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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Medo Como Combustível

Victor Balde
Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

03/07/2022 06h00

Ter medo não é ruim, ele nos protege de entrar em muitas situações conflitantes. Agora, ter muito medo já é um caso que precisa ser analisado. Buscar entender a causa de nossos medos é muito importante e tenho caminhado neste sentido há muito tempo, eu chamo de "a subida da minha montanha". Toda vez que o combustível da minha vida entra em pane, procuro analisar o porquê dos gatilhos ocultos. É um exercício solitário, introspectivo, realista e amoroso. Afinal de contas, é de mim que estou cuidando. É uma questão de afeto que me dou ao cuidar-me.

E digo com conhecimento de causa que até aqui, só minha própria análise sincera dos fatos pode me ajudar. Hoje não faço mais terapia ou análise, mas confesso que muito me ajudou. Hoje é o espelho que me ajuda bastante nessa busca de compreender meu interior e meus instintos. Já resolvi meus medos com remédio, álcool, briga? viver não é fácil. Um grande investimento que dura por uma eternidade.

Ana Carolina traz na música "Combustível", um exemplo que pratico toda vez que caio e preciso me reerguer:

Pensei ser invencível
Nem me dei conta do perigo
Fui fanática, suicida
Quase entrei num beco sem saída
Volto ao ponto de partida
Pra encontrar o amor em paz.

Reconhecer os gatilhos e saber de onde eles vêm é uma maneira muito sábia de viver.
Saber reconhecer o que é conselho e o que é palpite, é um bom diferencial. Ainda ontem, eu caí por não ter ouvido algo simples que mãe sempre diz: "quem vai buscar tem que levar um saco pra trazer". Passei por cima desse conselho por amor e boa intenção, mas mãe também sempre diz que "de boa intenção o inferno está cheio".
Aí, foi meu espelho quem disse: Eu te avisei.

Antes de relatar minha experiência - agora que descobri que poderia ter dormido sem essa experiência catastrófica - é preciso reconhecer que saí de casa querendo ajudar, mas também tinha intenção de tocar em velhos assuntos, ruins de resolver. Aquelas coisas de família que precisam ser ditas em pequenas doses, que ficam nos vãos do tempo porque causam um certo transtorno. Todo mundo gosta que os outros digam a verdade, no entanto, praticar a verdade é um outro exercício difícil.

Tudo começou no domingo, quando recebi um convite para assistir ao show de Caetano Veloso, que adoro. Pelo caminho ainda tive contato com o aniversário de Gilberto Gil, modelo de família que admiro e almejo. Ainda antes, dei uma passada no Museu da Resistência e depois no show d'uma casa de samba. Foi muita realidade pra um único domingo. Na segunda-feira, amanheci bem confusa com tanta informação. Para além dos shows, eu observo a vida por onde passo. As famílias do mercado municipal de Tucuruvi, onde frequento desde criança, trazem aos pés de si seus anciãos. Tanto a barraca de peixe da família Yamada, como as de avícolas, trazem consigo várias gerações. Quem ali entre eles tem voz de decisão, coordena e ameniza os conflitos? Estas famílias são exemplo pra mim. Eu sei que a forma como vieram para o Brasil é diferente de como vieram meus ancestrais. Gostaria de ser tratada na minha velhice como estas pessoas tratam seus anciãos, mas essa semente precisa ser plantada agora. Estão sempre por perto sim, estão mais lentos, mas ali aos cuidados de seus mais jovens.

Se eu pudesse escolher, gostaria deste futuro pra mim.
Foi por isso que saí de casa para mediar um conflito, cheia de boa intenção. Fracassei porque já saí de casa sem ouvir a voz da minha consciência. Sem pedir licença, sem considerar o improvável. Foram umas 4 horas de conversa saudável, como uma clareira aberta na mata do bom convívio. Em seguida, tomamos um chá de erva doce com camomila. Foi um ótimo conselheiro. Eu recebi recados sonhados, que dividi por WhatsApp - não quis esperar pra dizer pessoalmente, já que tinha dentista.

O conselho pedia que me desse como exemplo para ajudar. Para estar mais por perto, perpetuando nossos costumes para preservação da nossa espécie. Porque me sinto velha e solitária, e seria bom se ele aceitasse minha experiência. Seria bom para ambas as partes. Faz tempo que nosso próprio relacionamento pede isso. Já que temos citado os orixás, o mulherismo presente em toda diáspora, o sonho trouxe um combustível e a esperança de dias melhores.

Fiquei no dentista por 4 horas. Meu conselho foi acolhido e me convidou a acompanhá-lo a uma visita. Eu também tinha uma notícia boa pra dar.
Houve um vento...

As palavras descarrilaram dentro de mim quando tudo perdeu o sentido.
Sou uma tigresa e se me acuam, eu ataco. Fui ferida gravemente e nunca esperava, depois de uma conversa tão certinha, batidinha...
A deusa fúria se instalou em mim .

Agora novamente trago a fala de Ana Carolina à nossa conversa.
Apague e desconsidere tudo o que eu disse sobre o sonho, não faz mais sentido.
Me desculpe. Eu me enganei.
Entrei numa enrascada com este combustível samaritano. Eu fui avisada, e agora quem me aconselha é Maria Bethânia: Fazendo tanto barulho você pode acordar meu orgulho que tanto dorme por nós.

E ela veio, a indignação, choro e ranger de dentes. Depressão. Mais choro, promessas de nunca mais querer te ver. Depois passa.
Eu já tenho minhas próprias turbulências para resolver.
O afeto tem destas coisas.
A maioria das vezes uma boa intenção não dá em nada, acaba em ofensas e palavras horríveis, inverdades que impregnam na gente pra fortalecer o banzo.
E depois, entendida? E depois, amada?
Depois dores sem remédio, choro, tristeza, tédio. Depois banzo. Depois nada.

Depois da despedida/ volto ao ponto de partida/ para encontrar o amor em paz.
Mas, o espelho me avisou e, mesmo assim, eu fui.
Arrumei uma malinha pra dormir fora com intenção de pernoitar e retornar no dia seguinte. Roupa de dormir, escova de dentes, coração aberto e a esperança de ser tudo a meu jeito. Quantas vezes esta mesma travessia me trouxe de volta aos prantos, decidida a queimar todos os meus sonhos e mudar de país. Mas, a perseverança e o amor que tenho me disseram: Se não tentar, como saberá?

Saí então olhando a lua, pra ver se São Jorge estava ali lutando. Ele nunca cansa, nunca cansa. E se ele luta e nunca cansa, por que eu, que o admiro tanto, vou abrir mão de lutar? O dragão furioso também não cessa de incendiar e se alguém vai incendiar, alguém precisa apagar o fogo.

Sempre quis dar conselhos bons, sonhava até em ser uma juíza de paz na roça, quando li sobre isto num livro. Eu sou introspectiva, falo muito pra dentro de mim. Minha língua vive mais embainhada dentro de minha boca que dando qualquer referência do que acho ou não. Não vale a pena.

Se eu sei de tudo isso, não me conformo do porque fiz isso comigo. Deveria ter mandado por escrito por motivos reais. Não gosto de dormir fora de casa, já gostei no passado, hoje não mais. Estranho a cama, cheiro, nunca sei onde estão as coisas do café, açúcar. Acordo cedo e me irrito a procurar, sou nada sem um cafezinho. Lembro do elogio por alguns acertos que foram no alvo. Depois eu morri um tanto.

Não tenho medo de morrer, temo a solidão.
Temo perder os meus, não para a morte, mas pra invisibilidade em vida. Tenho medo de me tornar órfã de afeto. Até ali havia algo a ser comemorado, uma conquista. Quando tudo explodiu, abri a porta e saí. Andei quilômetros a pé, arrastando o peso do desentendimento pela Brás Leme. Andando e morrendo.

Desde então, tudo mudou e pra dentro de mim aquela voz retrucava, zombando de mim feito uma mosca sorrindo: "Eu num disse?". Meu peito doía e pesava como se eu carregasse uma pedra dentro dele. A boca foi secando, secando? não queria comida, não queria agrado. Só queria uma resposta que justificasse tamanha dor.

Entreguei a mazela à noite e deitei, eu e minha parte morta. Gosto de escrever, mas temo ferimentos através de palavras. Receio este pequeno músculo em forma de faca, que habita a bainha da minha boca. Porque depois sempre vem arrependimento, choro, tristeza e a palavra ofensiva nunca mais volta para o lugar de onde surgiu, demorando em cicatrizar. Antigamente eu tinha medo maior da morte, hoje não.
Acho que é porque tenho muitos amigos que me aconselham: "A dor vai passar, tá passando?" Para isso recorri aos meus amigos e aceitei seus conselhos. De todos eles, o que me devolveu a vida foi este.

Mario Quintana ameniza minha tristeza:
Um dia ...pronto! me acabo.
Pois, seja o que tem que ser
Morrer: que me importa?
O diabo é deixar de viver

E sigo com minhas mentiras, até a próxima armadilha.
Agora, peço licença, tenho uma montanha à minha frente.