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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Orunmilá A Filosofia

Orunmilá A Filosofia - Dona Jacira
Orunmilá A Filosofia Imagem: Dona Jacira
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

28/11/2021 06h00

Odù Ifá

- Parecida, ispia - O recado sempre vem quando a gente nem espera.

- Assunta Paricida - Era assim que ela dizia.

- Eu tava na sala quando a luz acendeu, apagou, por esta luz que me alumeia neste instante, por tudo que é mais sagrado, isto se deu comigo de quando eu morava mais dentro dos matos. Eu me arrupiei todinha, da cabeça ao calcanhar, num era de medo da assombração não, que esta não faz mal a vivente nenhum.

- Era a passagem. Foi o medo da realidade, eu tinha já motivo pra sofrer de ausência e cuidado, era medo da realidade bater à minha porta, sabe? Será se Deus fazia mesmo isto comigo? Faria. Pensei comigo: ela descansou! E nem sei que lua que era, a lua nem faz caso com a gente. Nem sei de certeza se meu problema é com a lua, entra lua, sai lua e eu sigo, todo dia é dia de guerra, quantas luas, quantas guerras farei buscando paz? Enterrando sonhos e jaz.

- Lá nas brenha parecida a gente antes de morrê tem de fazê um tantin de prosa, é a poesia da morte, sabia? Todo cristão tem disto desde que o mundo é mundo. Uma pausa pra me perguntar: Como poderia eu ser alimentada neste cenário e não seguir aluada, bordadeira e escritora? Um instante antes de entregar a alma ao criador a gente faz uma pausa e viaja pra chamar alguém, um parente, um vizinho, pra cuidar do corpo. Senão os urubus investem sobre a carne morta... Carcaça.

Pensando bem, é alimento que o corpo vira, que é também um jeito que o criador deu pra dar jeito na fome e no que não tem mais nem jeito, carcaça é continuação, sabia? A terra é cheia de gente que tem fome e usura.

- Eu fui à casa dela, minha fia, fui sem querer ir, minhas pernas me levaram, e era verdade, a luz não mentiu, era fato. Já vinha de cama já há muito tempo, levantava mais pra nada, nem falar falava, ou abria o olho. Lá dentro dela o mal, bem quietinho feito aranha, ia tecendo, ia ganhando espaço e ela murchava feito planta que dá broca na raiz, viva, mas morrendo. Foi perdendo ânimo, a vontade de ter vontade, suspirava pelos cantos, num dava um passo sem suspirar, até que as pernas quietaram. Coisa triste, Parecida. É, a gente vive sem tá mais vivo, presente. Coisa doida é ver alguém lavar a gente, buli nos íntimos, sem sentir, sem existir. Precisava mais de nada, nem água, nem comida, só um cantinho que de paz tava repleta. Aquela pessoa tão altiva da juventude não existia mais, parecia que todo dia a vida se ia dela, ela se perdia do sopro. O Castigo maior ainda é uma mãe assistir a partida de uma fia. Eu morria também um tanto, eu sabia que haveria de ser eu a fechar os olhos dela, enterrá-la e dar criação a meus netos. E não tinha doutor, remédio ou reza que adiantasse, só a da conformação mesmo, tava só esperando a hora mesmo.

- Eu buscava conformação, sou mãe e não concordo com esta crueldade de Deus. Embora tivesse em mim uma esperança que esta nunca morre, mas a dor hoje eu nem sei dar conta, bendito esquecimento. E angústia mesmo nem era de enterrar, era de salvar as crianças de ir parar em mãos de estranhos, vendidos pelo próprio pai que já fazia planos com ela em vida: "Quando sua mãe fechar os olhos, fizer a passagem, eu talvez escolha um de vocês, o mais graúdo, pra me servir, os outros já tenho endereço". Quando cheguei, fiz menção de contar as crias, que eram três, e já ali faltava uma, a caçulinha. Ficou em mim a frase que ouvi muito dela: "Mãe, cuide que meus filhos não se separem, mesmo na pobreza, é preciso ser criado perto da família". A caçula já havia seguido seu destino, dada ou vendida à sua própria sorte, e reencontrada em rancharia mais de trinta anos depois, tinha sido bem criada era formada professora. A bisa já tinha partido.

Antigamente a gente não rebanhava pra ouvir histórias, elas vinham aos pés e ouvidos de nóiz. E não é de hoje que a gente segue assim e vive, eu estou vivo e formando outras vozes. Vivo sem norte, vivo sem sorte, mas vivo. O fato é que eu ali, ouvindo e sem saber nenhum da vida e desaforada feito a ignorância, não perdia uma oportunidade. Eu disse:

- Sei, ela encostou no interruptor sem querer e a luz apagou e acendeu, o resto é balela.

A bisa se encantou, e eu segui, agora a tesoura estava na minha mão, as silabas na minha boca e a sala ali. Era ali que eu teria ciclos pra fechar, era ali ou aqui que eu aprenderia e escreveria minha própria estória. É da lei do universo que a dívida anoiteça e amanheça com o devedor, até que ele pague.

Muitas luas depois, eu agora casada e separada, e já com 4 filhos, é uma situação bem parecida com esta da tia morta em questão. Descrente de tudo, ex-vota, desdenhosa de histórias encantadas só o capital me cativava e até meus saberes e fazeres eu havia deitado as traças. E só a loucura me consolava e acalentava agora, não mais a vontade de enriquecer, mas sim o ideal de não passar fome e ter um lugar pra morar que fosse meu. A rua me ameaçava, eu me agarrava a última tentativa, e antigo sonho, os estudos, ainda que pra nada servisse, dissipava a ignorância, já era um trato.

Nesta época, tive aí uma conclusão de ciclo estudos reais da vida, uma amiga minha, que havia namorado um rapaz já há 15 anos e havia tido um filho com ele, se via com problemas com o mesmo que agora era alcoólatra e dava muito trabalho. Ela desfez o relacionamento, mas ele não aceitava, e todo dia vinha do Joamar, já bêbado, sentava na calçada e ali chamava ela pelo nome e cantava tudo quanto era canção de entristecer, destas que chamamos "música de corno", tadinha da minha amiga e seu filho, não mereciam isto. Naquela época ser alcoólatra era coisa que quase todo mundo era e nem se explicava, mas falando do rapaz que quase todo dia bebia e vinha dar ali na rua dois, hoje Lucas Alaman, ele era incômodo e invisível, ali entregue a sua própria sorte, ele era alvo da molecada da rua, que faziam dele, a bem dizer, gato e sapato. Não conseguia mais ir até o portão da casa de sua ex-amada e ficava ali pelo meio do caminho. Eis que um dia, se não me engano uma quinta feira, ele conseguiu romper o caminho e tentou subir o escadão que separava uma rua da outra e Dionísio passou nele uma rasteira e ele caiu lá de cima batendo o corpo com força no chão, estas feridas sempre marcando as passagens da vida. A gente fez o que pode, chamamos ela? Não, chamamos a assistência que o levou pra São Luiz Gonzaga que era o lugar mais próximo. Nossa vida voltou ao marasmo de sempre, pra nossa filosofia de bons alcoólatras que ainda escondem seus vícios que hão de revelar um dia pra delírio nosso. Jantamos, deitamo-nos e dormimos. De repente eu acordei e algo estava estranho, uma ventania no quarto me dizia que tudo lá pra baixo estava aberto, mas como assim? Eu deitei e não chequei as maçanetas? O vento era estranho e gelado, as janelas batiam, mas na minha casa tinha vitrô. No meio desta coisa toda eu ouvi passos, alguém passou por ali, viu a porta aberta e entrou ou ainda arrombou e está dentro, um ladrão, será? Os passos subiam rumo ao quarto, eram três degraus, três longos degraus, os passos rompiam e eu não conseguia assuntar se era sonho, vida ou medo. Chegaram ao quarto um corpo ou um vulto, seguiu e se sentou ao lado do sofá cama onde minha filha mais velha dormia, não sei precisar, estava de olho cerrado. Ele vai mexer com ela, eu preciso reagir, preciso acordar. A TV de meia tela dava sinais de que ali nada tinha pra ser roubado, consertado talvez. Um fato interessante era que eu tentava lembrar uma das muitas ladainhas que aprendi e forçadamente a decorar no catecismo, sem sucesso, fato que sou agradecida. É difícil se livrar destas condenações cristãs, os passos silenciaram e pra minha admiração uma voz começou a entoar músicas. Ora, eu conhecia aquelas músicas, de algum lugar não me era estranho, lembrei, o namorado de minha amiga cantava elas na calçada, foi lembrar e acordar. Escuro e sinistro é acordar de um pesadelo, olhei no relógio era duas horas da madrugada, não senti medo, senti vontade de levantar e ir fechar as portas, acendi a luz pra assustar o visitante e ele não estava ali. Fui até a cozinha e tudo estava em paz, só uma coisa estava diferente na minha luta entre acordar e reagir eu lutei com minhas forças, com as que tinha, eu estava ensopada, toda molhada, dos pés a cabeça. Chegava pingar, eu e Evandro, que dormia comigo, estávamos suados e encharcados. Tomamos um banho, troquei a roupa de cama, os outros seguiam dormindo, até Evandro, todo molhado, dormia. Após ver que tinha sido um pesadelo, e dado a mim os cuidados, voltamos a dormir e dormimos bem, Iansã varreu de mim qualquer susto. No dia seguinte, sexta-feira, eu estava na minha barraca de tempero na feira, era por volta de 12 horas, chegaram ali pessoas da minha vila me perguntando se eu iria no enterro do namorado da colega. Naquele tempo a gente ia a todo e qualquer velório do enunciado até a derradeira pá de terra, isso quando não ia fazer companhia a família pós-ritual, sempre achei que a volta pra casa depois do enterro é quando a família precisa de velório pra aplacar a dor da solidão, alguém pra acompanhar o choro sincero da perda e da forma. Levei um susto:

- Ele morreu?

- Sim, noite passada, às 2 horas da madrugada.

Eu levei um solavanco, lembrei da noite passada, mas não tinha coragem de contar, a gente é desencorajado pra coisas de encantaria, mas pra dentro de mim fechou-se um ciclo. Aquele de dar crédito às coisas que estão perto de nóiz e não vemos por que elas sempre existiram. O rapaz veio cantar pra mim sua última canção, talvez tenha visitado mais gente que guardou o segredo como eu, pra não levar tachamentos. Eu recebi um encantamento, uma prova que existe sim vida que não vejo a dar recados, ali paguei uma dívida, lembrei de uma vez que minha bisa, ali naquele quintal, contou que a luz acendeu e apagou, voltei no tempo, onde ela morava nem havia eletricidade, então foi verdade a luz acendeu e apagou. Eu senti arrepiar todos os pelos do meu corpo tardiamente e sinceramente. E nunca mais descri do sagrado, hoje temo bem outros pecados, os sete pecados industriais, eu tô vivo, apesar de vivo sem norte, vivo sem sorte.

Política, educação e arte estão sempre à nossa volta em casa, eu vivi muitos encontros filosóficos ali entre as filósofas da minha linhagem. E caberia a mim tocar a frente as histórias de família, quem recebe o dom deve levá-lo a frente, por muito tempo eu vivi a inexistência porque me ensinaram na escola que aqui no Brasil não semeia nem colhe filosofia. Eu vivia filosofia emprestada das princesas mal diagramadas do senhor do ocidente, maculadas pelos irmãos Greens, tão verde ainda pra vida, hoje não mais. Orunmilá foi uma pessoa que existiu e produziu filosofia, ambiente e condição humana em conexão se relacionam sempre, afeto é uma ideia, e os elementos da natureza, afetos de fogo, afetos de ar, afetos de água, afetos de terra.

E esta composição afetiva de Odù Ifá, um sistema de dezesseis Odus, dezesseis caminhos interligados por eles próprios desaguam em duzentos e cinquenta e seis possibilidades de composição de uma pessoa, de um sujeito no mundo no seu ambiente. Tem sempre quatro ruas nas encruzilhadas da vida, se entrecruzando com os quatro elementos, e são carregadas de afeto assim como os sujeitos que a atravessam também são carregados de afetos. A filosofia Orunmilá propõe uma cartografia, um mapa existencial da nossa locomoção, da nossa relação com as coisas. Afetos flamejantes, afetos caudalosos como cachoeiras, afetos vendavais da paixão, afetos de medo, afetos de areia movediça em que a gente afunda, afetos de terras firmes onde a gente consegue caminhar em segurança com uma autorização interna e externa do mundo pra caminhar em vias de afeto. A ciência como afeto é uma proposta de autoconhecimento, caminhos, possibilidades gustativas e paliativo da narrativa mítica, o exercício de fazer comida é sensorial, podemos temperar relações e alimentos com nossas iguarias e perfumes mais azeda, doce, amarga. A partir desta narrativa podemos pensar o mapa dos afetos pra equilibrar o axé, entender os conflitos, interior e exterior, para fazer o que for preciso pra equilibrar a nós mesmos. E assim agradecida às mulheres do Ataliba que me alimentaram de perto, eu proclamo o que seria de mim sem estas mulheres, sem estas histórias, sem os mistérios, sem Orunmilá. Axé.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL