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Racismo no esporte

Caio Magri

Com foco em responsabilidade social corporativa, aborda tanto as questões críticas quanto as boas práticas nas agendas das desigualdades, dos direitos humanos, de integridade e ética, e do meio ambiente. A fim de compartilhar a contribuição de diferentes atores sociais - empresas, academia, organizações e poder público ? em busca de uma sociedade sustentável e justa.

27/09/2020 04h00

Neymar Jr. foi o mais recente jogador de futebol a denunciar o racismo dentro das quatro linhas do campo de jogo. O agressor, o zagueiro espanhol, Álvaro González, teria desferido vários insultos racistas contra o jogador brasileiro em jogo do campeonato francês.

Infelizmente não se trata de um caso isolado. De forma recorrente, no futebol e em outros esportes, atletas são ofendidos por outros esportistas, dirigentes e pela torcida.

Nacional e internacionalmente o racismo no esporte tem crescido cada vez mais. No Brasil, quase um terço dos episódios em 2019 foram registrados no Rio Grande do Sul. De acordo com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol que organiza, desde 2014, relatórios anuais, recolhendo dados sobre casos de preconceito, seja racial, homofóbico ou de xenofobia constatou que em quase todos os anos houve crescimento em relação ao ano anterior. Em 2017 foram registrados 43 casos no futebol brasileiro, média mantida em 2018, com 44, mas que saltou para 59 em 2019.

Um ponto relevante para a questão do crescimento de casos de racismo no futebol brasileiro, que seria responsável por impulsionar tantos episódios, tem relação com o momento político do país - e do mundo. O crescimento do autoritarismo, em oposição à democracia e a luta contra as desigualdades tem se refletido em campo.

"... o futebol reflete a sociedade", é o que disse em entrevista Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Para ele, "o momento político no Brasil e no resto do mundo é um fator que conspira para o afloramento do racismo" e outro fator seria que "o racismo ficou mais visível também porque os jogadores estão chegando a um nível mais elevado de conscientização e começaram a denunciar os casos, indo para as redes sociais ou avisando os árbitros quando veem as manifestações racistas partindo das arquibancadas".

De Muhammad Ali, do boxe, passando pelos velocistas Tommie Smithe e John Carlos, que fizeram o gesto dos Panteras Negras, no pódio das Olimpíadas de 1968, até Lewis Hamilton que tem se manifestado a cada novo GP da Fórmula 1, os atletas, há anos, têm contribuído com a luta antirracista.

A velocista mais rápida da história do Brasil, Rosangela Santos, disse certa vez em entrevista que "o esporte pode ajudar na reeducação comportamental popular, principalmente nas arquibancadas. E nós, atletas negros, devemos nos impor. "

Sobre a forma como o Brasil e o povo brasileiro tratam a causa, há quem acredite que falhamos ao lidar com a questão. Breiller Pires, jornalista do El País e ESPN pensa que "o Brasil perde muitas oportunidades de discutir problemas relacionados a questão racial", para a qual cita um exemplo. "No ano passado, Roger Machado, técnico do Bahia, que proferiu um discurso épico sobre discriminação racial, lá no Maracanã, depois do jogo contra o Fluminense que promoveu o encontro dos dois únicos técnicos negros na época, da Série A do Campeonato Brasileiro. E ao longo da semana aquilo foi muito pouco debatido, se perdeu rapidamente na pauta diária e nos programas de televisão. A própria cobertura esportiva como um todo não aproveitou aquele momento para jogar luz sobre a questão racial utilizando o esporte como uma plataforma", explanou Breiller.

A fim de mudar o atual cenário e até mesmo não atuar apenas em punições isoladas, em dezembro de 2019, o Grêmio assinou um Protocolo de Intenções com a Defensoria Pública da União, por meio do Grupo de Trabalho de Políticas Etnorraciais (GTPE-DPU). O documento prevê ações de enfrentamento ao racismo institucional e estrutural no âmbito do futebol. Importante iniciativa já que o Estado do Rio Grande do Sul tem sido o campeão de manifestações racistas no futebol brasileiro. ()

Outra ação, depois de realizar iniciativa que ganhou o nome de Curso de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e Abuso no Esporte (PEAAE), o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) colocou no ar, em agosto, uma série de eventos virtuais voltados ao lançamento do Programa de Prevenção e Enfrentamento do Racismo no Esporte.

Além disso, conversas com representantes de torcidas organizadas e campanhas publicitárias e em redes sociais são diferenciais na luta antirracista no esporte.

Outra ação importante é o compliance dentro dos clubes. Em agosto desse ano uma auditoria interna conduzida pelo departamento de Governança e Complience do Clube Pinheiros encontrou diversos relatos de assédio moral e de racismo dentro da ginástica artística do clube. Apesar de depois o próprio clube tentar barrar a investigação de racismo, que continua, cabe aos clubes mitigar as ocorrências e punir os responsáveis.

O artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva define que quem "praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência", pode sofrer suspensão de cinco a dez partidas, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão pelo prazo de cento e vinte a trezentos e sessenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código, além de multa de R$ 100 a R$ 100 mil.

O Rating Integra, promovido por Atletas pelo Brasil Instituto Ethos, COB, CPB e Pacto pelo Esporte funciona como um termômetro das entidades esportivas para avaliar e aprimorar os mecanismos de governança e da gestão da integridade e transparência das entidades esportivas no Brasil e reconhecer as entidades que apresentem melhor desempenho nessas áreas.

É o primeiro instrumento de governança voltado para instituições desportivas atuantes no Brasil, desenhado com sua participação e experiência. Constitui também uma ferramenta aos financiadores do esporte que têm nele um parâmetro claro para avaliar e reconhecer o comprometimento das instituições patrocinadas com melhorias contínuas.

Um grupo de jogadores e esportistas lançou, em junho desse ano, o movimento Esporte pela Democracia, que conta com a presença de atletas como Raí, Walter Casagrande, Jose Trajano, Grafite, Igor Julião, Ana Moser, Juca Kfouri e Joanna Maranhão. Por meio de manifesto publicado nas redes sociais, os atletas buscam firmar um compromisso com a democracia, o respeito à diversidade e a luta contra o racismo e o autoritarismo.

A partir da palavra de ordem "Com Racismo não tem jogo" o Esporte pela Democracia e o Movimento Indígena se reuniram em julho para realizar uma ouvidoria pública sobre os Jogos Internacionais de 2021, com a proposta de que indígenas e toda a diversidade de povos participem amplamente por um esporte sem racismo.

Conhecer e apoiar estas iniciativas é uma oportunidade para que cada um de nós participe da luta antirracista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.