas redes sociais cantando perfeitamente os versos em inglês da música "Down Below" do Roddy Ricch. Um moleque da Cidade Tiradentes que vendeu a própria moto e foi se jogar no mundão para aprender inglês. Mó inspiração. O que eu acho incrível na história do VulgoFK (e de outras histórias que você pode encontrar) é que ele representa um mundo novo, onde nós somos protagonistas do nosso próprio filme. Somos capazes e podemos usar o conhecimento para nos libertar, inclusive o de outros idiomas. Você pode ir estudando através do que te inspira. Seja um Rap, um Trap, ou quem sabe Economia. Procure assuntos que te inspirem e caso não encontre, seja você essa inspiração.

4 - O caminho não será fácil, mas será por nós construído. Segundo uma pesquisa de 2014 para o British Council pelo Instituto de Pesquisa Data Popular "no Brasil, 5,1% da população de 16 anos ou mais afirma possuir algum conhecimento do idioma inglês. Entre os mais jovens, de 18 a 24 anos, o percentual dos que afirmam falar inglês dobra, chegando a 10,3% das pessoas nessa faixa etária". Infelizmente no assunto da língua inglesa a desigualdade se torna ainda mais evidente. Lembra do pensamento "Vou falar inglês como? Eu não consigo falar nem português direito." É um pensamento doloroso e real. Até mesmo nessa pesquisa realizada não foram consideradas as pessoas de classe D e E. Entretanto não posso reforçar a segregação da pesquisa e dizer que é impossível. Os pontos fora da curva como a minha história e a história do VulgoFK se fazem cada vez mais presentes e querem te inspirar a quebrar essa barreira da desigualdade! Nesse começo, como podemos construir nós mesmos um caminho possível? Comece de pouco em pouco. Sem afobação. Você pode começar fazendo aulas gratuitas e depois para descansar assistir filmes com o áudio em inglês e a legenda em português. Você também pode mudar o idioma do seu celular para o inglês, ou se for um passo muito complicado, mude a configuração só de uma rede social. De pouco em pouco nós vamos construindo um caminho, não tenha pressa.

5 - Comece agora. Essa dica na verdade é um empurrão para você que está lendo esse texto. Você pode agora mesmo - gratuitamente - se inscrever para ser um aluno da ONG Cidadão Pró Mundo (https://www.cidadaopromundo.org/). Você pode baixar o aplicativo que foi citado, o Duolingo. Você pode se sentir inspirado pelas histórias citadas e realizar os pequenos passos citados no texto, e no fim, você pode me seguir nas redes sociais pois em poucos meses nós vamos disponibilizar um curso de inglês gratuito para os moradores de periferia de todo o Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL