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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sabe

Desconhecido
Imagem: Desconhecido
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

24/10/2021 06h00

Continua…

Dizia eu que Nills, este pequeno polegar, encolhera… Depois de uma de suas traquinagens, eis que ele recebe o tapa do duende que o encolhe, agora ele seria mais um bichinho entre as traquitanas do quintal. Seu castigo seria sem sair de sua casa, não poder voltar para ela. Nills, quando se tornou minúsculo como um polegar, sentiu na pele e no corpo a humilhação que lhe infligiu os seres menores que ele, no passado de minutos atrás, perturbou.

Era um menino perverso que adorava atacar os mais fracos, mas agora o vulnerável era ele. Como era mesmo aquela parte do sermão em que Jesus chamava para si os pequeninos? Fazia já bastante tempo que ele não voltava pra casa? Quanto se arrependia em não ter se interessado pelo sermão, é que nunca achou que necessitaria, desde o último dia que foi grande. Agora vivia ali, entre os gansos selvagens do mesmo quintal que por sorte ou necessidade se afeiçoaram a ele, em algum momento a providência faz brotar no coração duro um pouco de leveza e comprometimento mesmo que baleado pelo medo. Ali, entre os emplumados, aprendera tanto ou até mais do que aprendera a vida toda, a necessidade e a pequenez moldaram o coração dele e agora ele até fez amigos, tornou-se educado, deu de reverenciar as aves mais velhas e aprender com elas. Finalmente, ali, se realizara um sonho de seus pais, que era banir do coração dele a maledicência e o apavoro de ser mau agradecido, e a tudo pagar com novos pedidos sem nunca agradecer. No início foi difícil, pois ele se sentia grande e superior, mas ainda era cheio de maldade, entretanto foi salvo por uma boa ação. Ele fez um favor e salvou a vida de um ganso selvagem e foi aceito entre eles agora também nos passeios, a ponto de seguir no bando como se fosse ganso. Um dia, Enemerique, um sábio mais antigo, o convida a dar um passeio até o mar e ele aceita, a noite estava quente e enluarada, a lua cheinha o aguardava lá no alto, ele pode quase tocá-la, passou bem pertinho dela, ele aceitou o convite contanto que depois o trouxesse de volta. Sobrevoaram toda cúpula celeste, quem olhasse naquele momento poderia vislumbrar, na grande esfera redonda, um pássaro em negrito com um menino mini no dorso. Chegando na praia, era tarde, e a ave sugeriu que ele fosse esticar as pernas enquanto ela tirava um cochilo, andando pela areia ele sentiu que seu tamanco esbarrou em algo, era uma moedinha minúscula, enferrujada, e num ato de liberdade ele chutou-a para longe, o chute foi intenso e chutou o cenário todo. Quando fez isso o mar desapareceu e ali surgiu uma muralha imensa,

- Deus, mas que muralha tão bela!

Ele não teve medo porque a muralha era muito bonita e ele era curioso à beça, contornou a muralha de pedra e descobriu dentro dela uma cidade ainda mais linda. Já na entrada, dois homens guardavam os portões majestosamente trajados com roupas repletas de brocados feito roupa de rei, jogavam cartas com tanta atenção como se ali apostassem a jogada da vida que nem viram ele entrar na cidade. Homens e mulheres, cada qual mais elegante que o outro, caminhavam de lá pra cá, ele sentiu a beleza do lugar e a necessidade de apressar o passo para ver toda beleza antes de voltar. Seria isso a tal essência que Exu da as almas antes de virem a ser os brocados, são enfeites, adornos?

Era tudo tão lindo que ele se esqueceu um tanto de sua própria tristeza e se sentiu feliz, a felicidade estava estampada no rosto de cada pessoa que ele olhava, inclusive ali seria um bom lugar pra morar, mas ele tinha que voltar a crescer, ainda buscava o encantador pra reverter ao tamanho normal. Mas voltar para onde se agora vivia entre os gansos? E era um minúsculo, minino que cabia debaixo debaixo de suas asas como uma pulga de ganso. Voltar, sempre é preciso voltar a algum lugar. Todo mundo quer um lugar para retornar. Para isto, é sempre bom deixar a porta aberta ao sair, só na taramela.

No portão de uma mansão adornada com eira e beira magníficos, uma mulher tecia e trocava palavras com outra que bordava com fio de ouro, trabalhavam e falavam sem tirar os olhos do ofício, coisa maravilhosa é a prática, ele achou. A passos dali ele encontrou artesãos de toda sorte de ofício que artificiavam na rua, senhoras laboravam sem parar de conversar ao meio fio de suas portas enquanto seus rebentos reinavam e voltavam ao pé de si. Na janela de um estábulo um contante entabulava histórias enquanto os de dentro amolavam suas catanas e foices, saudade de quando sua mãe o cativava com carinhos e agrados, saudade dos doces que ela fazia e que ele comia com desdém, saudade de lamber a vasilha. Ah se puder voltar um dia!

O oleiro fazia potes e tijolos, o sapateiro pregava solas, o leiteiro ordenhava uma passiva vaca, as vacas sempre são passivas. O ourives fervia o ouro enquanto ao lado se fervia o azeite, o vinho era embarriuzado a olhos nus, diante dos provadores. Padeiros brincavam com a mão na massa, pizzaiolos rodavam seus discos ao ar sem errar, o disco subia e retornava a cada dono. E os perfumistas então, que fragrância maravilhosa de baunilha que se espalhava pelas ruas, um cheiro de paz. E o cheiro das cozinhas exalando de dentro das panelas, chegando bem perto podia ver o que cozinhavam cada senhora daquela, as lavadeiras entoavam cirandas e batiam as roupas na pedra enquanto quaravam outras ou chupavam bagas de cana. Precisou sair de seu mundo para entender como o mundo do saber era belo e necessário. E os hortelões e hortelãs com suas cestarias repletas do fruto de seu labor, mostravam como a vida era bela para além dos sermões e sinagogas, as doceiras então exibiam seus manjares e cocadas ali nos seus tabuleiros. Uma filha de Yansã fritava acarajés entoando cânticos africanos, era odara demais. Ele pensou que se acaso tivesse tempo ou fosse dado a ele voltar ali, poderia aprender um ou mais ofícios só de olhar. Sentiu que precisava ir ainda mais rápido, porque era véspera de páscoa e é neste dia que todas as bruxas retornam para casa, ele até acreditava em fadas, mas em bruxas nunca botou fé, no entanto, agora a ideia de voltar para casa era interessante mesmo sem acreditar. Depois de caminhar muito rápido e até correr, deu início as despedidas, não conseguiria ver tudo num único dia. Andando devagar agora se viu sendo notado, um comerciante oferecia lindos panos de seda pra ele, e mais um outro comerciante tentava atraí-lo para sua banca, parecia até os dias de hoje, que acabando o isolamento e o home office, todos saíssem à rua com seus rentames de outrora a vender, trocar ou só a saber como estavam os demais. Ele não tinha dinheiro e mesmo sem vender aquelas pessoas já eram muito mais ricas que ele, num momento, um vendedor colocou a sua frente uma montanha de tapetes, vestidos e potes, ele enfiou a mão nos bolsos e desavesoou-os para mostrar que não tinha um vintém, o vendedor mostrou a ele uma ínfima moeda e acenou se acaso ele tivesse uma moedinha mesmo velhinha tudo ali seria dele.

Outros vendedores conseguindo enxergar ele assim tão miudinho, ainda somaram bens aos daquele monte, muito mais peças, muito mais. Mas ele não tinha dinheiro, nem sequer uma moeda. Ele queria ajudar aquelas pessoas a fazer negócio, lembrou da moedinha que havia chutado na praia e correu pra lá, e não é que a moeda estava esperando por ele. Não foi difícil encontrá-la, mas quando ele a pegou nas mãos algo aconteceu, a cidade maravilhosa desapareceu diante de seus olhos, agora só o majestoso e imenso mar retornara. Enemerique já o procurava e o encontrou, meio que sem sentidos achou que como os gansos o miúdo dormia de pé. Ele contou o que aconteceu e a ave achou que fosse um sonho.

- Não, não era um sonho, eu toquei e fui tocado por eles todos.

- Bom, já que você diz que viu, eu conheço uma história que o corvo me contou sobre uma cidade que era mesmo isto que você viu. Era magnífica, segundo o corvo que é a ave mais sabia que conheço. Nesta cidade todos eram bem sucedidos, tinham e produziam tudo o que queriam e precisavam. Mas ficaram orgulhosos e soberbos ao extremo e desprezavam a natureza e aqueles que julgavam menores, nem permitindo que ficassem na cidade entre tanta beleza. Eram escravizados longe dali. onde todo tipo de dificuldade era presente uma espécie de congresso de brasília contrastando com a pobreza nas ruas do Brasil. Um dia a ressaca do mar engoliu a cidade todinha, agora ela está no fundo do oceano, e a cada cem anos ela submerge e fica exposta por uma hora. Se durante este tempo algum comerciante conseguir vender qualquer coisa a qualquer pessoa, mesmo que seja por uma mísera moeda, este salvará toda cidade e ela vai submergir, e aí todos os habitantes poderão então morrer e ter o merecido descanso.

- Ah Enemerique, então você sabia que eu poderia ter salvado a cidade, não é?
Você acredita em mim, não é?

Os dois sentaram na areia e choraram, e não dava pra perceber qual deles estava mais triste. Nas noites que se passaram muito conversaram sobre o assunto noutras viagens.

De outra feita, era uma noite quente destas que convidam os viventes a mais observar do que aninhar, em dias assim, olhamos as estrelas sendo olhados por elas. Ao longe dava pra ver a silhueta de uma outra cidade parecida com aquela que vira. O minino foi até ali montado num ganso e ao se aproximar da visão que ele tinha da cidade maravilhosa de outrora descobriu ali apenas ruínas de uma cidade destruída. Enquanto se aninhavam pra dormir, ele percebe que não estava mais triste por não ter salvo a linda cidade sepultada, era melhor que ficasse lá com toda sua glória. Conforme a gente envelhece a gente se acostuma um pouco e ficamos felizes com uma cidade que existe que com uma outra magnífica no fundo do mar.

Não, não foi eu quem criou esta história, nem nada tem a ver com a Ataliba, mas seria maravilhoso se assim fosse, eu só adaptei a nosso tempo, lembrando que antes de você ler, alguém revisou, leu e releu, gostou ou não, mas viveu por algum momento uma aventura possível. Em breve, num futuro bem próximo, nos encontraremos por aí vivendo nossas lembranças soterradas e lutando pra tirar nosso imenso maravilhoso Brasil da lama, lembrando que na lama também vivem os fungos e os caranguejos. Sempre com amor, nunca com desdém, saudemos a vida que podemos ter. E viva o Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL