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Café com Dona Jacira

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O senhor do tempo

Victor Balde
Imagem: Victor Balde
Dona Jacira

Jacira Roque de Oliveira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira (Jardim Brasil Novo), periferia da Zona Norte, contadora das suas próprias memórias. Trabalha com a criação artística se utilizando de bordados, que contam sobre as diásporas africanas e as musicais, o patrimônio imaterial da humanidade, as histórias da cozinha de sua mãe e também do Jardim Tremembé. Atualmente, Dona Jacira também pinta, faz cerâmica, desenvolve o ofício de marcenaria, jardinagem com agricultura orgânica e a criação de bonecas; uma verdadeira detentora de tecnologias ancestrais.

19/09/2021 06h00

Setembro

- Sabe quando mesmo aquilo que a gente mais gosta se opõe a sair de dentro da gente pra conflitar cá fora?

Hoje eu não gostaria de escrever nada, estou escrevendo porque pra trás de mim eu já tinha militado nela, e sinceramente, deitei fogo a muitos belos escritos, meus confessionários, não porque eu não gostasse, mas porque no fim das parcelas eu descobri que o recado era para mim mesma, tava pago. Me sinto culpada em, pelo menos desta vez, não estar desesperada com o que comeremos no almoço e agradecida. Lembro com saudade quando a gente sentava na calçada e contava placas de todos os carros que passavam, quem acumulasse mais finais de números teria todos os seus desejos realizados. Comíamos fisális, maria pretinha, azedinha, sempre tinha comida. Me desculpe se faço aqui tal confissão, é que estes dias são mais prazerosos de lembrar, golpes atrás já passei 18 horas em fila de açougue para comprar um quilo de jornal com nome de carne, já vivi racionamento até de papel higiênico, fui apresentada às prateleiras de mercado vazias quando só o ágil importava. Tivemos que rebuscar no velho baú de nossa memória e tirar de lá fubás, ervilhas, lentilhas secas para substituir o feijão quando ele valia ouro. E se faltasse o gás tínhamos nosso fogão a lenha, mas a dor de conhecer esta dor me tira o direito de estar bem neste momento, ciente que conheço a dor de todos os que não estão, parece que nem mereço. Eu já fui alvo dela, desta fome, eu já tive o letreiro da minha vida apagado, pisado, queimado, e nem foi por propósito, foi pouco caso mesmo, projeto de genocídio.

No entanto, é setembro mesmo com dias escuros, os ipês amarelos anunciam a abundância pela estrada afora, aqui atalibanamente florescem sem perguntar ao agronegócio se podem ou não, não deveria eu fazer o mesmo? Que me importa se hoje o fisális está em alta nos mercados gourmet valendo o olho da cara, fomos apresentados uns aos outros a jacirações atrás, junto com ele há uma infinidade de outras frutas que me sustentaram como a maria pretinha, prima do tomate, da berinjela e pimentão, e que diferença faz?

Se agora, bem alimentado e embrulhado em celofane dentro da vitrine protegida por segurança e tudo mais, nem me reconhece, o caso é que somos amigos de infância e nem sabíamos os nomes um do outro.

Estou enrolando, hoje é um marco na história da nossa família, Gabriel está indo pra escola feliz da vida, já é o segundo dia e ele já comeu sozinho, dormiu, fez amiguinhos e voltou pra casa dizendo que não bateu em ninguém.

Queria eu que esta escola nunca tirasse o sorriso deste rosto inocente, e espero conseguir perceber quando a lâmina do ódio estrutural feri-lo, para que possamos tomar providências cabíveis para ele nunca esquecer que em algum lugar ele é amado, para que um dia ele não precise cambalear pela sombra procurando pelas calçadas sua criança para tomar de conta. Como agora o acaso me dita: Levante, se pegue sua criança pela mão e caminhe.

Você cresceu, deixe a pirraça pra outro tempo, precisamos de gente responsável para pôr a vida no lugar, a coisa está tão feia que só podemos ter esperança e fé como fatores principais de vida. Veja como pode dar errado um irresponsável num lugar errado, vamos precisar de todo mundo, se você se cala diante de uma injustiça você precisa se tratar.

Salve primeiro a sua criança de você mesmo, respeite quem veio antes de você, quem não reconhece esta verdade, já está errado. Que a tua ira não se levante diante da tua cegueira, penso no meu comandante maior, minha sombra, meu guia. É ele que me estimula a tomar decisões como agora, move meus desejos, impulsos, a própria intuição, com um estalar de folhas. Tem alguém que caminhou contigo com muito amor em servir e muita coragem pra suportar, respeito. Não jogue este amor no limbo.

No mercado municipal tem fisális pra vender, sabe quem primeiro me mostrou? A vida de bandoleiro que Nico levava, diziam que era veneno, como manga com leite. Respeitar minha memória é importante, é ela que guarda forças inconscientes que movem minhas ações e sentimentos, fisális é amarelinho como o sol ou o mês de setembro, muita gente usa para enfeitar doces e bolos, dizem que é cheia de benefícios e tudo mais, mas pra gente aqui no Ataliba era só uma comidinha possível no meio de alguma clareira da mata, longe de casa. Parente da maria pretinha que é docinha, mas não deram a ela a mesma importância, será que é porque é pretinha? Acho que estou variando, pena que a gente cresceu e se apaixonou pelo capitalismo, ele valorizou algumas coisas e destruiu tantas, ao precisar mudar um hábito, ou uma conduta moral antes de qualquer ato a gente tem que lutar. Ciente que precisa mudar e o que deve ser feito para acertar as coisas, o espelho é como um juiz, não convida. Quantas vezes eu precisei voltar atrás, mas o medo e o orgulho que nunca deixavam, era como se uma força oculta me impedisse de fazer minha vontade, um relacionamento abusivo com o acaso, uma covardia que só me levava a lugares confortáveis como a posição fetal. Como dar o passo necessário com medo, raiva e orgulho? E a memória de que um dia eu tive um sorriso sincero como este que vai no rostinho do meu Gabriel agora, quem vai mudar esta estrutura que maltrata nossas crianças?

Depois, minha mãe e meus filhos esperavam de mim uma atitude, com todo mundo é assim, qual ancestral que num certo momento, ao tomar consciência do erro, tiveram que fazer o mesmo por si e pelos outros? Toda família é uma pequena naçãozinha. Noutro tempo, numa destas tomadas de consciência, fui trabalhar na feira de novo, desta vez vendendo temperos, enquanto meu sonho de escrever ou tecer não se realizava. Eu já disse isto, mas foi pouco, ainda não estou curada, me empreste seus olhos e seus ouvidos. Neste tempo, a zona cerealista era muito suja, tinha um aspecto feio que afastava o público dela, parecia uma cena de filme de pirata, homens com corpos suados empurravam carrinhos imensos cheios de alimento, só ia até lá quem conhecia o potencial dela, suas salmouras e conservas. Mãe quem me levou lá pela mão, eu desenvolvi um estudo por minha conta, sem valor para o mercado, mas muito importante pra mim, já que a academia não me aceitou, mas a natureza nunca abandona. E toda vez que eu tive fé, uma força deu um passo em minha direção, a vida me ensinou que todo aquele que tem conhecimento é mestre, muitas vezes o cansaço me dominava e pra dentro minha chama morria, diziam que eu não gostava de trabalhar, aí eu voltava pra posição fetal e sofria. Porém, quando ela voltava, eu era surpreendida em entender que aquilo que já foi aprendido nunca finda.

Tinha freguesas que não descansavam uma panela no fogão pra fazer uma comida sem pensar em mim, na minha barraquinha. Ali na feira de sexta ou domingo elas podiam encontrar todo tipo de tempero moído na hora, reconheciam minha barraca pelas minhas crianças que eu levava. A sonhadora que escrevia num papel tudo o que vivia, perdeu alguns deles nas muitas vezes que se mudou de quartinho para quartinho, mas o que ia na mente, que a voz dizia que um dia eu iria escrever como faço agora, estas ficavam, estou aqui contando a você agora.

Será que com Carolina Maria de Jesus foi assim em cada despejo? Vendo nascer e se acabar gente como eu, fazendo um cortejo sem fim ao cemitério após cada chacina, seja de bala ou pobreza. Na minha barraca tinha serralha, bredo, taioba, inhame, coisas que comi na minha infância e quase nem se encontrava mais, e se acaso não vendesse, a gente comia, muita gente não reconhecia mais como alimento. Quem diria que ser uma mãe sem recursos me tornaria o que me tornei hoje, uma matriarca formada em desenvolvimento humano, e é só olhar pela janela da alma e ver que eu venci, meu método não está errado. Não gosto de confinamento infantil, ele sim é excludente.

A região da Santa Rosa tem dois santos principais: São Vito e Santa Rosa, que nem sei quem são. Igual à Nossa Senhora do Carmo, que fantasiou toda minha infância, ah se eu pudesse receber em dinheiro toda época que devotei a ela! Já que nunca me serviu de nada carregar seu andor, encher seu vaso de flor e acender suas velas, pra mim nada, tudo era pra ela. Também sou teu povo e estou nesta estrada, perdoa se às vezes não creio em mais nada, eu não tinha outro caminho e, mesmo contra vontade, tinha coisas que eu precisava saber. Entretanto, estudando a diáspora, aprendi que esta região abrigava ancestrais meus, era um quilombo, deve ser por isso que gosto tanto dela. Os quilombos foram destruídos pelos senhores de engenho, traficantes de pessoas, o Brás, o Largo da Banana na Barra Funda, o Bexiga, a Mooca, e a Liberdade foram territórios nossos que foram destruídos quando quiserem mudar a cara do Brasil, deixar ele parecido com a Europa, conseguiram eugenizar o Brasil? Não, mas tentaram. Combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.

Exu prepara as crianças como Nico, como Biel, onde quer que eles estejam, ele abriu caminho, Iansã soprou e o fisális veio parar no Ataliba e na nossa pança, e como passarinho a gente replantou ele em todo lugar da forma mais simples. A senhora epistemologia tentou apagar-nos de nossa própria história e com isso maculou primeiro nosso alimento incluindo na nossa mesa de pobre ou rico muito alimento industrializado, modificado, processado em forma de açúcar, farinha refinada e gordura, trazendo doenças que se proliferaram de geração em geração, até nossa sagrada mandioca foi suprimida há marcos temporais atrás.

Devemos isso ao senhor nutricionismo criado pelos senhores engenhosos, mudar a alimentação de seres onívoros e retê-los na pirâmide estabelecida pelos empresários, políticos, jornalistas e pelo credo num país laico. Há uma distância enorme entre comida e nutriente que fica guardada dentro de livros que todo mundo deveria ler já que são saberes e fazeres do mundo.

Já que a terra vem sendo tomada e destruída dia após dia, depois da sedução a gente descobre que não é aceito e volta pra casa, nossos ancestrais também perceberam que dentro de si mesmos havia algo a mais que a própria consciência, um gênio talvez, alma, espírito, um guia interior, para curar nossas mazelas valíamos do que estava guardado em nós como o girassol que brota numa calçada. O saber está no povo, nos curavam com o que conheciam, e cada qual trazia sua sabedoria, unguentos, mezinhas, benzimento, escalda pés, simpatia, diferentes interpretações para situações comuns, isso é uma faculdade, uma egrégora. E pra isso, sempre se usaram rituais, transes, mantras, orações, formas de transcender a consciência oculta e misteriosa muitas vezes chamada de sagrada, como hoje. Os saberes e fazeres de nossas matriarcas acenderam nosso sol e nos potencializam, e nóiz seguimos potencializando, a ancestralidade não é religião! Há muito tempo tentamos dominar as forças ocultas e aprender a ter domínio sobre elas, reze que eu também quero, fé não é barganha! SABE QUAL NOME SE DÁ A ISSO? AMOR

Setembro pra mim representa este amor amarelo, é bem verdade que às vezes apagamos o letreiro da sobrevivência, às vezes fazemos coisas que vão contra nossa imaginação, agimos diferente, comemos demais, bebemos demais, temos medo ou ficamos violentos. É o medo a incerteza do caminho, as experiências passadas deixam marcas, a mente vai tentar argumentar com o medo, sem conseguir, dentro da gente tem muitas vozes, mente e corpo, desejo e razão, anjinho e capetinha, o conflito. A voz interior brota do profundo de nós e tenta controlar nossas ações, desejos não bons, tipo quero enriquecer, preciso dar duro pra isso, aluga-se o próprio corpo que fica sem saúde, mas uma parte não quer e vem a sabotagem, a pessoa se sabota, fica doente, cansada, a vida parece difícil. Lá no fundo tem um sonho de ser feliz, cantar e viaja , mas parece algo tão distante. Pobre pra ser feliz tem que sofrer, este sentimento tira fome e da fome, esta parte fica dentro da gente dizendo estou aqui ainda quero estas coisas, e vem a infelicidade? Ouvir o chamado é importante, quando as coisas não dão certo e não entendemos o porquê, recorremos aos mesmos artifícios sempre: Fé e rituais, estados alterados de consciência. Às vezes, por meios perigosos como drogas e alucinógenos, na necessidade que temos de mergulhar neste caos do inconsciente, procurando algo melhor para preencher estas lacunas, ou então na atualidade buscar ajuda em terapia, ou…

Uma peregrinação, uma grande experiência, sair da rotina pra sair do caos das memórias reprimidas, buscar novos significados, reorganizar o pensamento criativo, voltando o cérebro a sincronia. Os ipês estão escancarados pelas beiras de rua, cada um mais belo que o outro, a amoreira aqui de casa derrama amoras de montão, os pássaros gazeteiam sem parar, começam bem cedo.

Um lado meu me aconselhou bordar, setembro vai me encontrar noutro ofício, estou bordando um livro lindo que fala de uma transição que eu passei, na época fiquei perplexa, onde já se viu, apaixonada eu, justo eu que já estava me preparando pra pendurar as chuteiras para amores. Depois chorei rios e rios por causa dela, foi aí que Iansã me disse: Escreva, anote tudo, não deixe nada, o amor é escola compare a escrita noutros tempos, Obedeci. Às vezes a gente vai contra a imaginação, às vezes não, eu sinceramente, naquela época, achei que Iansã exagerava, como que eu naquele momento era uma e depois seria outra? Eu cismei e anotei só pra depois teimar com saber de experiência feita, e não é que me passou este amor e a escrita murchou todinha? Voltei as tardes enfadonhas, se foram as manhãs risonhas, Iansã estava certa, eu vario, sou múltipla. Peguei o livro e guardei numa gaveta, tanta água passou debaixo da minha ponte desde então, tive novas paixões setembrinas, já nesta fui aconselhada a estudar, Ariano Suassuna que trouxe a mim o Matheus Nachtergaele, viajamos juntos por muito tempo, eles iam comigo na minha ostra por onde eu fosse. E veio Jerônimo Cortez com o Lunário Perpétuo, descobri como escrevemos parecido. Mateus contou-me sobre Cecília, sua mãe, como tem órfãos neste mundo, dei de cana com Ana Martins, que estudou o lunário, nada se inventa, das escritas as perseguições, pôe setembros nisto, na estrada ainda me apaixonei muitas vezes.

Eu sei que falar de paixão da gente é uma chatice, mas as coisas chatas são as que eu mais gosto de lembrar, ficou provado pra mim que eu amo, e como Clarisse; amar eu posso até a hora de morrer. Ainda bem que meus amores um tanto findaram sem se criar, onde eu poria as parafernálias de mais alguém, em casa só cabe as minhas, sou espaçosa, egoísta. E fazendo uma análise dali para trás, com os amores que tive, não sei se quero mais enguiço na minha vidinha que vai tão pacata, vou ao mercado me abasteço do que quero.

Saio quando quero, volto quando quero, não tenho que agradar nem fulano nem sicrano.

Na penúltima paixão já, eu estive por minha conta, eu achava. Iansã me disse em sonho: Plante, se apaixone pelo que aí já está, pegue sua criança pela mão liberte ela da creche. Foi o que fiz, estendi os canteiros até onde deu, quem me conhece sabe que não faço nada sem estudar antes, e tome mais livros, mais aulas, reuniões, checagem, calagem. Tive até uma ideia de criar galinhas no quintal, mas abortei a ideia, já tenho um galo que canta de longe, passarinhos soltos no quintal e no sótão da cachola, minhocas na composteira e no pensamento. Se eu não quero dividir a cama e a mesa como dividirei o tempo que já é tão curto pra mim, a penúltima paixão era um rabo de foguete 17 anos, pense num problema. Segui plantando, imaginando que se Afrodite e Iansã mandar terei eu que viver esta porra, e eu atá queria a parte boa, mas e as outras onde eu poria? Se todo espaço que me resta está ocupado com hormônio e todo resto são espumas ao vento, sou um imenso travesseiro de penas e plumas e se soltar ao vento, é quase impossível juntar, pedacinhos de Jacira voam pra todo lugar, de sorte que sou obediente e anotei tudinho, guardei numa gaveta e esqueci, senão hoje com a murrinha nas costas não teria o que escrever aqui, e eu descobri que estou por aqui por amor puro das pessoas que muito já me amam.

Pronto, acabei de receber uma punhalada de alguém que eu julgava meu amigo, fiquei muito triste, nada me entristece mais que a ingratidão. Aí Iansã me orientou, escreva, borde, cante, deixe o tempo passar. Estou em tratamento.

Já fui provida de falta de respeito e isenta de educação, Já meti o pé na porta, já tive mais força que todo mundo, mas para enfrentar a vida, pra conquistar o mundo, há que se educar, há que se importar, senão num momento qualquer o barqueiro que rema seu barco se queda, e você vai juntar seus cacos, vai chorar noutro lugar. Construir na areia seu barraco, e se você foi cuidadoso e bateu a porta de leve, não travou, não tá emperrada nem vai ser tão dura sua retomada, mas se você cuspiu no prato, jogou a chave no mato e fez esculhambação, aí cê tá meio perdido, mas mesmo assim ainda tem salvação. A casa da mãe te espera e queira Exu que viva ela esteja, senão caro ou cara jovem vais dar a volta ao mundo, volte noutra encarnação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL