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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem governo

Autor desconhecido
Imagem: Autor desconhecido
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

12/12/2021 06h00

Lembro com saudade, não muita, acho até que tenho mais desconfiança que saudosismo de tão bizarro que eram estas passagens.
Um negócio que se chamava médico de família.
Alguém que a mãe levava a gente pra alguém olhá, fuçá la na gente enquanto falava com ela, como se a gente nem existisse.
Passar num era desafiador, impossível ir ali e não sair com sequelas.
A gente preferia muito mais ir a benzedeira que só movia suas mãos acima da nossa cabeça e corria elas sobre nosso corpo e ao fim de tudo nos cobrava um amém.
Médico mesmo era uma coisa muito distante da gente.
E que aqui no Ataliba nem existia, nossa médica era Dona Maria Preta a bisa ou uma outra matriarca da roda do poço.
Se precisasse, ela só batia a espuma do sabão das mãos no avental e benzia.
As crianças menores se deleitavam de quando elas as viravam de cabeça pra baixo.
Ser benzido era interessante e ouvir o diagnóstico era maravilhoso, nunca a doença era nossa.
Alguém botou olho gordo porque é muito bonito (a).
Alguém botou quebranto porque é ativo (a).
É inveja dona maria a senhora é muito sacudida chama atenção.
Tudo era o olhar do outro, estas coisas de infecção nem existia pra gente.
Às vezes um benzimento um flamejar de fogo na pólvora com a gente no meio e pronto pra todo resto, chinelada e açúcar no bolinho.
Mas elas se reuniam e queimavam a mofa às veiz.
Estavam sempre às voltas pra discutir um caso e como ninguém inventa a roda, toda vez que vejo um congresso no HC pra discutir as patologias e seus meios de cura logo relembro que esta ideia foi plagiada, inclusive das mulheres daqui e de outros clãs.
Mas um médico de família naquele tempo não estava para todos só para quem tivesse notas de réis na carteira.
Um que não fosse de família já era difícil porque afinal de contas, o que não é de família?
Aos incautos informo: réis eram notas vermelhas verdes e azuis de dinheiro.
Minha mãe as tinha no colchão, aos montes eu achava, muito pouco achava ela ou menos do que preciso dizia ela.
Todo dinheiro é pouco, na mão de uma mamãe.
Isto me traz a lembrança tanto troco surrupiado trocado por doce, tanto pescoção tomado.
Acucares vêm e vão e de repente olha o rebento doente.
As voltas do jardim Tremembé que naquele tempo era outro mundo pra mim dois nomes a quem recorrer aos causos impossíveis de se curar com reza e encantarias.
Dr Jurandir, Dr Walter viviam de boca em boca.
Tendo um qualquer pra necessidade podia se contar com eles.
Do tempo que dom dom tocava no andaraí, da goiabada cascão.
Lembro como se fosse hoje:
- vixi dona maria nem precisa dizer nada é verme ta amarelinha quase verde né?
- ta dando emulsão scot, óleo de fígado de bacalhau?
- ta passando alho de noite pras bixas não subir? isto até acho crendice.
- crendice também aumenta os anos dr, já viu entidade em faculdade?
Toda penteadeira era varrida destas soluções que as mães enfiavam na gente goela abaixo todo santo dia.
Nem precisava ir lá.
E o ovo de pata no biotônico Fontoura, coisas da eugenia, quem sobrevivesse contaria.
E assim ia a consulta neste tom de bronca e aprovação, tinha muito o que fazer não.
Naquele tempo fui a muitos enterros de crianças amarelas e barrigudas, era a verminose.
Que melhorou quando afastaram o poço de onde se tirava água de beber da foça cética.
Naquela época o cloro foi remédio, quem diria.
Lembrar do dentista que me livrava das dores, mas ficava com vários dentes meus na bandeja.
- vixi dona maria, tá tudo feio aqui, vou arrancar este que dói e os vizinhos porque senão logo a senhora vai ter que voltar.
- se eu não voltar o senhor não constrói casa, não compra carro, não paga conta, isto eu não entendia naquele tempo era descalça.
