Ondas de calor extremo ameaçam limites da sobrevivência humana

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Com recordes de temperatura sendo constantemente quebrados, os impactos na saúde atingem níveis sem precedentes. A OMM (Organização Meteorológica Mundial) confirmou que 2024 foi o ano mais quente da história, com ondas de calor mortais afetando diversas regiões do planeta. Em janeiro de 2025, um novo recorde foi registrado: a temperatura global atingiu 1,75°C acima da média, mesmo sob influência do fenômeno La Niña, que normalmente resfria parte do oceano Pacífico Equatorial. Diante do avanço acelerado do aquecimento global e da insuficiência das medidas para contê-lo, uma adaptação urgente e abrangente é essencial para evitar a rápida escalada dos impactos do clima extremo na saúde.
Pessoas em todo o mundo enfrentam um risco crescente de eventos climáticos extremos que ameaçam a vida. Entre 1961-1990 e 2014-2023, 61% da superfície terrestre registrou um aumento no número de dias com precipitação extrema, elevando o perigo de inundações, a propagação de doenças infecciosas e a contaminação da água.
Um relatório publicado pela revista científica The Lancet em outubro de 2024 identificou diversos limites para a adaptação da saúde às mudanças climáticas:
Limites fisiológicos. O corpo humano funciona dentro de uma faixa estreita de condições ambientais, especialmente em relação ao estresse térmico. Com o ritmo acelerado das mudanças climáticas, esses limites estão cada vez mais próximos de serem ultrapassados. Extremos severos de calor e umidade podem tornar algumas regiões inabitáveis, levando à insolação e ao colapso térmico. Estudos indicam que, embora o limite tradicional para a sobrevivência humana tenha sido estabelecido em até 6 horas em um ambiente com 35°C de calor e umidade extrema, pesquisas mais recentes mostram que esse limite é ainda menor, principalmente para idosos. Além disso, condições extremas de calor e seca já causam centenas de milhares de mortes por ano. Apenas em 2022, ondas de calor extremo mataram quase 62 mil pessoas na Europa. No Brasil, entre 2000 e 2018, foram registradas 18 mil mortes relacionadas ao calor.
Limites de evidências e conhecimento. A geração de evidências científicas e conhecimento é crucial para adaptação e proteção da saúde, mas existem desafios na implementação de medidas eficazes. Essas dificuldades se originam dos limites humanos para entender a interação entre o mundo natural e os impactos na saúde.
Limites financeiros. Sob o curso atual de mitigação, a adaptação por si só será muito custosa e exigirá a realocação de fundos de outros setores. Esses limites são mais acentuados em países de renda mais baixa, particularmente dada a escassez de fundos internacionais alocados para apoiar ações de adaptação, especialmente para a saúde.
Limites de governança ou política. A maioria das medidas de adaptação relacionadas à saúde exigem ações em setores que dão suporte à saúde das pessoas, incluindo saneamento, planejamento urbano, transporte e energia, para otimizar recursos, maximizar benefícios e otimizar compensações. Essas ações exigem cooperação articulada entre setores governamentais, funções executivas eficazes e fluxos de financiamento adequados nos níveis internacional, nacional e regional, que raramente ocorrem.
Limites físicos ou de infraestrutura. O ambiente físico pode agravar os riscos climáticos para a saúde, e nem sempre há soluções viáveis para modificá-lo. Isso inclui, por exemplo, limites físicos para proteger áreas costeiras baixas, barreiras de proteção contra enchentes ou elevação construída à medida que os níveis do mar continuam a subir. Da mesma forma, modificar o ambiente construído para torná-lo mais resiliente ao clima pode ser muito caro, perturbador ou lento, tornando-o uma opção indisponível. Essas modificações incluem obras de engenharia em larga escala para melhorar os sistemas de água e esgoto, proteção contra enchentes ou aumento de espaços verdes urbanos quando o espaço é escasso.
Limites sociais, culturais e comportamentais. Mudanças comportamentais podem ajudar a construir resiliência às mudanças climáticas. Tais mudanças incluem, por exemplo, adotar comportamentos para se proteger do calor e buscar soluções de resfriamento em casos de ondas de calor, buscar segurança durante eventos extremos ou migrar. No entanto, a capacidade ou disposição das pessoas para mudar é frequentemente limitada por seus hábitos, cultura, crenças ou redes sociais.
Superar essas limitações é teoricamente possível por meio de grandes mudanças sociais, institucionais e tecnológicas, que exigem uma combinação de medidas de adaptação e mitigação no enfrentamento à emergência climática. Ações de toda a sociedade e intersetoriais (por exemplo, financiamento formal e sustentado, governança forte e comprometimento político) são urgentes para reduzir os riscos climáticos e seus impactos na saúde.
Se as políticas atuais forem mantidas, o mundo caminha para um aquecimento superior a 3°C até 2100. A mitigação sustentável não só evitaria os piores impactos climáticos, mas também reduziria os danos à saúde causados pelos combustíveis fósseis. Hoje, a poluição urbana mata entre 6 e 7 milhões de pessoas por ano, enquanto a queima de biomassa é responsável por outros 2 a 3 milhões de óbitos anuais.
Atualmente, cerca de 1,2 bilhão de pessoas estão em alto risco devido aos impactos do clima em mudança. No entanto, acelerar o desenvolvimento sustentável e implementar adaptações direcionadas pode reduzir significativamente esses impactos, tornando populações, empresas e países mais resilientes diante da crise climática.
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