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#DaQuebradaProMundo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A parede branca do visto negado

Manifestantes fazem protesto para combater as marchas neo-nazistas em Berlim - Gordon Welters/The New York Times
Manifestantes fazem protesto para combater as marchas neo-nazistas em Berlim Imagem: Gordon Welters/The New York Times
Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro, escritor, colorido, 22 anos. Autor do livro de poesia "Inflorescência" e do romance vencedor do prêmio ProAC Prosa "Reservado". Alexandre é morador da Favela da Torre em Diadema e por conta de uma bolsa de estudos está vivendo na Alemanha. A Coluna #DaQuebradaProMundo é um espaço de partilha, onde um favelado fala sobre o caminho das pedras sem trazer fórmulas secretas. Um espaço onde a realidade dura e o sonho esperançoso coexistem na busca do impulsionar.

19/03/2021 04h00

Qual foi o maior vazio existencial que você já sentiu na pele? Eu perdi um dos meus amigos de infância, Gabriel, assassinado em meio a uma troca de tiros. Fui processado e perseguido pela direção da minha escola quando demonstrei empatia para outros amigos secundaristas. Impotente, do outro lado do planeta, observei a minha família se despedaçando com a partida de nossa matriarca, a vó Martinha. Em nenhum desses momentos consegui, de fato, chorar. Qual o tamanho da cruz que um ser humano pode carregar?

A dura realidade destroçou a ficção quando firmei os pés de volta na Alemanha. De novo. Era 09 de fevereiro de 2021, saindo da Favela Da Torre e chegando no aeroporto de Frankfurt, de volta à segunda "casa". Tirei o celular do modo avião na expectativa de receber a mensagem clássica da operadora: "Willkommen in Deutschland!" (seja bem-vindo à Alemanha). Entretanto, a notificação veio do mundo real. Um e-mail do Departamento de Estrangeiros:

"Hallo Herr Ribeiro Barros. Aufgrund der Ablehnung, der Agentur für Arbeit, habe nun keine Rechtsgrundlage nach der ich Ihnen eine Aufenthaltserlaubnis erteilen könnte. Somit müssen Sie leider ausreisen. Bitte übersenden Sie mir bis Ende nächster Woche eine Kopie per E-Mail von Ihrem Rückflugticket."

"Olá Sr. Ribeiro Barros. Devido à rejeição por parte da Agência do Trabalho, agora não tenho base legal para lhe conceder uma autorização de residência. Infelizmente, você terá que deixar o país. Por favor, envie-me uma cópia do seu bilhete de volta por e-mail até o final da próxima semana".

Qual o tamanho da cruz que um ser humano pode carregar? "Infelizmente, você terá que deixar o país." Essa frase foi ecoando, ecoando, ecoando. [...] Como assim vou ter que deixar o país? Poucos meses atrás recebi a confirmação de uma bolsa de estudos. Acabei de arrumar um emprego como ajudante, só para arcar com os custos que a faculdade não vai pagar. De fato, não se passaram nem dez minutos que voltei para a Alemanha. O que eu faço agora?

Me desvencilhei do mundo e a notícia cerrou a garganta. Sem sentido algum, peguei minha mala num dolorido passo e arrastei o sonho no caco do meu coração. Sentei-me, me lembrei do Gabriel. Lembrei-me de mamãe, da escola, de minha vózinha. Meu corpo começou a tremular. O tempo me pediu um tempo. A poesia mandou-me um acaso. Foi com o melhor da língua alemã. Uma revolta. "Weiße Wand" da banda AnnenMayKantereit começou a tocar.

"Weißt du, Mann / Sabe, mano

Ich bin jung und weiß in 'nem reichen Land / Eu sou jovem e branco em um país rico

Mein Kreißsaal war umkreist von 'ner weißen Wand / Minha sala-de-parto estava cercada por uma parede branca

Ich bin keiner von denen, die weiterwissen / Eu não sou um desses, que sabe tudo

Ehrlich gesagt, ich krieg' selber nie was geschissen / Na real, eu mesmo nunca sou apedrejado

Und ich weiß nicht, wann man die Decke aus Glas einreißen kann / E eu não sei quando se pode quebrar o teto de vidro

Die Decke aus Glas ist 'ne weiße Wand / O teto de vidro é uma parede branca

Auch wenn ich das nicht beweisen kann / Mesmo que eu não possa provar isso."

Trecho de Weiße Wand (Parade Branca), tradução por Alexandre Ribeiro.


Depois de anos de nó na garganta, jogado no chão do aeroporto de Frankfurt, eu chorei.

Chorei por Gabriel, pela dona Marta, por Antenor. Chorei pelos meus iguais que se foram sem nunca nem poder andar de avião. Chorei pelos refugiados que tentam cruzar fronteiras de barco e são recebidos com tiros. Chorei de frente para uma branca parede. Essa que só é capaz de limitar um certo tipo de gente. Sem que nenhuma lágrima caísse, chorei calado.

"Nós os caçaremos!" disse o político Gauland (AfD) em um discurso em que se referiu aos que pensam como Angela Merkel. A "Parede Branca" da poesia é um som de 2018 e ao mesmo tempo fala sobre o mundo de 2021. Um lugar onde o AfD (partido xenófobo de extrema-direita) está representado em todos os estados alemães. Uma Alemanha que está infestada por vermes como esse que negou meu visto (sem nenhum motivo). Vermes que infestam as repartições públicas, os espaços de poder. Usam da própria frustração para transformar a vida de imigrantes em um inferno. Mas eles não sabem o tamanho da cruz que nós podemos carregar.

A poesia que me trouxe às lágrimas, a parede branca de AnnenMayKantereit, critica exatamente essa sociedade que quer se fechar sozinha. A sociedade que coloca mais concreto e burocracia para aumentar as barreiras, as fronteiras. A narrativa de que "os refugiados vão roubar os nossos empregos" é somente um lado ignorante da história. O lado das pessoas que só viram guerra, pobreza e desigualdade na televisão. Sim. Há desigualdade na Alemanha. Uma desigualdade focal e estrutural. Vocês precisam é de uma aula da própria realidade.

De acordo com a pesquisa do instituto Allbright-Stiftung o número de mulheres nos conselhos de administração das corporações DAX (as maiores empresas da Alemanha) é de apenas 10%. Ao mesmo tempo, 21,2 milhões de pessoas na Alemanha têm um histórico familiar de imigração. Na prática, isso quer dizer que um a cada quatro alemães é lido como um estrangeiro. E a participação desse grupo de pessoas no parlamento? Um em cada dez.

E para transformar os espaços e narrativas é que aqui estamos. Na versão oficial do clipe de ?Weiße Wand" um dos versos é levemente alterado para trazer esperança:

?Und ich glaube dass man die Decke aus Glas einreißen kann / E eu acredito que se pode quebrar o teto de vidro

Die Decke aus Glas ist 'ne weiße Wand / O teto de vidro é uma parede branca"

Eu acredito que a gente pode quebrar esse teto de vidro. O teto de vidro construído por ideias pautadas em pseudociência. O teto de vidro pautado na ignorância, no racismo, na intolerância. Um teto de vidro que o movimento negro vem quebrando há muito tempo.

Por mais que os burocratas-da-bunda-quadrada queiram estragar nossos dias e nossas felicidades, eles não vão conseguir. O que a burocracia vai fazer conosco que a violência estrutural do Brasil já não fez? A favela é mais forte. E só para estragar o dia daquele verme, a gente fez um corre e o meu visto foi aprovado. Chora, boy.

Fontes:

https://www.tagesschau.de/wirtschaft/boerse/frauen-in-dax-konzernen-101.html

https://www.bpb.de/nachschlagen/zahlen-und-fakten/soziale-situation-in-deutschland/61646/migrationshintergrund-i

https://www.dw.com/de/wer-sitzt-im-bundestag/a-41079697

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL