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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A última vez

Victor Balde
Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

03/10/2021 06h00

- Filha minha cê num vai conseguir jogar fora este rebento, Ogum quer ele na terra, se foi escolhida, não busque por morte e confusão, porque cedo ou tarde ela vem, qué mesmo não trazê esta criança ao mundo? O corpo é seu, escolha, cê pode não querê, bata a barriga num poste destes do caminho um, três, sete, chame pelos Egunguns.

- Quem são os egunguns sultão?

Um dia, minha fia, vai tá diante a eles já que é filha de quem é.

- De mais quem eu sou filha?

Minha fia, tem muitas perguntas e poucas respostas, é uma criança ainda. Não dê ouvido às vozes de fora, elas tem medo igual ocê. Sua casa de fé te espera, um dia se acerta o caminho, coração sabe. Tem uma voz aí dentro, tua mãe fala sem cansar, como tua sombra. Vá em paz, quem te guarda não dorme, filhos são presentes.

Assim foi nosso reencontro pra voltar pra casa era talvez 1989 ou 90, pouco tempo depois voltei, já com a criança nos braços, eu não acreditava mais em animosidades, Sultão sabia disto. Naquele momento eu não acreditava em nada. Era sábado, dia de cosme, chovia lá fora, as palavras do caboclo nunca faia. Eu vivia em cima do muro entre ser evangélica e ir a casa de Sultão da Mata quando precisava adoçá-la, Sultão disse que eu precisava ir.

Aleguei o perigo que era sair naquela hora da madrugada.

- Siga em paz, tem uma falange com você. Os contrários matam gente na calada, você tem outros inimigos.

Eu não sabia se eu poderia mesmo não ir caso não quisesse, pior coisa que eu vivi nesta época foi a liberdade, é horrível governar a si mesma e só ir se quiser. Fora feita e ensinada a obedecer pra ir ou ficar, difícil decidir, igual criação amarrada, que sabe até onde pode ir, não é muito legal o destino das pessoas que ousam ir além do limite, vivia a mando do mundo.

Em casa, a madrugada seguia morna, úmida, as crianças dormiam, a voz gritou na direção da mata, ali no portão, gritou meu nome várias vezes: Fulana, fulana, fulana!

Nunca é bom responder, pode ser a morte querendo buscar a gente, igual chinelo virado, nunca confirmei, mas não tinha porque duvidar, quem responde ela vem buscar.

A morte já estava, e agora? Ele me chamou por três vezes, porque que ele está chamando? Alguém que nem afeto me guarda mais, por que me chama? Padrinho de casamento, padrinho compadre, agora meu desafeto, só por que eu botei o irmão dele pra fora de minha casa. Chamando assim, aos gritos, o meu nome de proteção, o nome que mãe me deu, feito uma flecha lançada ao ar, coisa boa que não haveria de ser. E desde que o atendi, após o terceiro chamado, a casa se transformou, cheirava a vela acesa e flores mortas, ele havia morrido, fato consumado daquela data, como eu, meus filhos teriam um pai em memória. No IML o homem entregou um pacote com os pertences do morto, uma corrente pretejada, chinelas, coisas que soltavam do corpo, herança.

Perguntou se deixava herdeiros: Dona, sem RG ele será enterrado como indigente, tem que providenciar. Um absurdo um vivente sem documento, mas que também não carecia conselho, só o cuidado mesmo. Tudo foi tão rápido, festa, briga, tombo, socorro, morte, IML, ninguém acreditava que ele tinha morrido, um sorriso tão bonito. No velório, na igrejinha nova do Fontalis, a família foi se reunindo, eu e a trinca de crianças a tiracolo, os herdeiros, como disse o moço do IML. Nunca mais queimo papéis e nem coisas, nunca mais faço isso, onde já se viu botar fogo em documentos, vontade mesmo era atear fogo nele, naquela época.

Amor quando vira ódio, sabe? Fui aconselhada pela raiva, moço, nunca aconteceu com senhor? Querer fazer uma coisa e fazer outra? Foi a raiva, saiu para arrumar emprego segunda-feira, voltou tardezinha sem dinheiro com uma gaiola cheia de pardalzinho dentro, só pra me infernizar e assanhar as crianças.

- Eles só podem ficar se sua mãe deixar. Vão ter que dar alpiste ao painço e afagar o cocoruto deles.

Como eu queria que alguém me perguntasse o que eu queria, eu dispensaria as sementes, como pode além de não trazer solução ainda trazer mais bocas, foi com ódio que ateie fogo a mala e abri a gaiola, e dizemos coisas um ao outro que aquele que vivesse se arrependeria, como naquele momento.

Pessoas entravam e saíam da igreja a todo instante, como sempre. E ele já havia saído de casa há dois anos.

- Se Ge não tivesse expulsado meu fi da casa dela, isso não teria acontecido.

Por que meu sogro me chamava de Ge? Não sei.

As pessoas vinham ver de perto a feição da viúva, já fiz muito isso, pra saber se tem tristeza.

- Eita, herança boa mesmo é morrer cedo o marido e deixar a viúva nova, a vida não sabe olhar pra trás.

As crianças ali se encontravam, primos com primos ficavam contentes. Velório é lugar de trégua, famílias brigantes, não festejam nunca, isto era raro de acontecer, mas criança tem seu jeito de viver e o lugar virou logo um oásis, o caixão ali virou logo um túnel para brincar de baixo.

- É seu pai que vai aí dentro minino!

Parecia mais um encontro comum de gente que não se via há muito tempo, e era, uma semana antes Tiana ligou pra ele com a última ficha que eu tinha num orelhão lá da XV de Novembro, e ele falou alguma coisa pra ela que fez ela chorar de soluçar. Ele sempre fazia isso caso estivesse com alguém por perto, respondia pras crianças o que queria dizer a mim.

Perdeu a última chance de falar com a filha, perdeu a benção.

- A mãe vai brigar com ele semana que vem fia, se ele vier.

Aquele domingo foi a semana que vem e Sultão já havia dito, não chama, ela vem sem chamar. A contenda foi na festa de aniversário dele, mas toda festa na casa dele acabava em briga e algumas em morte mesmo sem festa.

- Nasceu e morreu na mesma data, mesmo mês.

Chegaram os homens de coturno para fazer perguntas, quem foi, como foi, quem esteve lá? Querem tirar da gente palavras que a gente não tem pra dar, nem ali eu estava, estava na festa de Cosme e Damião moço. Entraram na igreja e ficaram, as botas até o joelho, nem dá pra tirar esses troços do corpo sem paciência, sem educação.

Diz o poeta que o amor há de renascer das cinzas, tomara. Eu era criança ainda, um deles balançou a sacola de mãe na terra gritando:

- Preta macumbeira vagabunda!

Tinha ido fazê obrigação a mando de Dona Maria Preta para ajeitar a vida da gente, havia banhado, ajeitado e rezado pela mãe do sujeito em transição religiosa. Dias atrás, depois de ter fechado os olhos dela, dias antes era a pagã. Nunca vou esquecer, mesmo que se passe mil anos e eu renasça diversas vezes, esta dívida seguirá. Esqueci as faces dele, e de cada um, mas transferi a dor da humilhação para todo e qualquer contingente, homem que suja as mãos de pólvora, nem tem memória, filha, irmã, mãe.

- O que eles querem saber?

Quer saber da briga, por que não pergunta no buteco ou a quem socorreu, nós ali estávamos a recolher os ossos. Porque ninguém me pergunta: Mulher do que você precisa? Era a festa de Cosme derradeira.

- Moço porque ele vai num caixão lacrado?

- Acho que é presente dona, tem gente que tem sorte, mas é quase de graça viu, num reclama.

Sorte mesmo era estar vivo, não acha?

- Se aparecer outra viúva eu emborco o caixão.

O padre chamou para reza, para as devidas encomendas e ameaças. Todavia, o samba corria lá fora, o cara era de samba e samba se faz fora da igreja. Samba é sinônimo de liberdade, liberdade é pra fora com cerveja, sem camisa, de chinelo, e além do mais era domingo, em roda de malandro que morre de sábado para domingo segunda é feriado.

