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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Passagem

Passagem  - Victor Balde
Passagem Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

31/10/2021 06h00

- Sua mente é extraordinária, você é dona de uma inteligência ímpar, mas está desfocada. Se concentrar em algo que gosta fará você ser mais dedicada e constantemente mais feliz talvez, menos patológica. A academia ensina que devemos aplicar remédios para aplacar a depressão, não duvido que a certos casos eles se apliquem. No seu caso eu indico belezas, sonhos e viagens, sem sair do lugar até, ou não. A cada perda que tiver, ocupe o lugar com levezas de coisas que goste.

Palavras de um psiquiatra dirigidas a mim, tempos idos.

- Está tomando remédios pra dormir?

- Sim Dr., Fluoxetina, Diazepan.

- Me fale sobre eles, o que sentiu quando começou?

- Comecei bem cedo, doutor, ainda criança, levada que fui ao médico por indicação da escola porque me chamavam histérica toda vez que eu me recusava a lavar banheiros, pois eu queria escrever e não deixavam. Toda noite minha mãe me oferecia uma balinha de noite e eu tomava e gostava, porque também me desligava de um mundo que eu não compreendia. Um dia não quis mais a aventura e passei a empurrar a balinha pra baixo da língua e deixar descer só a água, sou curiosa, queria saber o que fazia o mundo enquanto eu dormia. O mundo falava de mim e não era bom o que eu ouvia. Saudade de minhas bolinhas de gude, pipas, escritas, o que tinha de mau nisto? Mãe medrava que eu fosse minino. Com o tempo troquei os remédios pelo álcool, velho companheiro, sou solitária como a alma de todo escritor que busca solitude, mas eu cresci, tomo Fluoxetina há pouco tempo, porque sofri um transtorno, levei um chifre. O caso é que este remédio além de me incitar a querer morrer, quando o certo teria que ser simplesmente me livrar da ruína, ainda me tira atenção. Na verdade eu deveria mesmo era ter posto outro chifre de volta, mas fui domesticada para desenvolver o dom da santidade, amor e obediência para com os demais, andar em farpas sorrindo e a tudo agradecer. Nem sei o que me dói mais, se o chifre ou se a forma cruel que aprendi sobre amor. E se fosse eu? perguntei ao espelho mil vezes e ele não respondeu. Fui feita pra viver a vida, meu espírito é verdadeiro e eu não perco uma peita, sou filha do vento. Pra amar, trabalhar, sorrir, chorar e brigar, tô dentro! Mas sou um prato cheio para os inimigos, sou desligada de sorte que minha loucura não deixa meu juízo apodrecer. O que faria meu coração cativo se acaso um amor, paixão, uma destas fuleragem, que Exu manda, não me socorresse de vez em quando, bulir comigo. E se fosse comigo? Duvido que eu não embarcaria, não nasci pra perder, tampouco deixar passar. Se o coração bater, tô dentro, depois vejo no que dá, mas agora estou de personagem, querendo que dê certo, nem sei o que, nem pra quê, nem sou mais de primeira viagem, e sempre falei a todos os ventos que traição se acerta com pancada, vingança e pimenta. Pois se foi assim que fui educada cá no Ataliba, nas nossas encruzilhadas, agora fui pega na minha mentira, congelei, o poeta está certo, não sou proveito, só fama mesmo.

A vergonha que senti deixou-me doente, com isto eu não contava. A boca calou, mas a cabeça só cobra: Vinga-te. Como seguir como se nada tivesse acontecido, o corpo marcou-se todo de manchas por fora. Era só o que me faltava, as marcas são minhas, por que? Como se eu não ligasse as juntas enfraqueceram e aqui e ali eu caía, pra dentro de mim eu morria. Aí precisei de ajuda externa, aí a indicação do remédio, eu relutei até mesmo de vir aqui até o senhor, não sou louca.

- De onde eu venho a gente se aconselha umas com as outras, mas o medo que os olhares me devotem pena da mulher doente e traída me fere a vida. Daí achei melhor aceitar ajuda, tomei o remédio e vim cá ter com o senhor. O senhor já foi traído, se abra comigo, já sofreu de amor, já teve este nó no peito. Quem cala consente doutor, não mente, já se viu nesta situação, já traiu alguém?

- Na verdade não sei dizer, me pegaste de surpresa, sempre achei que pra ser feliz teria que ter mulher e piscina, hoje não investiria em nem uma das duas. Dá muita despesa e muitas caixas de remédio e tédio. Mas vamos falar de coisas outras, senão seremos dois a precisar de ajuda e eu não trouxe lenços que baste para falar deste amor. O que sentiu com o remédio?

- Primeiro foi a bula, nela escrito está que pode me induzir ao suicídio e eu não quero morrer, quero que morra em mim a angustia da derrota. Por três dias tomei meio comprimido, bem receosa, e senti o efeito. Tive um sono muito leve, frágil, o corpo ao acordar não obedecia os movimentos da cabeça. Quero fazer café, escovar os dentes e quando vejo minhas pernas vão noutra direção, boto a chave aqui e esqueço, tiro as sandálias e pereço, mas a raiva, ainda que atenuada, vai no meu coração. O que me salvaram mesmo foram alguns amigos que de visita à minha casa tentaram me distrair. Numa festa, uma reunião com amigos em que alguém contou uma piada eu ouvi atentamente e não entendi no momento, seria efeito do remédio? Era. Eu ri no terceiro dia, foi quando entendi, não me aflige por ser a piada, mas porque tem assuntos que eu preciso de resposta imediata e ela vem em três dias? Isto é loucura?

- E o Diazepam?

- Este não serve pra mais nada. Lexotan, Rivotril nem me coçam, só me atrasam. Afinal de contas, chifre não mata, mas o remédio caleja na tristeza, bom mesmo foi pôr as cartas na mesa e devolver a liberdade ao outro, isto é que nunca me pertenceu, foi uma mentira que a igreja me contou. Eu gosto que me digam o que quero ouvir até...

- Você já pensou em não tomar mais remédios como estes? Porque chifre nem patologia é, e se por acaso for a patologia nem é sua, você foi provocada por ele. É errado tomar remédio sem saber o que se tem. Você estuda, trabalha, se diverte, tem amigos?

- Hoje, conversando com espelho, a imagem destes três seres importantes na retomada da minha vida me visitam. O médico da hemodiálise dizendo que não acredita em terapia e homeopatia: "Você dializa pra viver não pra sofrer". O Dr. Ricardo, um psiquiatra que foi decisivo na minha decisão de confrontar a medida do nefrologista e deixar de tomar calmante e viver e resolver meus problemas internos como verdadeira terapia, e porque não integrar-me a leitura psicanalítica por meio de um profissional. E Eduardo, que entrou com o chifre que levei. Às vezes o que a gente pensa que é o fim é só recomeço. Tem frases que são pra vida toda, por isso uso sapatos voadores, porque a vida é um eterno subir e descer. Eu e o nefro ficamos de mau, porque ele queria ser obedecido e bateu na porta errada, mesmo com todo respeito que eu tinha por ele. Dr. Ricardo só orientava a distância, pare com isto antes que vire vício, que seja tarde. No caminho algo travou e tomou outro caminho, o nefro deixou de me encaminhar ao psiquiatra, uma tragédia desviou meu olhar, Tiana teve tuberculose e ficou na UTI por três meses. O Dr. Ricardo estava certo, às vezes dor mesmo é outra coisa, chifre não dói, quase perder a filha sim. E aí a pergunta do doutor reverberava pra dentro de mim a todo instante: o que é um desconforto de uma traição diante deste novo quadro? Foram três meses que precisam de um outro livro que dividi com outras mães, pais e avós nas portas do centro cirúrgico, UTI e centro de recuperação. Sabe quem passou comigo além de minha família? O Dr. Manuel nefrologista, pessoalmente. Quando Tiana ficou fora de risco, eu fui tratar de mim e entrei para o teatro de risoterapia. Ali conheci um outro psiquiatra, o dr. Ajax, na biblioteca, falando sobre mitologia grega, eu me apaixonei pelo trabalho dele e esqueci as dores, eu renasci. Ele me indicou estudar contos, eu viajei neles, para sobreviver a tantos altos e baixos seria necessário dar voz a mim mesma e comer melhor, deixar de tomar conselhos com a ansiedade e com o grande animal que se chama depressão. Desde então não me lembro de ter retornado a posição fetal como acontecia esperando que alguém viesse pegar minha criança pela mão e salvá-la, fui parar numa cafeteria com o senhor Domingos Calheiros, daí pra Amadou Hampâté Bâ foi um salto. Para que meu ancestral dê um passo em minha direção é preciso que eu queira, Exu traçou o caminho, ninguém separa uma estrada que está traçada. Ah! Infelizmente, ou felizmente, o Dr. Ricardo perdeu a função renal e veio fazer hemodiálise no mesmo horário que eu. Viramos amigos por algum tempo, eu lúpica e ele diabético, passamos a trocar informações diariamente durante as sessões de diálise. Ele tinha medo de comer, eu de viver, chegava muito debilitado no HC porque tinha medo de comer e passar mal. Eu sempre tinha uma balinha pra dar a ele nestes casos até que ele aprendeu a se alimentar, nos alimentamos ali, agora não mais como paciente e médico, mas como pessoas. O tempo de Dr. Ricardo chegou e ele se encantou, mas deixou ideias; "Voce é muito inteligente, invista nisso, estude você".

Agora já era um professor, quem dizia:

- Escreva sobre a sua faculdade.

- Eu não tenho faculdade.

- Como não? Sua vida é sua faculdade.

Foi aí que retornei ao largo, em frente à casa de Dona Xica Mixirica (mãe), a escola e a escolha tava feita! Dali resgatei meu moleque Nico Piquininico, as pedras da rua me disseram:

"Toma-te a si mesma e viaja na linha do teu tempo. Toma atalho nos becos, vielas e olhe pra dentro daquele poço que nem existe mais, viaje para aquele larguinho que ficou pra trás, estude a si, que importa o que dizem os demais. Que se lasque o invejoso e aquele que vive nas amarras de satanás. Nada ali te pertence, a não ser o acolhimento do tempo e no tempo, é que na viagem às pressas eu quis ir com você, mas você me esqueceu."

Volta lá volta, ainda estou ali vivo e serelepe, o mesmo menino teu. Salva-me enquanto é tempo, e salva-te a ti também, faça o que quiser, eu sou a tua memória, eu recordei, foi aí que achei o meu livro: O café. Que venham os ventos, que ventem, uma mulher que se encontrou consigo no mesmo lugar não quer guerra com ninguém, nem seu amor tampouco, eu não vou por aí, mas não faça barulho, acorde meu orgulho, ele dorme por todos nós.