- pode arrancar dr. Minino e criação é tudo igual a gente não governa, vive comendo porcaria por aí, o senhor sabe como é a gente avisa mas não governa.
- pode arrancar dr. Que assim ela aprende escovar.
Escovar o que se em poucas viagens ele fez colar dos meus dentinhos.
Como eu iria parar pra escovar dentes se eu tinha já tantas obrigações.
Buscar o pão e cuidar pra que a seda ficasse intacta era uma delas, pra fazer uma pipa legal.
Ou demarcar o terreiro com o triângulo pra jogar burca, esticar a linha pra passar o cerol, eu era ocupada na minha lida. Do dente só lembrava mesmo quando doía.
Uma vez de quando inventaram o SUS fui mais longe.
Em Santana, depois que subi em cima do guarda-roupa e ele caiu em cima de mim, eu queria ver o que tinha lá em cima, eu perguntava, ninguém dizia, fui olhar, me dei mal.
Realizei um sonho botei gesso que tirei no dia seguinte pra coçar.
Como ainda não havia melhorado, Dona Maria Preta e mãe cortaram uma madeira e amarraram no lugar da ruptura e me ameaçaram pra eu não tirar.
Depois levei uns cascudos.
O bom é que fiquei livre da escola, nunca gostei dela, nem ela de mim.
Tinha coisa que se recorria a comunidade ou ao dr. No mais usava-se a cura integrativa encantada e reza.
E muita das veiz dava certo, olha eu aqui pra provar.
Muitas vezes quando a coisa ficava muito feia apelava-se até pra reza em conjunto.
E se era perto do natal cada uma levava um doce feito por ela a reza ficava doce.
Mãe muitas vezes rezava só eu já assuntei ela ali a noite inteira no pé de mim ou de um de nóiz rezando implorando pedindo e prometendo.
Pedindo cura, até no rozario ela pegava e seguia a liturgia sem saber a reza escrita ia mesmo era pela que tinha na cachola no decoro ou decorado.
Mexia com a boca pra enganar o santo que era letrada mas do escrito mesmo, sabia nada.
Sempre guardei comigo das reza dela a parte que me interessava:
- se acaso eu alcançar a graça nunca mais bato nela.
- se eu tiver a graça alcançada nunca que dou cocorote, beliscão.
Eu ficava esperando quase sugeria:
- promete que não rasga minhas pipa, não deita no mato meu cerol, nem rebola no vento minhas conquistas como burca, ossinho de clavícula da sorte, meu pião.
Melhor não senão ela desconfia, ficava só ali ouvindo as reza dela que um dia ia virar poesia.
Ela me amava.
Mas mentia também, bastava eu ter uma melhora e ela desjurava o que havia jurado que nunca mais faria e sem pena me batia.
E eu nem podia revelar que quando ela jurou, eu ouvia, que isto era segredo nosso, coisa de santaria, família.
Eu nem imaginava que isto ficaria no passado tão distante, que o capital tudo isto engoliria.
Mas ele voltou ao médico de família pra fazer ciúmes aos médicos dos 9 pecados industriais.
- panela que muita gente mexe ou sai cru ou sai queimado, disse um médico da indústria do corticóide, com ciúme.
Quando isto aconteceu eu já morava aqui no Cachoeira, bem de frente a minha casa mora a Graça da pizzaria.
Este fato se deu com ela e o dr.
- bom dia vim visitar Dona Francisca. Ela se encontra?
- sim dr. É minha tia.
- dr. Examina meu gato?
- não sou veterinário, senhora.
- mas é médico não é, então é tudo igual.
Ele é limpinho dr.mas é teimoso que só o danado deve ter comido alguma porcaria aí pela rua um rato envenenado um caco de vidro.
- o senhor sabe com é gato desobediente como filho e gente não segura, não governa.
- não sei como é gato, não sei como é seu gato nem como é ser um gato.
- mas de família o senhor entende né? examina o bichinho dr.
- a senhora está atrapalhando meu trabalho.
- to não o senhor é medico de família e dona Chiquinha é minha tia,logo o gato é subrinho dela, olha o gato dr.
- não olho, não olho, magina se ficam sabendo duma asneira desta como é que fica meu nome.
- ah fica bom não mas já não estava porque ca pra nóz é até bom que o senhor não veja meu gato.
- seu Eduardo mesmo é um projeto seu aqui da rua que não deu certo.
- vamos no veterinário fi.
Língua é um nervo sem governo mesmo né?