PUBLICIDADE
Topo

Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fantasia

Victor Balde
Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

17/10/2021 06h00

Ai de mim se não me salvassem as fantasias, era uma história tão linda, feito uma mentira destas que a gente deseja que seja verdade de tão pura que se fazia, como aquela do pequeno minino teimoso feito meu Nico. O minino que prendeu um gnomo piquininico como o polegar dele, se comoveu com o pedido de clemencia do homem miudinho e resolveu soltá-lo. Levou um tremendo tabefe que desmaiou, quando acordou estava miudinho, miudinho, do tamanho de um polegar. Pra encontrar o gnomo ele precisaria ir até o celeiro, porque segundo sua mãe, era lá que moravam todos os homens pequenos, a travessia pelo quintal não foi fácil, porque ele, quando grande, desdenhava de todos os animais, e agora que ele ficou miudinho deu de ouvir e entender o que diziam todos, as lesmas, formigas, taturanas e os bichos maiores zombavam dele. Ai de mim se não me salvassem as loucuras insanas que ainda guardo, de ouvir o vento, conversar com deuses e formigas.

A loucura é o sal que não deixa o juízo apodrecer como disse meu amigo Fernando Pessoa, protege meu ndotolo de composições que minha essência crê ruim, assim surgem muitas histórias. Vou te contar um segredo, sabe por que lembrei? Porque sou cheia destas anedotas que muito me curaram as dores de dentro. Refúgios, toda vez que o mundo me atirou uma pedra ela virou um pássaro e me levava a voar, ou um peixe a brincar nas águas, ou uma folha devaneando no vento, ou ainda pra esquecer umas chineladas de acerto de contas caçulas, sem sair do lugar, pois tanto que é verdade que está lá nas minhas escrituras o mininico Nico piquininico.

No meu livro café, numa passagem, um pássaro me tira de uma enrascada que sozinha eu jamais conseguiria, sem contar que meu cachorro me ouvia, compreendia e até respondia, só quem duvidou disso foi aquele psiquiatra que mãe me levou, esses tipos de feiticeiros não sabem nada sobre portais, animismos e invenções infantes, nem os creem, para eles são só miniadultos. Destas que resultam em viagens, descobertas ou mais chineladas e castigos, memorias que a neurociência dá valor e a escola omite. Ele me passou umas bolinhas pra tomar para apagar minhas viagens, cê acredita? Estou buscando-as catando nas pedras do caminho por onde andei, no entanto, eu hoje adulta cinquentenária tentada, tento acreditar que este mundo não existe, o doutor tinha razão, será?

A lua é nova, devo manter a calma e evitar contenda, é o que diz a lua, a vida, o zodíaco, no entanto, estou aqui ouvindo uma música de melodia dançante, mas com uma letra horrível, a bisa diria que o demônio mora nela, mas eu não penso como minha bisa. Música é viagem, uma música maldita destas que depreciam nossos corpos são pesadelos, eu jamais pensei que viveria pra esta evolução, mas tem quem goste, eu não. E se formos brigar com a censura ela vai bater na gente e perderemos muito mais que isso que aí está. E eu sou filha de Iansã, afilhada de Sultão Das Matas, filha de encantaria não tem querê. Nunca quis morar na ignorância, porque fui escolhida pra ensinar a humanidade a força da luta e do ofício, neles é que aprendi que o trabalho não deve ferir. Começam logo por chamar mulher de novinha, estacionado na minha porta, canta a boca do porta-malas do carro como se fizesse uma serenata pra me acordar, será que é comigo? Petulância! Como se eu tivesse conseguido dormir, e cantam como se fossemos lesmas, taturanas ou um dos bichinhos do canteiro que podem se metamorfosear em tantas coisas. As lesmas devem gostar de ouvir enquanto jantam as folhas do meu jardim, mas eu perco o sono, não sou uma pedra falsa e meu coração arranha, não consigo nem dormir quem dirá quicar, rebolar, sentar, descer, ainda mais com esta humilhação que chamam de letra de música. Sem nunca envelhecer e ao fim seguir novinha e amiga de tudo isso que neste momento fere a mim e a toda minha geração. No entanto há mulheres ali no meio dançando até, não é uma crítica a dança delas, o som é bom, quando foi que um útero sagrado se permitiu a tanta depravação? Para estes estamos mesmo sem vontade, e não somos donas de nossos corpos como os animais, todavia um dia eu fui jovem, nunca permiti que amigos me chamassem se quer de mina porque eu tenho nome, a gente já tem inimigos pra fazer isso, diante da minha maturidade não consigo entender apesar de tentar, nunca vou entender o porquê as pessoas se aglomeram em volta de uma musica que deprecia seus corpos, depois reclamam quando a falta de respeito se espalha pra além dali. Como se fossemos moendas de desperdiçar garapa e tornar-nos um caldo ruim. Que garapa ruim visse!

Ontem eu estava no Aparelha Luzia, assim como muita gente, era oito horas da noite, pessoal chegando, o repique do tambor ecoou e pronto, encostaram quatro viaturas.

Noutro dia, num sarau na casa de um amigo, era dezenove horas, nem havia começado a festa literária e os vizinhos chamaram a polícia, estes que põe em risco a nossa existência. A música de letra ruim está tocando alto desde ontem e já são seis horas da manhã e nem sinal de parar. Sou resistente e escrevo, duvido que só eu estou incomodada, mas agora vivemos esta falsa complacência com algo que perturba para fingirmos boa vizinhança, esperando que alguém de a cara a tapa e se imponha, um vingador, um herói vizinho. A periferia mudou muito de uns tempos pra cá, perdeu respeito, tenho netas, mãe, avó, que tem que ouvir certas barbaridades de gente que elas cuidaram ou brincaram quando criança, gente que nasceu de chocadeira, parece. Eu aclamo silêncio, são agora oito horas de manhã, a aurora teve que se por, ela não merece ser saudada desta forma. Ontem, no Aparelha, era o dia do lançamento do livro de uma amiga, teve Gil de Lima, Malunguinho a nossa deputada dando o recado, tambor ecoando e a lua nova. Você estava lá comigo, em memória, só ando bem acompanhada, boas companhias são protetores espirituais, não fosse você, seria um livro na bolsa, um mimo, um talismã, algo que me permita existir dentro da minha timidez, até converso com elas sabe?

Mariana cortou cabelo, quase nem reconheci, estava ainda mais linda, eu também estava. Vim cedo para casa, o sono bateu, meu corpo pedia cama, a presença das viaturas na porta intimidando a gente me deixou ainda mais cansada. Tem dia que a luta cansa, mas como é lenta a noite quando a história é ruim. O devaneio se alonga no ritmo lento do céu noturno, os astros ficam lentos, a certa hora você se materializou lá na minha frente e me cumprimentou tão emocionado que achei que nunca mais eu iria me libertar do anel do seu abraço, nem sei se queria, sussurrou algo em meus ouvidos que me arrepiou todinha, nem as paredes confesso, fez uma proposta e cobrou resposta imediata, como podem ser assim tão diretos? Não achei nem ruim nem bom, sou romântica, achei melhor achar o caminho de casa. Vai que me tentas e eu queira sei lá o que... Sexo é compromisso, meu pensamento voa, e sabe o que mais? Amanheci com sentimento brando, lembrei do abraço com intenção, será que errei em deixar passar? Fiquei aquecida com seu afeto, fiquei emocionada com a blindagem deste abraço de minino. Meninas como eu não são afoitas como... Tem gente que preserva e prefere esperar, sou destas. Às vezes espera tanto que amadurece e cai, adultos não sabem esperar, tem medo de que o mundo acabe, acham que sexo paga conta, fecha ferida, alimenta egos, mas não é assim, se mal feito fere a alma profundamente, por esta razão eu amei o teu abraço. Deixe que eu acerto minhas contas, e com todo o barulho da música ruim no meu ouvido teve um momento, lá no meio da madrugada, que o sono me levou a viagem nos teus braços, um momento de silêncio e paz, era uma presença sem pressa, o efeito da lentidão, e brilhou pra mim, pra nóiz, uma fantasia universalmente vivida. Estou agora caminhando com um amigo poeta, Eliot, se não me engano. As estrelas que contemplamos nos contemplam. No meu sonho, nos casamos, a lua de mel foi na empresa, lá no Lab, bem ali na recepção, em frente ao balcão, ali recebemos as felicitações dos amigos. Mãe diz que eu misturo as coisas, ela tem razão, sabe como é, né? Eu sei porque já casei diversas vezes e em todo casório é assim, as pessoas se sentem na obrigação de se expressar. Assim como nos velórios e aniversários somos ligados a rituais, tanto que reinventamos os nossos a nossa maneira agora na pandemia. Lembrar que esta noite que narro agora foi em 2017 a gente nem sonhava que viveria tal pesadelo, rituais são bons lugares para refletir. Querem falar? Falem. Tem muito a ver com os nossos silêncios, mas...

No meu sonho ninguém me felicitava, eu estava linda e invisível, num canto da sala no meio do caminho. Ninguém da minha família e nem da sua, só nóiz dois, éramos super família, mas tinha em nossos corações a pergunta: Cadê minha família?

Estava na cara que nem era festa nem estávamos felizes, era um dia de trabalho visitado em sonho, como se festa fosse um pequeno grupo apressado de amigos rodeava você, que não dizia nada ou quase nada, eu não existia ali, e todos sorriam e davam tapinhas nas suas costas perguntando sobre como foi a primeira noite. Eu ali, cumpria o papel, como se fosse uma viagenzinha cobiçada de primeira viagem que as mulheres invejam, e que irá estender o lençol manchado na janela porque todos querem tirar uma casquinha da noite passada e sonhar os seus sonhos cheios de pesadelo e cachaça, e inveja mesmo. Certa hora uma cara conhecida pega você pelo braço, afasta-o da multidão de quatro ou cinco invejosos e pergunta com o dedo em riste: Você sabe o tamanho da grandeza da mulher com quem você dormiu? Olhando dentro dos seus olhos, e repete: Sabe o tamanho da sua responsabilidade? Sabe qual sua obrigação?

Quando eu ouvi tanta coisa se passou na minha cabeça, a primeira tinha referenciada a minha idade, eu ouvia grandeza e entendia velhice, foi uma eternidade tudo aquilo, até alguém intimar: O que você fez com ela depois daquele abraço? O que fizeram?

A gente leu e jogou cartas, a cama era pequena, ela é muito grande mesmo e os pés ficaram pra fora da cama e das cobertas, ficaram frios porque a coberta era curta. Nesta hora eu acordei e ri, meus pés estavam gelados de verdade e eu sou grande mesmo e nós dois rimos, eu só aceitei minha grandeza.

Ouvi a música de mau gosto, vontade de jogar um balde de água fria naquela gente, mas resolvi me vingar deles de outra forma, botei fones de ouvido e peguei um companheiro de cama o livro das Camélias de Zelita Seabra, foi lá que encontrei o pequeno polegar, o mini menino que um dia, quando era grande, fez o que bem quis, agora estava pagando por sua inocência, ali mesmo, no seu quintal. Tempo é tempo, já fiz muito barulho também, mas o tempo passa e a gente esquece. Ele cruzou o quintal entre insultos e bicadas, chegou ao celeiro, descobriu que sua mãe se enganara, ali não moravam os gnomos, mas um bando de garças. Bem, vou ter que ficar por aqui porque o texto ficou muito grande e pra mexer com a sua curiosidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL