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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Ego

O ego - Victor Balde
O ego Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

05/12/2021 06h00

- Achei, achei!!! Eu sabia que eu ia achar alguma coisa suspeita. Substância branca no bolso da roupa de alguém assim só pode ser, eu não me enganei, sabia. Suspeito desde o primeiro momento. Sendo quem é e tendo a cor de pele que tem, não me enganei, eu sou um profissional, deveria ser detetive, se ainda fosse essa uma profissão de glamour. Vou registrar na ocorrência e mostrar pra chefia, ela com certeza me premiará por este feito.

- Rapaz, mas o que você achou afinal? - Pergunta o outro.

- A prova do crime dele.

- E o que é?

- Este pó branco não me engana, só pode ser...

Enquanto falava balançava o saquinho de plástico barato com algo branco em pó, os olhos dele brilhavam, faiscavam da certeza de ser ele alguém que o mundo deveria se orgulhar. Ele olhava o plástico como Narciso se admirava no espelho da fonte que o matou, em plena contemplação de si mesmo. Talvez desejasse até que a mãe dele o visse naquele momento, a gente está sempre querendo provar à mãe que valeu a pena o leite gentilmente cedido, mas isso já é neurose minha, deitada na neura do outro.

- Então você é um conhecedor do pó?

- Não, claro que não - falou recobrando o juízo e percebendo que de alguma forma ali perdera o controle da coisa.

- Sou um cidadão de bem, de família, temente a Deus, religioso presente.

- Então o que prova a você que este pó é o que você está pensando?

- Parece o que? Hóstia, pó de pirlimpimpim? De onde brotou em você esta entidade sabida?

- Do conjunto todo, sou um profissional, estou aqui a trabalho, eu sigo ordens e sou pela moral e pelos bons costumes, e os bons costumes me fazem conhecer coisas.

- Pelo que me consta, este corpo que você atropela e coloniza pra usar de escada e que está inclusive sem vida, e detalhe, está morto, tem aí um outro sinal importante. Uma fístula intra venosa no membro superior esquerdo, notaste Sherlock?

- Poderia ser uma queimadura ou uma cirurgia, entre tudo o que ele poderia ter sido daqui pra trás. Provavelmente ele era renal crônico, deveria estar vindo ou indo pra hemodiálise, já que estamos entre várias clínicas. Eu não sou tão profissional quanto você, nem religioso tampouco, tenho pinta pra ser um Sherlock Holmes, mas tenho experiência nesta área já que trabalho numa clínica de hemodiálise. Inclusive bem pertinho do lugar onde alguém que eu conheço fazia ponto, antes de formar-se. Muitas substâncias medicamentosas, inclusive, são brancas, processadas e finas como essa e são usadas por renais crônicos.

- Acho que você está querendo me enganar, pra mostrar sua sabedoria.

- Como eu enganaria um profissional tão certo de si, que estudou pra fazer carreira em cima de dúvidas sobre alguém que nem pode se defender. Todavia, tem algo que aprendi em casa e na escola, que a uma pessoa morta devemos respeito seja ele o que tenha sido a momentos atrás, agora ele está morto. E alguém irá averiguar o conteúdo do corpo dele daqui a pouco. Vou sugerir ao grupo que deixemos o corpo em paz, seja lá o que for esta substância, ela não é mais importante pra nenhum de nóiz nem pode servir de plano de carreira.

E foi assim com esta frase que o caso se encerrou e o corpo foi encaminhado ao IML para autópsia. Isso é, inclusive, um protocolo, eles lá que escarafunchassem pra fazer ali o corpo dizer o que lhe roubou o sopro de vida. Naquele tempo eu nem tinha o pensamento que o sopro de vida nos é roubado a todo momento, mas ali eu fiquei exposta a dois aprendizados, o da especulação onde alguém busca algo que lhe eleve o ego usando a frase "estou cumprindo ordens, sou um profissional", e o da voz da consciência dizendo "poderia ser eu ou alguém que eu amo". Qual caminho você seguiria?

Houve um tempo que eu diria que a verdade está acima de tudo e de repente misturava ficção e realidade. Achava lindo saber que Darthanhan, um mosqueteiro, casou-se com seu grande amor e na noite de núpcias descobriu que ela tinha um sinal de maldição, uma marca que a condenava à morte. Ele não teve dúvidas, chamou o exército do rei e entregou a morte a pessoa que ele mais amava, pela vida afora essa tal verdade bateu à minha porta.

Leandro ganhou um concurso de arte, o prêmio era uma viagem ao nordeste, a professora e a direção da escola tentou colocar outro Leandro no lugar do meu filho, um Leandro branco. Ainda na escola, anos depois, Leandro fez um desenho para um trabalho de artes de Tiana, minha filha, e a professora adorou. No próximo ano, fazendo o próprio trabalho, ele desenhou desta vez para ele, a professora disse que ele usou o desenho da irmã e negou a ele a nota. O desfecho foi ainda pior, enquanto eu falava com ela na sala dela, ela olhou pela janela e gritou com alguém: "Não vá roubar meu carro!" A criança lá fora era Evandro, tudo isso numa única tarde. Há se a gente enumerar todas as qualidades destas gentes de bem católicas que nos perseguem a todo custo, sem trégua, só pelo seu excesso de competência, haja espaço!

O fato do hospital foi em 1994, estava eu, formada e exercendo minha recente profissão de auxiliar de enfermagem em certo hospital, Evandro enchia minha bola e dizia na escola que eu era médica, naquele dia chegou até nós o corpo de um rapaz negro que desmaiara ali pertinho e fora socorrido ao PS, porém vindo a falecer. Eu, recém formada, na minha ignorância, entendia não sei porque que ali estávamos pra impedir que ali se estabelecesse a morte. Ficava assombrada a cada óbito e me sentia inútil naquela profissão, chegando a sentir vontade de largar tudo e retornar a antiga função. O setor que eu estava escalada naquele dia era responsável por encaminhar os óbitos após ordem dos superiores, e também colher fatos para elaborar o documento sobre o ocorrido. Antes de encaminhar o corpo para análise, já que este havia falecido na rua, tínhamos que seguir os protocolos, encontrar documentos e possíveis bens, tanto nos daria um parâmetro para avisar a família e construir ali uma anamnese, fazer um breve discurso sobre os fatos. Ao averiguar as vestes do rapaz, um colega encontrou algo que que julgou suspeito, um saquinho plástico contendo uma substância branca, um pó ou talco. Imediatamente anotou num papel indivíduo portador de cocaína". Um outro colega mais sensato, ao ver aquela atitude, perguntou: Você é usuário? Porque somente um usuário reconhece assim a primeira vista. O outro, entusiasmado em ter encontrado a causa morte do menino, ficou calado e ofendido.

Pude perceber isso porque nos dias que se passaram constantemente ele sempre que podia tentava macular o saber do outro, afinal de contas pra que identificar um paciente negro como usuário, seja lá de que, se ele já esta morto, por que? Se não chegamos antes para ajudá-lo, melhor que deixasse ali com ele a história e as culpas dele se ele as tivesse.

Naquele tempo eu não entendia nada sobre racismo, mas mesmo assim já me doía nalgum lugar, e já naquele tempo pessoas como este rapaz escreviam nas paredes:

"Para este hospital melhorar é preciso matar um negro por dia". Frase que me abalava, mas não me afetava, eu era parda. Muitas coisas aconteceram naquele lugar, porém este fato nunca me saiu da cabeça.

Anos depois, eu me tornei renal crônica e passei a tomar carbonato de cálcio para quelar fósforo, era de novo a história vindo parar na minha mão. Um dia, dois colegas de hemodiálise foram recolhidos à delegacia porque numa abordagem policial eles tinham entre seus remédios um saquinho com um pó branco. Naquele mesmo tempo, numa ocorrência onde uma criança engasgou mamando, um expert em pó identificou como sendo cocaína um pouco de leite em pó, a mãe foi recolhida ao presídio sem direito a defesa e lá dentro da cadeia sofreu todo tipo de molestamento, porque foi acusada de matar o filho com cocaína, foi preciso aguardar análise do pó pra saber que era leite em pó, mas o policial estava cumprindo ordens? Não ele servia o seu ego.

Quem sabe a primeira vista o que é talco, leite, bicarbonato ou cocaína? Quem os ensinara? Quer uma resposta rápida? O ego. Colhidos pelo absurdo da guerra que vivemos, seres humanos comuns tornam-se imunes ao horror no outro. Desenvolvem a capacidade de fechar os olhos às atrocidades ao seu redor e se convencem de que não tem nenhuma responsabilidade com seus próprios atos. Desconhecem aquele aprendizado indígena que: "Uma pedra jogada na água aqui, hoje, atinge distâncias que a gente nem imagina". Se eu for enumerar aqui quantas vezes minha pele ou de alguém próximo foi posta a prova porque alguém usou seu profissionalismo e sua capacidade duvidosa adivinhativa, talvez você se surpreenda. O que me alivia é saber que muitas vezes conseguimos sair da cilada, já que estou aqui relatando os fatos. Tendo mais de meio século, vivi pra saber que os ciclos se fecham e cada um paga por seus atos. Não sei como você trabalha com seu ego, quem manda, quem domina a situação, mas continuo fazendo uso da frase: "É da lei na natureza que a dívida anoiteça e amanheça com o devedor até que ele ou ela a pague".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL