PUBLICIDADE
Topo

Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Da Barra da Saia do Segredo ao Commodity

Victor Balde
Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

22/05/2022 06h00

- Fique aqui ao meu lado, pra você saber como se faz. Um dia você vai ter que fazer, seja como empregada na casa de madame ou pra cuidar de sua família, porque se escapar de uma de outra não escapa.

Não foi nem uma, nem duas, nem três vezes que eu vi com estes olhos que tanto me mostram. Era tratando a carne desde a criação ao abate, uma aula de anatomia e gastronomia, não fure o fel senão perde a carne. Íamos pela mata adentro e encontrávamos uma pimenteira carregada a ponto de ser colhida ou uma rama farta repleta de abóboras que precisava de duas mulheres pra dar conta de carregar uma delas. Era muita riqueza, mãe levava pra casa, deixava lá num canto e ia dividindo com quem quisesse o fruto, não era dela era de todes. Havia ali quem não comia verdura, dizia que verdura era comida de animal. Não raro, voltava lá e matava a planta pra não servir a mais ninguém. Dizia: Tem que matar para não ficar escrava dela. Esta pessoa eu vi passar várias necessidades na vida, passava fome até, mas ria de minha mãe porque esta ia trabalhar fora ela dizia.

- Morro de fome, mas não trabalho, nem como, nem folha, nem ovo.

Naquele tempo eu achava interessante esta fala, mas também notava que ela amanhecia nas portas pedindo para ela, para o marido e os quatro filhos do casal. Eu nunca entendi de quando era criança, hoje posso entender, o medo que ela tinha de alguma pessoa branca se apossar do terreno tomar posse daquele pé de planta e botar uma mulher negra pra colher e tratar sem pagamento pela mão de obra. Estes ensinamentos eram sutis e só dei conta tardiamente e muitas vezes fui vítima, desde a escola quando lavava os banheiros sorrindo e nem reclamava achando que não tinha nada demais. Levou anos pra eu entender que aquela mulher perdeu as terras em Sergipe, por isso veio parar cá entre nós no Ataliba. Aqui, chegando com o pouco dinheiro que trouxe, comprou um lote, mas não pôde pagar, o perdeu. Ela se sentia derrotada e tanto ela como o marido tornaram-se alcoólatras. A vida me ensinaria, quantas (ex) entre nós já sofreu este tipo de violência? Já que nós, pobres do Ataliba, somos todos sobreviventes, e vivíamos cercados de outras etnias brancas. Talvez mãe se esquivasse deste, mas foi pega naquele de passar a receita e viu sua receita envasada e rotulada e nem deu conta, da mesma forma que Dona Benta fez com Dona Anastácia.

Assim, nossos saberes e fazeres tornaram-se qualquer coisa, mercadoria, ativos que impactam na economia e na bolsa de valores, costumam estar com frequência no noticiário entre altas e baixas. A primeira vez que tive contato com a palavra ativos foi no livro "Pai Rico, Pai Pobre", ali ela vem ao lado de passivos, define o que é ser rico ou ficar rico ou pobre, no livro é fácil. Lucro e prejuízo andam lado a lado, é questão de oportunidade e visão, será? Afirma o autor. Pensei em sugerir a ele um filme, o "Vista Minha Pele". Antigamente era comum plantar, colher, cozinhar, fazer seus remédios, oferecer cuidados corporais na própria comunidade, depois esta prática foi desacreditada, mas sempre será costume ancestral. Tardiamente viraram mercadoria, esta prática de colonização vem de longe, fugiu de minhas vistas, entrou pra TV e até hoje a supremacia branca se pergunta: Por que agora ao invés de estar limpando minha casa e cuidando de meus filhos ela está noutros lugares? O fato é que eu nunca gostei de trabalho doméstico, considero um tipo de prostituição que sempre evitei, tenho outras formas de vender meu corpo e minha mão de obra, se é que me entende. Porém mesmo não gostando, eu não conseguia perceber esta mão de obra escrava na minha juventude, e já naquele tempo a prática de transformar tudo em commodity já existia a larga. Commodity é mercadoria, matéria prima produzida em larga escala, com pequeno grau de industrialização, pode ser estocada à vera, sem estragar, divididas em quatro categorias principais: agrícolas, ambientais, financeiras e minerais. As financeiras são moedas negociadas em diversos mercados e títulos do governo como dólar, euro, títulos do governo federal. Por fim, commodity mineral encontra-se itens como petróleo, ouro e gás natural. Vale destacar que o preço das commodity é determinado pelo mercado mundial e não pelo produtor, variando de acordo com a oferta e a demanda, e impactam a vida de todes. Em nenhum momento aqui foi citado terra ou mão de obra, e de onde exatamente elas vêm de onde brotam?

Você que está lendo agora já viu os canteiros de tudo o que é negociável na bolsa de valores?

Tempos atrás num certo lugar, o serviço de uma prefeitura local plantou um ponto de ônibus na porta da casa de Dona Maria, era bom? Ela não soube dizer. A partir daquela data várias pessoas passaram a fazer fila na frente da porta, mirando o pedaço de madeira imposto. Era ali que tinha que ficar para pegar ônibus, pra ir a algum lugar, pra onde iam aquelas pessoas? O tempo responde a todas as perguntas. Ali deixavam seus rastros, vestígios de sua passagem por lá. Dona Maria conhecia todas as pessoas dali e teve uma ideia fantabulosa, todos os dias oferecia água fresca a quem ali ficava à deriva com a moleira no sol. No dia em que choveu, ela gentilmente mandou fazer uma pequena cobertura sobre a madeira sinalizada, era para não molhar as pessoas, só isso. Daí veio a sugestão de vender algo para valorizar a boa ação, boa ideia, já no dia seguinte ela surgiu com um refresco de limão rosa colhido ali de seu quintal mesmo. Num dia de chuva oferecia um chá feito do mesmo limão, com folhas de capim santo.

Acredita que tardiamente ela apresentou um perfume cítrico maravilhoso feito das cascas deste mesmo limão com o bagaço do capim. O comércio dela cresceu porque ela tinha mão, tato e cabeça para negócio. Daí surgiram petiscos, guloseimas, xaropes, tudo fresquinho ou curtido feito por suas mãos. Por sugestão, ela botou um luminoso dizendo "Labores de Maria". A economia na casa dela aumentou e a partir de então foi possível sonhar com educação melhor para seu único filho., e ele foi pra universidade.

Passaram-se alguns anos e o rapaz voltou pra casa, agora formado e cheio de informações, formou-se em economia, era o orgulho da família. Conversando com a mãe ele disse:

- Virão tempos ruins por aí, de acordo com o que aprendi, você precisa estar preparada.

Com base nesta informação, no dia seguinte, ela apagou o luminoso, depois foi diminuindo dia após dia as ofertas de seu comércio, deixou de vender seus quitutes, guloseimas, cuidados, até o suco de limão ela parou. As vendas caíram, a freguesia sumiu, e ela chegou a conclusão de que seu filho havia feito bom proveito do curso de economia porque o que ele disse aconteceu. Tudo ficou ruim, a única coisa que ela manteve foi a jarra de água gratuita e saudade do tempo de fartura. Se eu contar cê num vai acreditar, mais tarde, Dona Maria foi seduzida pela lei dos commodity,

Porque ela sabia fazer tudo desde o início, regida pelas ordens mundiais e pelas bancadas ruralistas, da bíblia, da bala e outras mais. E tudo começou, numa simples visita, assim como quem não quer nada, um amigo de faculdade de seu menino lhe propôs negócio, troca de dinheiro por segredos e linha de produção, levou-lhe os segredos, a escravizaram, tomaram-lhe as terras, a saúde, tudo através de sua fé, da fome e de sua crença. Triste sina a de Dona Maria, que numa hora tinha tudo e depois nada, por isso boto minhas barbas de molho, tento guardar meus segredos a muitas chaves.

Ainda em maio, colhi minhas buchas, açafrão, lavanda e deixei aqui guardadinho, não é pra todo mundo, é reserva de família. Mas Dona Jacira, então a senhora acha que ir a faculdade é ruim, que receber visitas em nossa casa deve ser evitado? De jeito maneira, trata-se de prestar atenção às coisas, tudo o que move o mercado na bolsa de valores saiu do ventre da terra com as forças humanas de trabalho. Sem moverem um prego numa barra de sabão, quem são os explorados. Dona Jacira então como faremos? Vamos manter o segredo, cada perfume, cada tempero carrega o ndotolo, ou seja, a comunicação sensorial de onde ele pertence. Ainda temos exemplos de gente que planta, caça e divide com a comunidade, o que acontece é que na maioria das vezes nós almejamos o capital e caímos na armadilha de rebanhar, ou seja, seguir a multidão a esmo. Nossos ancestrais também caíram nas mesmas armadilhas, minha mãe deixou de criar suas galinhas no fundo do quintal para sentar-se atrás de uma máquina de costura por até 24 horas, costurando pra gente que ela nunca viu, sabe por quê? Porque ela sabia costurar. Minha bisa vendeu seu único pedaço de terra no Paraná pra especulação, sabe por quê? Era uma doceira de mão cheia e acabou vindo para o interior de São Paulo pra colher laranja pra gente que ela nunca viu. Acabou cega por conta de tanto veneno usado nos laranjais e com os dedos tortos por conta do reumatismo e a friagem. E cega e com os dedos tortos ela voltou a bordar e fazer seus doces na minha casa, enquanto minha mãe sumia atrás da máquina de costura. Eu aprendi a bordar com ela, mas eu queria escrever.

Fui empregada doméstica sim, mas me rebelei e voltei pra escola, me vendi ao capital da minha maneira, pra entender que dentro da cozinha da minha mãe moravam todos os segredos, e que eu poderia sim me valer deles e viver para recontá-los. Hoje mesmo eu acabei de fazer meu sabonete de abacate, dia desses uma pessoa me mandou mensagem:

- Amiga, você pode me passar o segredo de como fazer sabonete de abacate?

- Sim, claro, mande um e-mail com uma proposta pra minha produção.

- Não é preciso amiga, mande-me algo rápido, é só pra eu escrever um artigo pra uma revista, sabonete é coisa que qualquer um faz.

- Mande um e-mail pra minha produção, não desdenhe dos meus segredos. Você precisa ficar ao meu lado pra saber como é que faz, seja lá como for usar e acrescentar os teus segredos.

Mas o que é segredo? Dia destes mãe de visita cá em casa disse: "Jacira bote o carrego na porta, o ar tá pesado". Só quem não anda descalço sabe o que é este segredo.