Uma mulher que não conto quem, veio dizer que se acaso eu tivesse um desafeto e se eu quisesse que morresse era botar um bilhete com o nome no caixão que ele vinha buscar. Vish e tem mais isso e ele tem este poder todo? Tivesse querer moça, nem ele teria morrido, duvido de ó dó, tivesse e pudesse estaria lá fora agora cantando o morto, sambando e bebendo por ele. Nunca que estaria aqui deitado nesta caixa lacrada, rasa, feita de ripa barata, emprestada e apertada, com as mãos postas esperando quem quisesse vir olhá-lo. Ele era libriano, um elemento de ligação, ele era a ligação, pra mim a morte é uma imposição do tempo de Deus mesmo, não é vontade nossa, que pela gente, nunca ia,

O cavalo de Sultão estava lá, eu vi, e como dançava bonito viu, nunca consegui acompanhar, viveu a vida, foi curta, mas foi boa, na minha vontade o mundo criaria vários andares condominizados pra nunca morrer ninguém, mas nem mundos eu sei criar.

Inúmeras vezes, na hora da ira, que a gente jurava falso a sentença do outro, mas era sem querer.

- Quando você morrer eu não vou ligar!

Era mentira, ainda naquele mês, quinze dias depois da morte, Evandro já com dois anos, fez cirurgia de hérnia.

Eu amarguei o peso da solidão das dez horas de incerteza, ali no Mandaqui, sem comer, sem beber e sem o dinheiro da condução até, desejei que estivesse vivo, pois se vivo, estaria lá, sem um tostão no bolso, mas estaria. E confesso que senti saudade, eu temi minha solidão desejada, e tirei forças de onde nem sabia que tinha, eu sempre fui mãe e pai, só não sabia que seria tão logo. Ah, se pelo menos não fosse envolvido com orgias e mentiras.

Hoje até consigo entender que foi o mundo que o encaminhou para este lugar. amante da boa musica, negro, vivente do morro, pobre, pai violento, prato cheio pra um governo racista. Um sonhador musicista onisciente sem saber, sem estudo.

Conhecedor de gente, que eu que tinha o luxo de ter estudo, casa, um rádio, nunca tinha ouvido falar, eu só conhecia o programa do Zé Béttio e o que vazava. Era uma ditadura, por sorte e manejo de minha mãe com os botões do aparelho, só um adulto dirigia um rádio, pude ter acesso a voz de Seu Moisés Rocha em O Samba Pede Passagem, o resto era ladeira abaixo, de Silvio Santos pra menos. Já Miguel aprendeu com os discos nos bailes do Amauri, filho de Dona Célia, e na galeria 24 de Maio no centro de antigamente, a mãe nunca deixaria a gente ir até lá, porque lá ia a polícia.

Em melhores tempos a gente passava parafina no cabelo deles pra enrolar mais ainda enquanto passava pasta Célia pra alisar os nossos. Ele frequentava minha casa e era amigo de meus irmãos, todo final de semana eles ouviam música bebendo Cuba, Miguel me ensinou sobre Marvin Gaye, James Brown, Trio Esperança e tantos mais, eu gostava de ver ele dançar, tinha esperança de aprender um dia caso perdesse a vergonha e o medo. Quando via ele fazendo acrobacias pensava muitas coisas erradas, como eu poderia crer que poderia ser profissão e arte, pobres meninos encaminhados para morte ou o hospício tão cedo sem nem se dar conta, fortes mulheres, que como eu, caminham só na luta contra o racismo. E quando teve sua vitrolinha perdida, seus discos distribuídos pelo mundo para pagar dívidas, desistiu de viver, entregou-se ao álcool. Tinha nem energia ou Fontalis naquele tempo, o que lhe restava mais a não ser esquecer tudo e se juntar a amigos comuns menos sonhadores ou afeitos com seus fracassos, mas o sonho nunca desiste do sonhador e enquanto ele não achava um caminho ia mentindo pra si mesmo. No início eu até ajudei a contar algumas mentiras.

- Miguel ta trabalhando?

- Tá sim.

Mentira estava dormindo, escondido, eu mentia às vezes até por se vingar de mãe que toda hora perguntava, na verdade, mãe sabia que era mentira, depois foi ela quem me ajudou toda vez que eu precisei. Tirou da boca pra me dar, casa, grana, paciência, e tudo eu dividia com ele, e como todo mundo tem um lado ruim, ele devolveu com mentiras, calúnia e aquele sorriso que me fez apaixonar por ele. Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem, dizia a música, que sempre fazia com que eu esquecesse o que devia dizer e que atitude tomar, por dez anos, só quando decidi que iria curar-me dele, precisava porque eu estava morrendo com ele, não teria mais jeito, o caso era grave, comecei marcar tudo o que era bom e o que era ruim num papel, fiz escola. As marcas de violência, de pouco caso, de desaforo, a comida jogada na parede, o rastro a lágrima do feijão escorrido na parede como sentença, que até mofou, o choro das crianças, as ameaças. O bolo de aniversário jogado no chão diante dos convidados, a mesa de natal desfeita debulhada no chão, a minha foto na carteira do seu amigo, dada por você, a foto de nossos filhos dados como presente sem volta a estranhos, as casas perdidas por causa de brigas, as mulheres, as promessas nunca cumpridas, e a cada pastel nunca comido na feira de domingo.

- Quando eu me vingar de você o diabo vai sentar pra assistir.

- Duvido.

Pagou pra ver, viu, tava pago, não me deve mais, ninguém sai da minha vida sem troco, principalmente alguém que eu amei tanto.

O samba corria a larga, o velório seguia com ladainha, as beatas riscavam as contas do rosário com um olho no peixe e outro no gato. Convenhamos que o samba perturba o espírito da vigília, se fosse ver mesmo ia encontrar lá o pezinho quicando debaixo do banco e o compasso no pensamento do ndotolo sincopado, marcando até o choro da cuíca.

Entregue ali ao acaso a vontade de estar lá fora, esta era a vontade de cada coração

- Que reza cumprida meu pai, tão repetitiva.

Mãe veio de rancharia para o velório.

- Este defunto nunca foi de reza só de folia.

Teve uma hora que eu olhei com tanta vontade de estar lá que perdi o contexto religioso, meu Baco, minha Hebe juntos a Exu e a Pomba Gira gritaram alto, esqueci o ritual ou a vontade se sobrepôs a realidade e o sacristão retou-se.

- Quem não estiver satisfeito que saia!

Sem cerimônia levantei e saí, já tinha muito tempo que eu queria sair, mas tinha medo de magoar Deus, que é muito sensível, e minha mãe. Saí para sempre, até hoje, mas eu finjo bem. Comigo saíram mais um bom tanto viu, colegas de pensamento, e de mais a mais estávamos na produção tinha que avisar, ônibus, sepultamento, igreja nenhuma autoridade eclesiástica faz isso. Isso não se resolve com oração e sim com ação, acredita que fizeram uma lista corrida pra juntar dinheiro pra família? E alguém gastou, eu soube quase um ano depois. Até o sacristão passou o balaio, padre até em cerimônia alheia pede dinheiro, quase tudo em seu lugar caiu uma destas chuvas que dão em setembro a capela se acotovelavam até a gente lá fora se aproveitou ali do beiralzinho para se esconder dos pingos, mas como até as alegrias são passageiras, passou. A gente ali tem direito a se esgueirar no beiral, foi a gente que juntou dinheiro pra fazer aquele casebre e de mais a mais a igreja é do povo o padre é da cúria. A gente até é obediente, mas desinformado não. Tinha mais criança que adulto lá dentro os verdadeiros devotos de coração.

- Tem gente dando doce de cosme lá fora.

Pronto, acabou a alegria da igreja, porque as criancinhas são a patota de cosme, antes que eles voltassem, alguém se aproximou do caixão e depositou umas balinhas, e antes que o sacristão se arreliasse falou:

- É pra adoçar a viagem, ele está aqui, mas é de cosme.

Com sua licença.

Evandro sempre quer saber mais sobre o pai que ele conheceu tão pouco menos que os outros, mas o que me traz aqui mesmo é o recado de seu Sultão da Mata me convidando pra voltar pra casa.

Axé, eu voltei.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL